Blog do Kolluna

Chile versus URSS. O jogo que nunca existiu

Chile versus URSS. O jogo que nunca existiu

No fim de 1973, a maioria das seleções já estavam definidas para a Copa do Mundo da Alemanha. Das 16 vagas, 15 eram ocupadas conforme a disposição da época: a anfitriã e o último campeão mundial estavam garantidos. Cabiam ainda 8 seleções europeias, 02 sulamericanas, 01 da Oceania/Asia, 01 africana e 01 da Concacaf (América do Norte e Central). A última vaga deveria ser definida numa repescagem entre a 9ª colocada do continente europeu e a 3º do continente sulamericano (*): URSS versus Chile.

Por afinidade ideológica do então presidente Salvador Allende com os soviéticos, cogitava-se que os chilenos abririam o jogo.

O golpe de Estado de 11.09.1973 mudou a história. Allende cai e o Chile passa a ser governado por Augusto Pinochet. O primeiro jogo, em Moscou, agendado para 26.09, foi realizado com os dois países rompidos diplomaticamente. Os soviéticos cancelaram as passagens aéreas da delegação chilena na Aeroflot, sendo somente resolvido com a intervenção do cônsul chileno na Alemanha. Tanto na ida, como na volta, os jogadores chilenos viajaram desgarrados, de improviso, alguns individualmente. A partida teve a arbitragem do brasileiro Armando Marques que soube conduzir um jogo sob tensão e que terminou em 0x0, em magistral apresentação da dupla de zaga Figueroa-Quintano. Sequer houve a tradicional troca de flâmulas pelos capitães.  

A segunda partida estava marcada para 21.11.1973, no Estádio Nacional, em Santiago, local que servia de prisão e execução de presos políticos pelo regime Pinochet. O governo russo, longe de ser um baluarte na defesa dos direitos humanos, avisou que:

“Por considerações morais, os esportistas soviéticos não podem jogar nesse momento no estádio de Santiago, salpicado de sangue de patriotas chilenos”.

Os soviéticos não viajaram à Santiago. O governo chileno ignorou a ausência e convidou o Santos, já sem Pelé, para garantir um espetáculo qualquer.

Sem adversário e sob o testemunho de 25 mil pessoas, o árbitro austríaco Erich Linemayr cumpriu o protocolo e apitou o início da partida com apenas os chilenos em campo, que saíram tocando bola lentamente até a área oposta, quando o capitão Francisco Valdés chutou contra o gol vazio. Fim daquele “jogo”, abrindo espaço para o outro, com o Santos, que venceu de 5x0. 

O WO da URSS foi mais ideológico do que humanitário. A FIFA homologou o resultado. Classificado o Chile para a Copa/1974.

A seleção da URSS não foi ao jogo, mas empreendeu excursão pelas Américas, concluindo contra o ABC de Natal, no antigo Castelão, em 18.12.1973 (**).     

O Chile entrou em campo com o a seguinte formação: Olivares; Machuca, Figueroa, Quintano e Arias; Rodrigues, Valdés e Reynoso; Caszely, Ahumada e Crisosto.

(*) Decidido num Chile 2x1 Peru, em campo neutro (Montevidéo/URU).

(**) No Brasil a seleção soviétiva jogou ainda com o Vila Nova-GO e o Operário-MT.

Créditos de Imagens e Informações para criação do texto: “La Cancha Infame: A história da prisão política no Estádio Nacional do Chile” (Maurício Brum); “45, um tempo de futebol e de um poema” (Kolberg Luna Freire)

O dia em que todo o estádio vaiou Pelé

O dia em que todo o estádio vaiou Pelé

Recentemente, em razão do surto do coronavírus atingir 19 dos seus 32 atletas inscritos na competição da Libertadores da América, o River Plate/ARG se viu sem goleiro para realizar sua partida com o Santa Fé, tendo de improvisar o volante Enzo Perez, que contribuiu para a histórica vitória (2x1).

No futebol brasileiro, há a emblemática participação do centroavante Gaúcho, no Brasileirão/1988, quando pegou as cobranças de pênaltis de Aldair e Zinho no jogo contra o Flamengo.

Até o maior jogador de futebol de todos os tempos também foi para o gol em mais de uma ocasião, todavia, uma delas foi providencial.    

Poucos dias antes do jogo contra o Vasco da Gama, onde aconteceria o milésimo gol de Pelé, o Santos foi jogar um amistoso contra o Botafogo/PB na entrega de faixas do campeão paraibano de 1969. Pelé contabilizava 998 gols na carreira e a Paraíba não queria se valer da conjugação do verbo em sua bandeira para negar a façanha ao Rei do Futebol.

A direção do Santos, por outro lado, não tinha a intenção de que o evento – o milésimo gol - fosse materializado naquela data, então criaram uma situação inusitada. O treinador Lula comunicou que o goleiro Agnaldo estava “doente” e não jogaria. Jair Esteves, o suplente, foi escalado e não tinha substituto.

