Blog do Kolluna

Batuquê de Praia

Batuquê de Praia

No Brasil, o futebol e a música sempre andaram lado a lado. O samba e o pagode estão juntos desde sempre. A música tema do Canal 100, de Luiz Bandeira e gravada por Waldir Calmon, era tocada nas reportagens dos jogos de futebol nos anos 60/70/80 e passava nos cinemas antes dos filmes. Não raro, surge a notícia de algum jogador de futebol que acha de se aventurar na música. Há inúmeros exemplos de gravações feitas por jogadores e que poderemos falar em outros posts. Hoje vamos lembrar que Zico, “o Galinho de Quintino”, fez uma ponta num compacto do seu amigo e compadre Fagner que foi gravado entre o Natal e o Ano Novo, no fim de 1982.

Conta o cantor, em sua biografia, que ia gravar as músicas de um compacto simples com Martinho da Vila, mas, na última hora, a gravadora do sambista desautorizou a participação do bamba. Eram duas músicas do compositor Petrúcio Maia, chamadas “Batuquê de praia” e “Cantos do Rio”. Fagner se viu aperreado, pois tinha programado cantar as músicas em dueto e não sabia a quem chamar para substituir o Martinho. Lembrou de Zico, que já conhecia a canção que era tocada e cantada em momentos de lazer, com amigos comuns antes de ser comercializada.

Zico topou, pois achou que no estúdio estariam somente ele e Fagner. Ao chegar lá, viu que a gravação seria com vários sambistas. Então, o “Galinho” travou. Disse para o cantor:

- “Compadre, assim é bronca. Na frente desse povo todo eu não consigo”.

Fagner, escolado, chamou Zico num canto, ofereceu-lhe um coco verde “batizado” com whisky, entregou um canudo e deixou o tempo passar. Duas horas depois, com o Zico alegrinho, a gravação foi feita e ficou bacana, com uma grande alegria no estúdio e os músicos falando um para o outro: Pô, o Zico se amarra numa água de coco!!!

Segue o clipe da música, com Zico na marcação do surdão.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “Raimundo Fagner. Quem me levará sou eu” (Regina Echeverria)

O gênio e o "migué" do craque

O gênio e o "migué" do craque

Julinho Botelho é considerado o maior ponta-direita da história do Palmeiras. Também foi craque na Fiorentina/ITA, onde jogou de 1954/58. Conhecido por ser uma pessoa muito honesta, séria, que não era de viver em noitadas e também simples, porém fez uma exigência contratual quando retornou da Itália. Já estava veterano e fez questão que constasse do contrato que não se concentraria para os jogos. Cláusula aceita pela diretoria alviverde, nos dias dos jogos em SP ia direto ao estádio, se era fora, dirigia-se para o embarque.

Com o passar do tempo, Julinho gostava cada vez menos de ir jogar no interior. Na sua condição de ídolo, nome principal numa equipe com os campeões mundiais Djalma Santos e Vavá, tinha o beneplácito da diretoria e o aceite do treinador Ephigênio de Freitas Bahiense, o “Geninho”, que foi jogador do Botafogo/RJ de 1940 a 1954 e era conhecido como “o arquiteto”.

Na quarta-feira, o Palmeiras teria um jogo em São José do Rio Preto e, no domingo, o derby com o Corinthians. Julinho chegou para Geninho e reclamou um desconforto muscular para não ter que viajar ao interior. O treinador poupou o craque e lançou seu substituto natural, o Gildo, que foi o melhor jogador em campo na quarta e o time venceu por 3x0.

No domingo, no vestiário do “Verdão”, no Pacaembu, o roupeiro deixou na bancada as 11 (onze) chuteiras, meiões e calções.  As camisas seriam distribuídas pelo treinador. Julinho, como sempre, chegou primeiro, vestiu a roupa e começou seu aquecimento. Quando a delegação chegou, Geninho viu a cena e lhe veio a dúvida: como não escalar o cara que foi o melhor jogador na partida anterior?

Pensou em retirar ponta-esquerda Nilo, recém-chegado, deslocando o Gildo para aquele flanco, mas o Nilo também tinha acabado com o jogo. Então a genialidade do gênio Geninho.

- E aí Júlio! Tá bem? Melhorou da contusão?

- Melhorei. Está tudo bem. Estou 80%. Dá para jogar.

