Historiando

Lula e o “descobrimento” do Brasil

Lula e o “descobrimento” do Brasil

Vou dividir em dois o texto sobre o “descobrimento” do Brasil por Lula.

Um para este domingo; outro, para o próximo.

A cada quatro anos, nas eleições presidenciais, deparamo-nos com homens providenciais, encarregados, por eles mesmos e por seus marqueteiros, de descobrir e/ou (re)construir, do zero, o Brasil.

O mais aguardado, nos dias que seguem, é Ciro Gomes, proclamado por alguns dos nossos progressistas e por ele mesmo como uma espécie de neo-Messias.

Ciro Gomes cita estatísticas mentirosas e ensinamentos sobre economia que faria corar, de vergonha, um primeiranista de Estatística e de Economia. Ciro é um inventor, que, como me disse um antigo professor, começa com “I” de insuficiente e termina como “R” de regular, sem jamais chegar a MB de muito bom.

Ao longo de nossa história recente Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Tancredo Neves e Fernando Collor já puseram as vestes messiânicas. Tancredo, mesmo sem ter a pretensão de sê-lo, foi visto por parcela significativa da sociedade como tal, afinal tornou-se o timoneiro da nau que faria a travessia entre o regime autoritário e a esperança de uma nova democracia.

Jânio e Collor foram os mais estridentes, mais desajuizados e mais incompetentes.

Entre todos, porém, o que mais levou a sério a unção foi Lula da Silva. O seu “Nunca antes neste país...” exprimia a crença dele e dos seus áulicos numa espécie de destino manifesto lulista.

Lula passou os oito anos de seu mandato se gabando de ser o autor das maiores e mais firmes transformações pelas quais o Brasil passou. De lá para cá, findo o seu mandato, sempre que pode repete para si mesmo e para os chaleiras que o cercam, para a imprensa e para todos os amestrados a mesma cantilena, samba de uma nota só.

Chegou a dizer, quando inaugurava uma obra na Bahia, em 2010, que o Brasil, com ele, estava mudando “e isso incomodava muita gente.”

Para não perder a chance de bajular o líder, Jacques Wagner, então governador baiano, afirmou, quando do lançamento do PAC 2 que “Lula estava refundando Brasil” e Dilma, pré-candidata a presidente da república, emendou ser “este o Brasil que Lula recuperou para nós e que os brasileiros não deixarão escapar de suas mãos.”

Mudanças como a que dizia pilotar e que Jacques Wagner, Dilma e outros confirmavam como sendo obra do líder petista não ocorrem em curto prazo. Só os menos avisados hão de concordar que o pernambucano de Garanhuns é, sozinho, o dínamo da história recente do Brasil, porquanto o país não ter sido descoberto por ele em 2003, ano em que assumiu a Presidência da República.

A maneira como Lula gostava – e ainda gosta – de incensar seus feitos deslustram, quando não macula, os seus antecessores.

Houve lideranças políticas no Brasil muito mais efetivas do que Lula. A história, a quem cabe indicar o lugar que os atores sociais ocupam, dirá qual será posição de Lula.  Ele é, como alguns que o antecederam, apenas um dente na engrenagem que faz o país rodar.

Poderia ter passado para a história do Brasil como o Presidente que manteve os fundamentos da política econômica herdada dos tucanos e pela recusa em patrocinar uma emenda constitucional que lhe permitiria concorrer a um terceiro mandato.

Porém, o ex-Presidente corre o risco de ver o seu nome inscrito na história por episódios menos nobres.

A reforma agrária ainda é necessária?

A reforma agrária ainda é necessária?

A Covid-19 e o consequente aumento dos preços de itens essenciais do cardápio do brasileiro, como o arroz e o feijão, trouxeram à baila alguns temas essenciais.

Fiquemos só no preço do arroz. Ele nos dá caminho para abordarmos as duas questões.

Em 2019, o Brasil produziu pouco mais de 10,5 milhões de toneladas de arroz e permanece, fora do continente asiático, como o maior consumidor do grão. A produtividade da lavoura, porém, é muito baixa, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que chegou a estimar pequeno aumento da produção em 2020 (https://blog.aegro.com.br/safra-de-arroz-2020/). 

Levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz). O consumo per capita é de 34kg, confirmando que o arroz permanece como um dos principais alimentos na mesa do brasileiro, de norte a sul do país. O estudo previa leve alta no consumo, 0,2% (https://agroemdia.com.br/2019/08/12/brasileiro-consome-34-quilos-de-arroz-por-ano-aponta-pesquisa-inedita/).

A alta do dólar tem sido apontada como a principal vilã do aumento do preço do arroz, pois eleva os custos de produção no país e estimula as exportações. No entanto, segundo a Conab, o cenário atual também pode ser explicado pela redução, nos últimos dez anos, de área plantada, com a consequente queda nos estoques públicos. A revista Globo Rural cita cinco elementos como responsáveis para o aumento considerável no preço do arroz: queda da produção, aumento do consumo durante o período da pandemia, baixos estoques, aumento do dólar (favorece exportadores e traz poucos benefícios para os produtores) e baixo incentivo no campo (estimativa da Federarroz aponta que menos de 30% dos produtores possuem estoques para aproveitar os preços recordes da entressafra, enquanto os custos de produção aumentaram 10,5%, conforme dados do Instituto Rio Grandense do Arroz – Irga) (https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Arroz/noticia/2020/09/5-motivos-que-fizeram-o-preco-do-arroz-disparar-no-brasil.html).

A crise serviu de estopim para alguns defensores do MST dizerem que o movimento poderia resolver o problema, caso o governo federal, desde a década de 1980, levasse a sério a pauta da reforma agrária.

Antes de prosseguirmos, um dado: o MST produz 16 mil toneladas anuais de arroz orgânico (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39775504) numa produção de 10,5 milhões do Brasil.

O Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) está, do final para o início da segunda década deste século, em declínio, como é possível constatar a partir do esvaziamento do “abril vermelho”. As quase 500 invasões de 2004 caíram para apenas setenta e os acampamentos, que chegaram a registrar algo em torno de 400 mil pessoas, tinham somente cem mil.

Abril sempre foi um mês de grande movimentação do MST e em 2011 começou a esmaecer o vermelho do “abril vermelho”, a ponto de em 2019, por exemplo, não ocorrer qualquer manifestação em Brasília. (https://oglobo.globo.com/brasil/no-primeiro-abril-vermelho-do-governo-bolsonaro-mst-nao-preve-manifestacoes-em-brasilia-23606281)

O fenômeno está associado à perda de substância da pauta pública (que não é exatamente a principal) do MST, a reforma agrária.

A reforma agrária já foi tema do Senado romano, que em 133 a. C. aprovou leis específicas, na esteira das revoltas da plebe e da atuação dos irmãos Graco, Caio e Tibério. (http://www.unirio.br/cch/escoladehistoria/pos-graduacao/ppgh/dissertacao_shirley)

Os Estados Unidos, por meio de Homestead Act, em 1862, concederam lotes de terras públicas a ex-escravos, a trabalhadores do campo e a imigrantes, ensejando o fortalecimento de base para formação de uma classe média rural, conforme registra no seu Análise comparativa do processo de transferência de terras públicas para o domínio privado no Brasil e EUA: uma abordagem institucionalista, de Sebastião Neto Ribeiro Guedes.

Ao longo do século passado, a finada União Soviética e a China expropriaram e coletivizaram terras e a Europa Ocidental suprimiu as características feudais da posse da terra, redefinindo direitos de propriedade, sem mexer nos espaços onde ocorrera a revolução agrícola.

No Japão pós-segunda guerra, MacArthur impôs uma grande e radical redistribuição de terras dos latifundiários que dominavam a sociedade no meio rural. quebrando a supremacia desses senhores. Estudiosos afirmam que a reforma pilotada pelo general norte-americano teve mais cunho político e menos econômico. Deveria ter sido o nosso modelo de reforma agrária até o início dos anos 1930, pois mataria o poder dos potentados rurais brasileiros, os coronéis.

