Historiando

O Mirante

Diante da rotina agitada que se vive, nada melhor do que o período de férias para se ter um segundo de sossego que seja, sem os compromissos profissionais de todo o ano. Aquele que não espera ansiosamente por esse momento anual, a fim de recarregar as baterias do corpo e da alma, me desculpe, ignora a própria existência e, no mínimo, reside sabe lá Deus onde! Na Terra, não deve ser.

Em minhas viagens de verão, como agora, procuro encontrar tempo também para certas excursões, porque chega uma hora em que os livros cansam, e o piano precisa dar trégua aos meus dedos, senão estes vão dar trabalho aos tendões, que podem sofrer uma baita inflamação articular, mais conhecida como tendinite. Em tem mais um detalhe: em se tratando de um instrumento musical de difícil transporte, nem que eu quisesse, poderia levá-lo aos passeios turísticos ou para as hospedagens agendadas, nem mesmo para tocar (quem sabe!) uma romântica canção para a minha amada com quem contraí bodas, fechando o ano passado com chave de ouro. Ah, o amor! Os livros ainda são mais maleáveis e se permitem viajar em malas e caixas dos mais variados tipos sem reclamarem do desconforto a que são submetidos incondicionalmente.

O fato é que, de quando em quando, não me servem de companhia. E troco-os por minha amada esposa e pelas viagens país a fora para alimentar a minha curiosidade em descobrir as belezas desta ilha chamada Brasil. Eu confesso que sou preguiçoso para programar excursões turísticas; já minha esposa é mais desenrolada para esses assuntos, e eu acabo, no fim das contas, aprendendo com ela. Após o Réveillon em Paulo Afonso/BA, optamos por contratar uma agência de turismo para um passeio até alguns municípios de Alagoas.

Evidentemente, percorreríamos os cânions do Rio São Francisco a bordo de algum Catamarã. Dito e feito. Uma visão quase paradisíaca se não fosse o forte calor e uma parada de quase 02h30min em uma das grandes piscinas improvisadas no leito do rio para os passageiros. Eu não quis me arriscar nesses clubes artificiais. Minha amada seguiu o meu exemplo. Uma senhora, a bordo, foi enfática:

─ Deus me livre! Só nesse início aí são 10m de fundura. Imagine o resto...

─ Que resto?

─ 90m pra baixo, somando 100.

O medo aumentou, e não descemos do Catamarã. Ficamos vendo a algazarra dos demais integrantes a beberem, a petiscarem comidas típicas da região e a se refrescarem, após a ativa exposição dos corpos a aproximadamente 40 graus de temperatura. O nosso único entretenimento foi contemplar a alegria deles e beliscar batatas fritas enquanto chegávamos ao nosso destino: Restaurante Castanhos. Por volta das 14h30min, a embarcação aportou. Íamos saindo com todo o cuidado para não cairmos no leito do rio, temido por seus redemoinhos que já levaram vidas, inclusive a do ator Domingos Montagner, durante as gravações da telenovela da Globo “Velho Chico”, em Canindé de São Francisco (SE).

Tarde corrida. Tivemos apenas 01h30min para almoçarmos e deslumbrarmos a paisagem sertaneja, banhada pelos cânions. As inúmeras curvas que o rio dá mais parecem as curvas da vida, as quais sempre temos de cruzar, e nunca sabemos exatamente se são as mais adequadas, consoante os nossos propósitos. Era assim que eu me via. Cercado por um labirinto de falésias e rochedos em constante erosão fluvial, invadiu-me uma sensação de que algo colossal, titânico queria se impor diante dos meus olhos. É essa imagem solar do Rio São Francisco que nos deixa praticamente aos seus pés, sem nada podermos fazer para alterá-la. O rio nos conduz por todo o vale; o rio também pode nos surpreender com os seus segredos há décadas muito bem escondidos. Tive receio do rio. Receio de ele nos tragar sem piedade quando bem quisesse. Receio de ele nos revelar sua fúria, já que nós usamos e abusamos de suas encostas, de seus caminhos. Uma visão turva e misteriosa toma conta de mim e depois vai embora, como se o rio experimentasse todos os meus sentidos.

Transcorrido o horário do almoço no Restaurante Castanhos, fomos contemplar mais o leito do rio. Outras piscinas naturais e artificiais favoreciam um revezamento de banhistas, além de duchas ao ar livre para auxiliarem na retirada do cloro, impregnado no corpo físico e nas roupas de banho. Segui o ritual de todo banhista: primeiro, o banho no rio; segundo, nas bicas de água canalizada. Evitei as piscinas artificiais. Com muita gente se lavando ao mesmo tempo, os riscos de contrairmos alguma enfermidade na pele é alto, especialmente por desconhecermos o real tratamento que a água tem naquele espaço. Aliás, por falar em espaços, gosto muito de observá-los todas as vezes que os vislumbro pela primeira vez.