Durante a partida, Pelé se comportou de forma tímida, flagrantemente longe da área, como que se poupando a não querer confirmar a intenção de cravar o milésimo gol naquele jogo.

O Santos já vencia por 2x0 quando o árbitro pernambucano Armindo Tavares marcou um pênalti do lateral-esquerdo Zezito em Manoel Maria, a favor do Santos. Discussões à parte, o lateral Carlos Alberto, como capitão da equipe, convenceu o “Rei” a cobrar a penalidade. Não teve jeito. Pelé foi lá e marcou o gol 999.

Então, Jair Esteves simulou uma contusão, tendo que deixar o gramado, entrando Luiz Carlos, um atacante, em seu lugar. Pelé vestiu a camisa 1 e foi para o gol, sendo a única oportunidade em que um estádio inteiro vaiou aquele que anos depois seria considerado o Maior Atleta do Século. 

Ficha Técnica:

Botafogo-PB 0 x 3 Santos/SP

Data: 14.11.1969;

Estádio Olímpico (José Américo de Almeida – Antigo Dede, no bairro dos Estados) (*)

Árbitro: Armindo Tavares (Federação Pernambucana)

Gols: Manuel Maria aos 15 e 49 minutos e Pelé aos 60 minutos;

SANTOS: Jair Esteves (Luiz Carlos); Carlos Alberto, Ramos Delgado (Joel), Djalma Dias e Rildo (Turcão); Lima (Nenê) e Clodoaldo (Marçal); Manuel Maria, Abel, Pelé e Edu.

BOTAFOGO/PB: Lula; Lucio Mauro, Lando, Fernando e Zezito; Nininho e Valdeci Santana; Chico Matemático (Liminha), Lulu, Lelé (Vizeu) e Pibo.

(*) Não confundir com o Estádio José Américo de Almeida (Almeidão), inaugurado em 1975.

Créditos de informações e imagens para criação do texto: Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1 (Paulo Guilherme); Jornal do Brasil de 15.11.1969 (pág. 22).

A vingança de Luiz "Borracha"

A vingança de Luiz "Borracha"

Luiz “Borracha” foi goleiro do Flamengo nos anos 40 e a sua alcunha foi dada pelo compositor e locutor esportivo Ary Barroso, em razão das defesas eletrizantes e saltos acrobáticos do arqueiro rubro-negro.

Em 1946, chegou à seleção brasileira e, em 1948, viveu o maior pesadelo de sua vida sendo acusado de ter entregue o jogo ao Botafogo e que tirou o Flamengo da disputa do Estadual. Mandado embora, desmoralizado, nunca ninguém conseguiu provar a acusação.

O tempo cuidou de corrigir a injustiça. Em 1979, seu filho Jorge Luiz, o “Borrachinha”, era o terceiro goleiro do mesmo Botafogo e foi escalado de última hora para jogar contra o Flamengo, por conta de contusão dos outros arqueiros. 

E não era um jogo qualquer. O Flamengo estava invicto há 52 jogos entre 22.10.1978 e 27.05.1979. Buscava, naquele jogo, superar a marca do Botafogo que também passara 52 jogos invictos entre 21.09.1977 e 16.07.1978.

O Fogão fez 1x0 aos 9 minutos do primeiro tempo com Renato Sá, e “Borrachinha”, durante o restante do jogo, fechou gol com defesas inacreditáveis, parando o ataque rubro-negro. O recorde não foi batido e permanece, até hoje, com as duas equipes.

O destino se encarregou de fazer Jorge Luiz “Borrachinha” limpar o nome de Luiz “Borracha”.

O velho Luiz “Borracha”, silenciosamente, sentiu o doce sabor da vingança.

Na foto que ilustra a postagem, o "card" de "Borrachinha" em 1979 que vinha junto a embalagem dos chicletes Ping-Pong e Luiz "Borracha", em ação contra o Flamengo.  

  Créditos de informações e imagens para criação do texto: Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1  (Paulo Guilherme); 1981, o ano rubro-negro (Eduardo Monsanto).

O Fla-Flu e sua história

O Fla-Flu e sua história

O Fla-Flu é talvez o clássico mais charmoso do futebol brasileiro. São mais de 100 anos de história, de rivalidade e diversas decisões de campeonato carioca, como essa de 2021, iniciada na noite de ontem com um empate em 1x1.

Rubro-negros e Tricolores são os maiores campeões estaduais do Rio de Janeiro, e se o assunto for finais diretas entre os dois times, o equilíbrio é a palavra, com ambos sendo detentores de 5 títulos, o Flamengo em 1963, 1972, 1991, 2017 e 2020, enquanto o Fluminense tem sucessos em 1936, 1941, 1973, 1983 e 1995.