A América Latina é, segundo Maílson da Nóbrega, pródiga em casos de insucesso, quase sempre derivados de uma visão socialista da luta de classes entre camponeses e grandes proprietários. Cuba talvez seja o maior exemplo.

O MST surgiu na primeira metade da década 1980. Foi criado por um condomínio de forças, entre as quais se destacavam sindicalistas, membros do Partidos dos Trabalhadores e uma miríade de representantes de diversas facções esquerdista, entre os quais lideranças católicas radicais e de partidos que estavam na clandestinidade. Invadir terras era o principal prato do cardápio e isso atraiu muitos militantes. Com tempo, o movimento passou a viver de recursos públicos. No governo Lula, os cofres foram abertos e o MST se fortaleceu, chegando inclusive a indicar quadros para postos no governo.

Chegou um momento, entre o final da primeira e o início da segunda década deste século, que a sociedade brasileira começou a se sentir oprimida pela agitação e a violência do MST, como diz o pesquisador Zander Navarro, pois a demanda pelo acesso à terra era cada vez menor (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2204200707.htm). Ademais, o MST já não atraía mais tanta gente porque outras varáveis, como aumento do nível de emprego e a Bolsa Família, cujos beneficiários pertencem aos mesmos grupos recrutados pelo movimento, competiam com ele.

Os assentamentos dos programas de reforma agrária enfrentam problemas. Muitos dos assentados vendem/repassam os lotes ou ganham dinheiro com o exercício de outras atividades, algumas até em cidades. Pouquíssimos dispõem das qualificações requeridas por uma agricultura de alta tecnologia.

O agronegócio competitivo cria empregos formais protegidos por leis trabalhistas e previdenciárias. Suas atividades ampliam vagas no comércio. O público-alvo do MST percebe que o acampamento significa ficar às margens de estradas sem um horizonte alvissareiro à vista. Seu desafio é obter renda que pode vir da atividade produtiva, para a qual não está preparado, ou de programas sociais ou da aquisição de habilidades para trabalhar nas fazendas modernas.

A urbanização e a globalização dos mercados, da informação, da tecnologia e da produção contribuíram para a obsolescência do processo de redistribuição de terras, que se tornou irrelevante para a geração de renda e riqueza.

No Brasil, a reforma agrária ainda se nutre de argumentos de seis décadas atrás, conforme registra Zander Navarro, para quem a reforma agrária surgiu, no Brasil, na década de 1950, “entendida como necessária para constituir o mercado interno que desenvolveria o país”, não ocorrendo porque, “após o ‘milagre brasileiro’, o Brasil ressurgiu mais urbano, com sua economia prescindindo da reforma agrária”. A justificativa que restaria seria política, a saber, “a democratização no campo, ainda uma exigência em algumas regiões, mas cada vez menos, em face da difusão de informações e do aperfeiçoamento democrático.” Desta forma, conclui, não existem, nos dias que seguem, “razões, sob qualquer ângulo, para a realização desta reforma em todo o Brasil. Nem mesmo existe uma demanda social digna do nome, cada vez mais raquítica. Quando muito, a reforma agrária concentrada exclusivamente no chamado ‘polígono das secas’ ainda seria justificável, pois reduziria a incidência da pobreza rural.”

A reforma agrária acalentada pela esquerda brasileira é paradoxalmente utópica e burocrática, ainda que se limite, em linhas gerais, a propor distribuição de terras e algum recurso pecuniário aos pobres para acabar, quase num passe de mágica, com a pobreza e a criar e/ou fortalecer o poder de burocratas encastelados em Brasília ou em órgãos de representação federal nos estados. Chegamos ao cúmulo de, em 1985, criar um ministério para cuidar do assunto.

A despeito de tudo isso, o MST ainda insiste, por instinto de sobrevivência, nos mesmo argumentos de mais de meio século atrás, pois precisa salvaguardar seu projeto básico, o de mudar radicalmente a sociedade e fazê-la adotar modelos calcados em utopias regressistas.

Reforma agrária, mesmo para o MST, parece mero detalhe.

Policiais, professores e a falsa polêmica da prova do Marista

Policiais, professores e a falsa polêmica da prova do Marista

Uma polêmica colocou semana passada policiais e professores em lados opostos.