- Ah não! Se está 80% deixa. É clássico. Joga o garoto que está 100%.

E o Julinho, craque do time, aceitou, sem problemas.

Uma cena destas nos tempos presentes seria incomum, até para quem não é considerado craque, mas se acha dono da posição.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Divino: a vida e a arte de Ademir da Guia” (Kleber Mazziero de Souza)

A bola fora de Graciliano Ramos

A bola fora de Graciliano Ramos

Desde sempre que os periodistas de jornal escrito - hoje colunistas de blogs ou jornais on line - dão seus palpites sobre as mais variadas situações e lançam previsões sobre o futuro do país.

Lá pelo início do século XX não era diferente. O futebol ainda era uma realidade oscilante. Inúmeros clubes já haviam sido fundados e os campeonatos eram frequentes, embora ainda de forma amadora e com um olhar preconceituoso por parte da sociedade. A década de 20 foi o período de transição do amadorismo absoluto para o profissionalismo dos atletas de futebol.

Como revelou Nelson Motta, “os domingos eram destinados às regatas na enseada de Botafogo, o esporte mais popular da época, enquanto o futebol começava como esporte inglês de playboys e mauricinhos”. 

E foi com esse olhar atravessado para o chamado esporte bretão que o escritor Graciliano Ramos defendeu, ao assinar crônica em 1921, que o futebol era moda passageira e ele não acreditava que o brasileiro se apegasse àquele jogo. Creditou a personalidade bronca do brasileiro a sua descrença.

“Mas por que o football?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis, ou não”.

Na mesma crônica, o escritor patriota vaticinou que o ‘football’, o turfe e o boxe, como estrangeirices, não teriam maior prazo de validade e, em nome da cultura brasileira, pediu aos jovens que resgatassem atividades nacionais que andavam esquecidas naquele tempo como a queda de braço e a rasteira.

É bem verdade que somente ao sermos anfitriões da Copa de 1950, o futebol passou a ser ligado ao estilo brasileiro, aliando-se ao carnaval e ao samba e fazendo a trilogia do gosto nacional.

Porém, exatamente um século depois, ao ser o Brasil o berço do maior jogador de futebol de todos os tempos, de ser cinco vezes campeão mundial e conhecido mundialmente como “o país do futebol”, não há como deixar de considerar a antevisão do célebre autor de “Vidas Secas” uma grande ironia.

Perdeu a queda de braço e ainda levou uma rasteira do futebol.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch); “De Cu pra Lua: Dramas, Comédias e Mistérios de Um Rapaz de Sorte” (Nelson Motta); http://graciliano.com.br/site/2013/01/a-rasteira-de-graciliano-ramos-no-futebol/  

O abraço da alma

O abraço da alma

Quando soou o apito que encerrou a partida entre Argentina e Holanda, no Estádio Monumental de Nunez e, consequentemente, a final da Copa do Mundo de 1978, o repórter fotográfico Ricardo Alfiero, da revista El Gráfico, captou uma das mais belas cenas em um estádio de futebol de todos os tempos, quiçá de todas as Copas.

Enquanto o goleiro Fillol e o lateral-esquerdo Tarantini, ajoelhados, se abraçavam agradecendo a Deus o título mundial, um jovem invadiu o gramado e se aproximou dos jogadores para partilhar aquele momento, aquele abraço.

Ocorre que Victor Dell’Aquila não tinha braços a envolver os jogadores. Aos 12 anos de idade, teve os braços amputados após sofrer forte carga elétrica.

A emoção da vitória, da conquista, do título inédito despertou em Victor uma vontade de abraçar o mundo e os seus ídolos. Saiu da arquibancada, pulou o fosso e invadiu o gramado para dividir sua alegria com os jogadores e provar que, embora o futebol seja jogado com os pés, os abraços são dados com a alma.   

Créditos de imagens e informações para a criação do texto:   https://ph9brandao.medium.com/o-abraço-da-alma-  

A cigarra e a formiga

A cigarra e a formiga

A Eurocopa de 1992 foi decidida entre a Alemanha e a Dinamarca. Os alemães reunificados, campeões mundiais dois anos antes, chegaram à decisão com jejum, abstinência e trabalho. Já os dinamarqueses, com cerveja, mulheres e sestas.