Em 1912, foi disputado o primeiro clássico da história do futebol brasileiro. O Fluminense venceu o Flamengo por 3x2. Foi uma partida movimentada e violenta. Enquanto os cavalheiros comemoravam os gols de suas equipes jogando o chapéu de palha no campo, as moças deixavam cair seus leques e desmaiavam por causa da emoção do gol ou das agonias do calor e do espartilho. Nascia o primeiro Fla-Flu, "quarenta minutos antes do nada", como definiu Nelson Rodrigues ao tentar mensurar o imensurável.

O Flamengo tinha nascido pouco antes. Brotara de uma fratura do Fluminense, que se dividiu em dois após confusões, guerras e gritarias de parto.

Como diz Eduardo Galeano: “Depois o pai se arrependeu de não ter afogado no berço este filho respondão e gozador, mas já não podia fazer nada: o Fluminense havia gerado a sua própria maldição e a desgraça não tinha mais remédio”.

Desde então, pai e filho, filho rebelde, pai abandonado, dedicam-se a se odiar. Nelson Rodrigues, notório torcedor do time das Laranjeiras, desconsidera a paternidade tricolor e chama o Fla-Flu de “os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”, numa nem tão inconsciente assim tentativa de igualá-los em sua gênese.

A cada clássico, o Fla-Flu é essa guerra que nunca vai acabar. Pai e filho jogam para a amante que joga com eles. Por ela se batem e ela vai aos duelos vestida de festa.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Futebol ao sol e à sombra” (Eduardo Galeano)

Pobre mãe querida

Pobre mãe querida

No fim dos anos 60, jogaram o Deportivo versus Aucas pelo campeonato nacional equatoriano. A cidade de Quito em festa. Partida importante. Estádio Chillogallo, de mando de campo do Aucas, lotado.

Por infelicidade do destino, a mãe do árbitro escalado para o jogo havia morrido dias antes. Mesmo abalado, o juiz confirmou sua presença e disse que faria daquela a partida mais importante da sua vida, em homenagem a sua recém falecida genitora.

Antes do jogo, um minuto de silêncio e o homem de preto, cabisbaixo no meio do campo, recebeu o efusivo aplauso do público ao final.

Com quinze minutos de jogo, explosão de alegria no estádio: gol do Aucas. Porém, o árbitro, em tempos que não havia VAR, incontinenti, alega impedimento do atacante e anula o gol.

A multidão se esquece da recente finada homenagem antes da partida e brada com todos os seus pulmões em uníssono:

- Órfão da puta!!!!   

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Futebol ao sol e à sombra” (Eduardo Galeano)

O sangue de Hugo de Leon

O sangue de Hugo de Leon

Fechando as postagens do mês de abril, vamos trazer um caso não diretamente referente ao “Dia da Mentira”, como abordamos nas três postagens anteriores, mas a história de uma foto enganadora que correu o mundo e que elevou a já reconhecida raça, valentia e coragem inerente ao futebol uruguaio, em especial quando a competição trata-se da Taça Libertadores da América.

Hugo de Leon é um uruguaio que jogou no futebol brasileiro pelo Grêmio, Corinthians e Santos. Jogador que aliava técnica e raça, impossível desassociar o seu nome a imagem da conquista da Taça Libertadores/1983, em que ele suspende o troféu, enquanto um filete de sangue desce de sua testa a dropar em seu rosto.

A imagem sugere um guerreiro vitorioso ao fim da batalha. Bem, em se tratando de Libertadores, a expressão “batalha” ou “guerra” não é nenhuma novidade, uma vez que a principal competição sul-americana de clubes é conhecida por seu jogo catimbado, bruto e, até violento.

Porém, a foto intrigava porque não havia lembrança, ao longo da partida, que houvesse um lance em que o vigoroso zagueiro tenha se machucado a ponto de sangrar. Ademais, naquele início dos anos 80, o jogador podia esvair-se em sangue até ter uma anemia, mas não precisava sair de campo. Há uma icônica foto do inglês Terry Butcher em jogo contra a Suécia, em 1989, a confirmar essa prática. Hoje a FIFA não permite que o uniforme de jogo tenha marcas de sangramentos.

E então! O que verdadeiramente aconteceu naquele 20.07.1983, quando o Grêmio/RS venceu o Penarol do Uruguai, por 2x1??? De início, a certeza que o Hugo De Leon saiu inteiro do jogo, sem arranhões, fraturas ou machucados.

Mas, e o sangue na foto???

Bem, segue a explicação: como capitão, De León recebeu a taça e antes de levantá-la, a apoiou em sua testa. Porém, um prego da base do objeto cortou a pele e fez jorrar o sangue no rosto do jogador, “montando” aquela cena clássica, parecendo que o atleta havia saído de uma verdadeira batalha.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: https://www.ocuriosodofutebol.com.br/2017/02/o-sangue-de-hugo-de-leon-na.html#:~:text=Pois%20bem%2C%20uma%20imagem%20que,de%20ra%C3%A7a%2C%20catimba%20e%20guerreiro.

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