O motivo foi uma charge usada numa prova do ensino fundamental aplicada no colégio Marista de Natal e na qual um policial apareceu com cara de porco.

Notas foram emitidas por entidades ligadas às polícias, e o colégio também emitiu a sua, insípida e inodora.

Críticas pipocaram pró e contra a atividade avaliativa aplicada pelo colégio católico.

Entre os contrários, o argumento central era o de que a prova pretendeu induzir a meninada a assumir postura crítica e negativa em relação à instituição policial como um todo, razão pela qual houve vigorosa reação de entidades que se consideraram agredidas, e indicava estar mais do que na hora de tratar o tema com a seriedade que ele merece, sem passionalidades nefastas e ativismos fanatizados.

Os que acham que houve exagero dizem que os temas da violência policial, do racismo e do desmatamento, todos tratados em provas do Colégio Marista, mostram os fatos do mundo real. Do que está ocorrendo mesmo no Brasil, sem exageros e sem maquiagem.

Para referendar a tese de que houve exagero nas manifestações, dados foram sacados apontando matérias jornalísticas e estudos que demonstram claramente os elevados índices de violência policial e que os principais alvo são os negros (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/filtros-series/3/violencia-por-raca-e-genero) (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/24/atlas-da-violencia-2020), que houve crescimento desmedido do desmatamento durante o governo de Jair Bolsonaro (https://veja.abril.com.br/brasil/desmatamento-na-amazonia-aumenta-853-em-2019-aponta-inpe/) (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/07/10/interna-brasil,871076/desmatamento-na-amazonia-em-disparada-em-11-meses-aumento-de-64.shtml) e que, por isso, existe boicote orquestrado contra produtos brasileiros, e por aí vai.

A taxa de homicídios cresce sem parar há três décadas. Em 1980 11,69 por 100 mil habitantes morriam assassinadas; em 2017, eram 31,59 por 100 mil (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/dados-series/20). Os negros são as maiores vítimas de violência nos últimos dez anos, no Brasil (https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665).

Mas, e os policiais? Eles também são alvos da violência?

Comecemos por policiais que morrem nas folgas, conforme registra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em seu anuário, o FBSP diz que em 2017 morreram 371 policiais assassinados no Brasil, sendo 290 mortos durante a folga. (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/01/17/policia-armamento-mortes-folga-violencia.htm). São mortes pouco repercutidas na mídia e pouco debatidas nas escolas brasileiras.

A polícia brasileira é cinco vezes mais letal do que a sua congênere do Estados Unidos (https://super.abril.com.br/sociedade/letalidade-policial-no-brasil-e-cinco-vezes-maior-que-nos-eua/). A pesquisadora Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública FBSP), levantou dados sobre a letalidade das polícias dos EUA e outros três países, entre os quais o Brasil. De cada 100 homicídios sem envolvimento da polícia nos EUA, policiais americanos matavam 2,9 pessoas, enquanto no Brasil, são 7,8 pessoas mortas pela polícia (Dados de 2016). O Brasil teve pelo menos 5.804 pessoas mortas por policiais em 2019 e 159 policiais morreram em ação. No ano anterior, 2018, foram 5.716 mortes (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/05/01/O-aumento-da-viol%C3%AAncia-policial.-E-como-ela-%C3%A9-vista-pelos-brasileiros).

E nós professores, o que mostramos aos nossos alunos sobre os péssimos índices de educação? Ou não temos responsabilidade alguma no índice de letalidade da alma dos jovens que frequentam as nossas escolas?

Ano a ano o Brasil ocupa a rabeira no Pisa (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50646695) (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50606790) (https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/12/03/brasil-cai-em-ranking-mundial-de-educacao-em-matematica-e-ciencias-e-fica-estagnado-em-leitura.ghtml) (https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/12/03/pisa-brasil-fica-entre-piores-mas-a-frente-da-argentina-veja-ranking.htm) e professores são frequentemente retratados como doutrinadores que pretendem incutir na cabeça dos jovens o amor pela revolução comunista. Grande parte, provavelmente a maioria esmagadora da categoria, refuta o rótulo e se sente ofendida quando o assunto vem à tona. Porém, não sente vergonha alguma em rotular outras categorias.