A Dinamarca tinha perdido a classificação para participar do torneio. Então explode a guerra civil na Iugoslávia e a União das Associações Europeias de Futebol a desqualificam em face da notória desintegração do país, que ao fim do conflito trouxe uma nova geo-política com a criação de novos países: Sérvia, Croácia, Bósnia e Montenegro. Os jogadores dinamarqueses, que estavam em férias, foram chamados às pressas para substituir os iugoslavos.   

O time não estava com vontade de treinar e desfalcados de seu maior astro, Michael Laudrup, que havia vencido a Champions League com o Barcelona e decidiu não participar da Eurocopa.

Por outro lado, os alemães tinham Matthaus, Klinsmann, Brehme e todos os seus astros.

Os dinamarqueses foram passando de fase e ganhando a confiança dos compatriotas, que invadiram a Suécia para assistir a final, que se tornou um conto de fadas futebolístico. Enquanto as ações alemãs esbarravam nas defesas inacreditáveis de Pete Schmeichel, o forte sistema defensivo com saída em contraataque e o bom trabalho em equipe, aliada a liderança do treinador Richard Moller Nielsen, fizeram dois a zero e garantiram a vitória.

A Alemanha, que deveria ganhar, foi derrotada pela Dinamarca, que não se sentia obrigada a nada e jogou como se o campo fosse uma extensão de uma praia.

A cigarra cantora venceu a formiga trabalhadora.

Há um filme dinamarquês, disponível na Netflix, que retrata essa passagem: “Verão de 1992”. Uma boa dica para os amantes do futebol.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Futebol ao sol e à sombra” (Eduardo Galeano)

A obrigação de perder

A obrigação de perder

As eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 1994 foram disputadas sem o Chile, punido pela FIFA após episódio conhecido como “A fogueteira do Morumbi”. Dois grupos – um com quatro seleções e outro com cinco – decidiram quais os classificados.

A Colômbia foi vencedora do grupo A. A Argentina, como segunda colocada, disputou a repescagem com a Austrália e conquistou a vaga. No grupo B, Brasil e Bolívia se classificaram. Foi a primeira (e única vez) que a Bolívia conquistou a classificação no campo. Nas Copas de 1930 e 1950 participou na condição de convidada.

Até então, havia perdido todas as partidas e não havia marcado nenhum gol.

A seleção boliviana fez valer a condição extraordinária de jogar em La Paz, quase acima das nuvens, sendo, inclusive, a responsável pela primeira derrota de uma seleção brasileira em eliminatórias de Copa do Mundo. Mas, a altitude não era seu único trunfo. Os talentosos Trucco, no gol; Melgar e Baldivieso, no meio-de-campo; e os atacantes Sánchez e Etcheverry, faziam a diferença com um futebol cadenciado e envolvente.

No sorteio dos grupos da Copa, a Bolívia não só ficou na chave da poderosa Alemanha, mas quis a má sorte de enfrentá-los na partida inaugural do Mundial. Era o Pequeno Polegar contra o Rambo.

Então, o inusitado ganhou mais um capítulo. Em vez de se recolher, assustada, a Bolívia se lançou ao ataque e enfrentou com coragem a última campeã do mundo. A Alemanha, desconcertada, corria atrás de uma seleção boliviana que jogava por diversão.       

Até que aos 61 minutos, Klinsmann abre o placar. O treinador espanhol Xabier Azkargorta, apela ao “El Diablo”, maior destaque da equipe, em busca do milagre da redenção. Saca Baldivieso e faz entrar Marco Etcheverry, mas que convalescia de séria contusão e tinha o tal apelido por ser considerado infernal em campo.

Dois minutos após entrar na partida, Etcheverry atingiu Matthaus com violenta falta, sendo expulso diretamente (imagem abaixo). Naquele instante, a fortaleza boliviana desmoronou, arrependida de ter pecado contra o destino que a obriga a perder.

Final de partida: Alemanha 1 x 0 Bolívia.

O complexo que obrigava a Bolívia a perder as partidas nos mundiais e não marcar gols foi quebrado, em parte, nos dois jogos seguintes da fase preliminar da Copa/1994. Contra a Coreia do Sul, não perdeu, mas também não ganhou. Ficou no 0x0. Contra a Espanha, mais uma derrota, mas coube a Erwin Sanchez a glória de marcar o único gol da história da Bolívia em Copas do Mundo. 

 Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Futebol ao sol e à sombra” (Eduardo Galeano); https://www.youtube.com/watch?v=mZHlkYgcUi4

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