Já ouvi e li colegas defendendo a ação de blacks-blocs para plateias de estudantes de ensino médio, como se os infantes da revolução anarquista que andam mascarados estivessem conduzindo a sociedade, por meio da violência, ao paraíso terreal. Não saberia dizer quantos defendem tal aberração, mas sei que existem. Como não saberia dizer quantos, mas sei que há policiais que defendem justiçamento.

O sistema educacional brasileiro, professores à frente, precisa se movimentar para que o ensino leve ao conhecimento e à reflexão. Existem bons e maus profissionais na polícia e existem bons e maus profissionais na docência. Elaborar prova retratando policiais como porcos não é o melhor caminho para denunciar maus policiais e para mostrar, de forma adequada, que o trabalho das polícias brasileiras precisa melhorar. Como o caminho para melhorar a educação do Brasil não é retratar, de forma genérica, o professor como um doutrinador.

Existem policiais que mancham a instituição policial, agindo como justiceiros sem freio; existem professores que usam a sala de aula como espaços para doutrinação. Não é possível negar as duas realidades. Reconhecê-las é o passo inicial para superá-las.

Quanto à prova do colégio Marista, repito o que disse a quem me perguntou: foi apenas mal elaborada ou pode ter sido algo pior.

Como não tenho elementos para confirmar a segunda hipótese, fico com a primeira.

O autoritarismo das pautas identitárias e a tradição liberal

O autoritarismo das pautas identitárias e a tradição liberal

Com o título Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha, a professora Lília Schwarcz criou polêmica na Folha de São Paulo, no início do mês, ao analisar o álbum visual Black is Kins, recentemente lançado pela cantora norte-americana Beyoncé (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/08/filme-de-beyonce-erra-ao-glamorizar-negritude-com-estampa-de-oncinha.shtml#erramos)

O texto gerou debate entre estudiosos (Wilson Gomes, da UFBA, Luiz Felipe Miguel, da UNB, e Liv Sovik, da UFRJ) e indignação nas redes sociais.

A maioria das críticas nas redes sociais acusava a historiadora e antropóloga e o conteúdo do seu texto de racista. Quase todas afirmavam, com aquela ódio peculiar, que ela, por ser branca, não deveria dizer a uma mulher negra como ela deveria de exercitar os seus pendores artísticos. A maioria atacou a mensageira; poucos o texto propriamente dito.

Se a intenção é fomentar o debate – e tenho dúvidas se é – o argumentum ad hominen não é o melhor caminho.

Para os defensores das pautas identitárias, alguns temas são fechados para discussão. O que Lília escolheu é um exemplo, afinal a estudiosa brasileira, branca e de origem judaica, resolveu debater a arte produzida por uma mulher negra, sem autoridade para tal, pois não é negra. Se fosse um historiador e antropólogo no lugar de Lília, então, teria sido morto com requintes de crueldade. Heteros não têm autoridade alguma para tratar de temas que envolvam gays; homens não devem se meter a tratar de temáticas femininas. E assim por diante. E até podem, desde que não fujam as regras e normas estipuladas pela turma defensora das pautas identitárias.

Houve quem discordasse de que o texto de Lília Schwarcz apresentasse qualquer sinal de racismo e que somente negros tenham autoridade para falar e escrever sobre temas que envolvam negros, quem lamentasse o reducionismo do debate e quem defendesse o lugar de fala expresso pelos críticos de Lília.

O discurso identitário é um dos maiores riscos para os regimes democráticos, pois indicam caminhos que destroem qualquer pretensão empática, criam imensos antagonismos, minam qualquer possibilidade de diálogo e portanto não permitem conciliação alguma. Ademais, atropelam a validação empírica dos argumentos e a força da lógica.

Tão feio quanto os ataques desfechados contra Lília Schwarcz nas redes sociais, foi a recuada dela, desculpando-se por ter escrito o que escreveu (https://delas.ig.com.br/comportamento/2020-08-04/apos-critica-a-beyonce-lilia-schwarcz-se-pronuncia-nao-deveria-ter-aceito.html) (https://revistaforum.com.br/midia/lilia-schwarcz-pede-desculpas-mas-cobra-folha-por-texto-sobre-beyonce-considerado-racista/).

Sou adepto da tradição liberal clássica e, por isso, defensor da liberdade individual e da participação dos cidadãos no espaço público, que centraliza suas forças na defesa da soberania do indivíduo e na defesa da chamada liberdade negativa (ausência de coerção).

Os indivíduos devem construir seus projetos de vida segundo seus interesses, desde que não interfiram na vida de terceiros. Do ponto de vista político, se quiserem ser cidadãos passivos, recolhidos em si mesmos, submissos à arbitrariedade do poder, não há nada o que se possa fazer, ainda que eu registre certo incômodo com essa possível passividade implícita no ethos liberal.

Classicamente, a liberdade republicana foi definida como contrária à servidão. Uma pessoa é livre quando não está sob o domínio de outras. Domínio aqui tem muito mais a ver com o problema da sujeição. Na liberdade de não-dominação da tradição republicana, não há espaço para sujeição voluntária. Felicidade, para lembrar de Aristóteles, não se reduz à ausência de sofrimento, como acreditam os utilitaristas, porque é a atividade da alma, segundo a virtude perfeita, numa vida completa.

A lógica intrínseca no discurso identitário define que pessoas de um grupo e afetados por pertencer a ele teriam mais capacidade de falar sobre aquilo que sabem e vivenciam. Ora, tema algum é monopólio de debate apenas um grupo étnico (ou de gênero, etc), mas de todos que resolverem se aprofundar nele e que demonstrem conhecimento sobre ele.

Cercear o debate público é uma pretensão autoritária. E há muita gente vestida com as roupas de tiranetes e posando de defensores de boas causas.

Bolsonarismo versus Lulismo

Bolsonarismo versus Lulismo

Escrevi semana passada sobre o assunto e repito nesta sobre a subida da popularidade do Presidente Jair Bolsonaro, segundo pesquisa do Instituto Datafolha.

No final do século XVIII, o cientista francês Lavoisier formulou a chamada Lei de Conservação da Massa/Lei de Conservação de Matéria (Em um sistema fechado, a massa total dos reagentes é igual à massa total dos produtos), popular e genericamente assim expressa: Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

Para bancar a festa da popularidade de Bolsonaro, o governo federal sacrifica, ao mesmo tempo, no altar político-eleitoral, duas vítimas – o lulismo e a agenda liberal, e confirma a regra de que em política é possível reafirmar a Lei de Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma e se adapta.

Não é segredo para ninguém que Bolsonaro surfou, em 2018, na onda do antipetismo e foi eleito apresentando-se como o único candidato antipetista raiz. Sempre é bom lembrar, para quem gosta de esquecer, que o antipetismo foi, provavelmente, a maior força eleitoral de 2018.

Passada a borrasca eleitoral, Bolsonaro permaneceu em campanha sem entender que governar é muito mais do que subir em palanques e fazer passeatas e carreatas. Deu canelada em quase todo mundo, caiu no colo do centrão e, ali aninhado, partiu para realizar incursão num espaço político antes quase que reservado apenas a Lula e ao PT e às lideranças políticas tradicionais.

Não são poucos os analistas que associam o fenômeno da melhoria dos índices de popularidade do Presidente ao coronavoucher de R$ 600 e a uma ou outra ação do governo federal nas periferias dos grandes centros urbanos e principalmente na região Nordeste, foco do lulismo nas últimas eleições, e onde Bolsonaro usa e abusa das artimanhas do adversário figadal para emparedar Lula e o PT, sem originalidade alguma, enfatizo.

Lula e o PT agiram da mesma forma em relação a Fernando Henrique Cardoso e ao PSDB, ainda que muita gente insista em esquecer, por esperteza, por conveniência, por cálculo ou por cafajestagem.

Os fatos, e não versões, estes elementos que teimam em mostrar sua cara, são inamovíveis: Lula e o PT “criaram” o Bolsa Família unificando alguns programas de transferência de renda criados pelo governo FHC e, agora, veem e se mostram indignados porque o governo Bolsonaro faz o mesmo, ao propor a “criação” do Renda Brasil, fortalecendo o Bolsa Família com alguns benefícios já existentes.

Lula e o PT provam do veneno da falsidade que um dia destilaram nos tucanos.

Bolsonaro invadiu a última fortaleza do lulismo e do petismo: os bolsões de pobreza situados nas regiões Nordeste (e Norte) e nas periferias das grandes cidades, como indicam os índices de aprovação, que cresceram cinco pontos (de 32% para 37%), em aproximadamente dois meses, enquanto a taxa de reprovação caiu dez, de 44% para 34%.

Bolsonaro nunca foi, como eu já disse em outros momentos, um liberal. É uma espécime da fauna corporativista e sindical, que durante a campanha se associou a um liberalismo de fachada e que agora muda inteiramente de direção, sacrificando a agenda liberal que adotou, como fachada, por conveniência (https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,agenda-de-paulo-guedes-esta-enfraquecida-diz-alexandre-schwartsman,70003397688?utm_source=facebook%3Anewsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais%3A082020%3Ae&utm_content=%3A%3A%3A&utm_term=&fbclid=IwAR0k_6xL4Ixj9HIFzPWFmaxNz3RXIoCd2iorZCwbAfE5dpOWoPdBrgIUrxw).

Para abandonar a agenda liberal do ministro Paulo Guedes, o governo federal vai precisar de caixa.

É certo que não dispõe de numerário para bancar por mais tempo o coronavoucher de R$ 600, a um custo mensal de R$ 50 bilhões.

Por isso, acalenta a ideia do Renda Brasil, um Bolsa Família vitaminado, e o Pró-Brasil, sucedâneo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado no governo petista.

Vale o clichê: quem com ferro fere, com ferro será ferido.

Lavoisier, o francês e não o Maia, assinaria embaixo.

Em tempo 1: Entre 2012 e 2014, Bolsonaro dizia que os beneficiários do Bolsa Família representavam o “voto de cabresto do governo” do PT, e que era um programa criminoso. Nos dias atuais, olha com simpatia o cabresto que um dia denunciou. Dá-lhe Lavoisier, o cientista francês.

Em tempo 2: O Datafolha expõe que 55% dos brasileiros isentam os governadores e 47% não responsabilizam Bolsonaro pelas mais 100 mil vítimas fatais da Covid-19. As mortes, dizem os números da pesquisa, foram inevitáveis. Há gado dos três entes da Federação.

O governismo do Nordeste

O governismo do Nordeste

Pesquisa recente do Datafolha (https://g1.globo.com/tudo-sobre/datafolha/) apontou que o bolsonarismo avançou sobre os principais redutos do lulismo, principalmente nos bolsões do Norte e Nordeste e nas periferias das grandes cidades de todo o país, efeito, provavelmente, do coronavoucher. (https://epoca.globo.com/brasil/auxilio-emergencial-de-600-reais-leva-eleitor-do-pt-apoiar-bolsonaro-24525410).

Deter-me-ei apenas sobre o Nordeste, uma das últimas cidadelas do lulismo, onde Fernando Haddad manteve, em 2018, a tradição petista, desde 2002, de ser muito bem votado.

Em cem cidades da região, o ex-prefeito de São Paulo teve mais de 90% dos votos válidos (https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/eleicoes-2018/haddad-superou-90-dos-votos-validos-em-mais-de-100-cidades-so-uma-fora-do-nordeste-560xxsa06fmw9ugxr5p6abm9n/). Algumas poucas, pelo elevado número de evangélicos, foram verdadeiros redutos bolsonaristas (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/cidades-evangelicas-no-nordeste-tem-redutos-bolsonaristas.shtml).

O tino das lideranças políticas tradicionais do Nordeste, principalmente daquelas acostumadas a andar pelos rincões, já percebia o humor do eleitorado, tanto que pipocaram nas últimas semanas convites de várias lideranças políticas nordestinas, capitaneadas pelos ministros Rogério Marinho e Fábio Faria, para que o atual ocupante do Palácio do Planalto visitasse a região (https://veja.abril.com.br/politica/como-rogerio-marinho-virou-peca-chave-para-bolsonaro-no-nordeste/).

Bolsonaro colheu frutos advindos da distribuição do auxílio emergencial e outros da agenda de obras tocadas pelos ministros Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), que, juntos, concluíram obras inacabadas e herdadas de gestões anteriores, a exemplo das rodovias 116 e 101, na Bahia, da Ferrovia Oeste-Leste e do Eixo Norte da transposição do rio São Francisco.

Tudo indica que Bolsonaro jogou na latrina de vez o liberalismo econômico de fachada apresentado na campanha de 2018 e que tinha e tem em Paulo Guedes o seu grande mensageiro. O ministro da Fazenda, ressalte-se, hoje é apresentado por um dos filho do ex-capitão do Exército apenas como o encarregado de “arrumar um dinheirinho” para garantir que o Presidente da República possa seguir célere rumo ao projeto reeleitoral.

Às favas o equilíbrio orçamentário, conversa para boi dormir desde sempre para Jair Bolsonaro.

Como nunca acreditei na conversão de Bolsonaro ao liberalismo, seja político ou econômico, aqui faço observação sobre quem, entre amigos e colegas, alardeava ser o Nordeste um centro de cidadãos críticos e esclarecidos porque votava, em peso, nos candidatos lulistas ou simpatizantes do lulismo: o Nordeste nunca foi o centro de excelência eleitoral e cidadã que a esquerda gritava até pouco tempo atrás.

Tancredo Neves denunciou, logo após finalizadas as eleições de 1982 e constatado que o PDS, partido que substituiu a ARENA, perdera o pleito no centro-sul e em quase todas as capitais do país mas mantinha-se firme nas pequenas cidades do interior, que o governo vencera nos grotões. Naquele pleito, o partido que dava sustentação ao regime de 1964 vencera no Nordeste (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI149691-15223,00-ESQUERDA+NOS+GROTOES.html) e em áreas periféricas das cidades grande de todo o Brasil, e ficou assentado que as áreas atrasadas do país votavam nos partidos tradicionais e conservadores e os centros mais avançados descarregavam a sacola de votos nos progressistas.

Duas décadas depois, votos e a narrativa mudaram de caminho, quando a esquerda, PT à frente, começou a colher os frutos de sua fase governo.

Uma coisa é clara e cristalina: o Nordeste, principalmente os grotões, dependente de verbas federais, vota no governo, desde que o governo lhe dê assistência. Foi assim durante o breve período democrático pós-Estado Novo, durante a fase autoritária de instaurada em 1964 e de 1985 até os dias de hoje.

Fiquemos com as eleições presidenciais de 1989, quando Lula e Collor disputaram o segundo turno, a 2018, quando Haddad e Bolsonaro polarizaram a disputa. Lula foi forte nas cidades médias e grandes, junto à classe média e alguns poucos setores populares, e perdeu, por grande margem, nos grotões. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique passeou vencendo Lula no primeiro turno, com boa em todos os segmentos sociais e com larga margem nos grotões, graças à atuação do PMDB e do PFL, hoje DEM, como Lula e Dilma venceram com certa facilidade, no segundo turno, em 2006 e 2010, graças à atuação dos partidos, PMDB à frente, fortes em regiões economicamente atrasadas (http://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/repositorio-de-dados-eleitorais-1/repositorio-de-dados-eleitorais)

Fernando Henrique surfou na onda bolsa-escola e vale-gás e Lula na do bolsa-família e, agora, ao que tudo indica, conforme registra a pesquisa do Datafolha, Bolsonaro compreendeu a equação e está cada vez mais disposto a invadir o terreiro de Lula, utilizando-se dos mesmos métodos.

Qual será a reação do PT?

Se souber, ele e a esquerda de um modo geral, entender o que diz Mujica (https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/08/12/esquerda-tende-a-cair-no-infantilismo-diz-mujica.htm), o Brasil talvez passe a ter oposição madura ao atual governo. Caso contrário, permaneceremos andando em círculos e convivendo com espasmos demagógicos, à esquerda e à direita.

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