O Castanhos é um balneário a céu aberto. A junção de dois habitats é o que se vê numa demonstração clara de que a sustentabilidade é perfeitamente possível. Uma espécie de hotel fazenda foi construída para oferecer maior comodidade aos turistas. Passeios de lancha e de canoa por todo o São Francisco ficam à disposição dos visitantes, sempre que são requisitados. Um ambiente de convívio com a natureza e o homem é o que se testemunha, levando o turista a sentir-se em casa com tanto conforto e bem-estar. Nesse estado de graça, um refúgio, sim, foi o mais peculiar. Caminhando-se mais à frente das piscinas artificiais, constatei a existência de um mirante. Em questão de segundos, pude verificar a paisagem do rio, um panorama idílico, que me lembrou as cenas do filme “1492 - A conquista do paraíso” (1992). O entardecer endossou as imagens paradisíacas a ponto de contemplarmos uma pintura ou um mosaico. Estarrecedor e ao mesmo tempo belo! Vi-me dentro de um quadro impressionista, como aqueles de Munch. Não tive coragem de aproximar-me, talvez por desconfiança. Vai que o rio cisma comigo e resolve tragar-me! Não sei por que fiquei com essa impressão, em parte negativa, do São Francisco. É que o rio, visto, principalmente deste pequeno mirante do Restaurante Castanhos, num local onde veranistas se encontravam banhando-se nas piscinas artificiais, ganha mais em volume e proporção, o que produz o efeito ótico e ilusório de que uma grande enchente pode acontecer, engolindo como um Tsunami tudo o que estiver pela frente. Parece loucura, mas foi a impressão que eu tive. A visão panorâmica tem esse lado perturbador, que só corações muito sensíveis são capazes de entender. Por eu ter o dom de enxergar um outro sentido para as coisas, algo bastante sugestivo (e as cores trabalham muito bem o visual) se descreveu para mim. Certamente, algo que eu jamais tinha visto. Deve ser por isso que muitos dizem que é bom viajar, desbravar o que ninguém antes desbravou.

A verdade é que o mirante me transmitiu um alumbramento. Às vezes, tenho essas visões que não costumo comentar, porque podem ser enganos da mente, sem muita importância; mas que, por sua vez, também podem revelar informações ao espírito. Temos tendência a imaginar algo maravilhoso e precisamos ter cuidado com isso. Contudo, Freud foi o pioneiro a estudar o inconsciente, e creio que o mirante foi um objeto simbólico que queria me mostrar que nem tudo é o que parece (ou quase tudo é o que parece?!). São poucas as pessoas que têm tal percepção. Se é um talento, como disse antes, não sei. Se é a manifestação de algum distúrbio psíquico, também não sei. Simplesmente, está longe de mim considerar como uma postura anormal. Prefiro entendê-la como uma atitude de quem escolhe pensar, primeiramente, em hipóteses, para depois estar seguro na hora de julgar o fenômeno em si e qual a representatividade que este pode ter para a vida do próprio sujeito. Num mundo de contradições e cada vez mais complexo, no qual tudo pode acontecer, é preciso cautela, estudo, análise, comparação para que passado, presente e futuro tenham conexão e coerência. Do contrário, arriscamo-nos a perder o senso, e o essencial – o equilíbrio entre a razão e o sentimento. Não é nada fácil lidar com essa balança.

 

Por Paulo Caldas Neto

E Lula segue firme rumo ao Planalto

E Lula segue firme rumo ao Planalto

Sou daqueles que confiam desconfiando em pesquisas eleitorais. Ainda mais faltando dez meses ou mais para o pleito. Entretanto, por mais descabidas que elas sejam, todas indicam vitória folgada do ex-presidente Lula, com risco de decidir a parada no primeiro turno.

Pesquisas eleitorais são retratos de momentos. E em campanhas longas, como a brasileira, quando os potenciais contendores já estão na raia quatro anos antes do momento da largada, é difícil que os números, ao final, retratem com precisão o que ocorrerá na linha de chegada.

Cito sempre o exemplo da eleição presidencial de 1994. Desde 1993 até o meio do ano seguinte, Lula era o candidato favorito. Favoritaço, para usar expressão de um comentarista de futebol quando quer demonstrar a distância entre duas ou mais equipes que disputam um campeonato. Fernando Henrique Cardoso, então ministro da fazenda, pretendia se desincompatibilizar do cargo para concorrer a deputado federal por São Paulo. FHC, que era senador licenciado, sabia que não conseguiria renovar o mandato para o senado. Veio o Plano Real e o ex-ministro da fazenda do governo Itamar Franco, um azarão, atropelou Lula, no primeiro turno – e repetiu o feito quatro anos depois.

Cada eleição é uma história diferente e nesta que se avizinha, Lula é – mais pelos defeitos do seu até agora principal oponente, o presidente Jair Bolsonaro, e menos pelas suas qualidades – favorito com folga (eu até suspeito que ele não será candidato, mas isso é assunto para outro texto). Convém, entretanto, não festejar muito antecipadamente.

De onde vem a força de Lula?

Só é possível entendê-la se atentarmos para quatro coisas: 1) o isolamento de Bolsonaro, cercado por aliados de ocasião, sobre os quais ele não tem controle algum; 2) a polarização, a exemplo do ocorrido em 2018, que em 2022 (os dados de 2021 indicam isso) parece favorecer ao candidato petista; 3) o sistema erguido na nova república identifica em Lula condições mais propícias para sobreviver; 4) a percepção que as camadas populares têm de que, durante o governo Lula, as condições de vida era melhores.

Os políticos ditos profissionais apostaram na derrocada de Lula, tragado pelos escândalos de corrupção de seu governo, e não atentaram para a melhoria de vida das camadas mais pobres da sociedade. E aí quebraram a cara.

Lula está mais forte por vários motivos, porque é nordestino, veio de baixo, consegue se fazer entender pelas massas e é bom palanqueiro. Mas principalmente porque os mais pobres, que constituem a maioria da população, estão dizendo, através de sua intenção de voto, que tiveram melhor de vida durante a os anos de Lula na presidência. Ninguém quer saber de discurso racional, do tipo “a melhora não era sustentável”, porque quem sentiu viver melhor não quer saber de indicadores econômicos que não interferem de imediato em sua vida. Ademais, política é, também e principalmente, momento. E o momento dos pobres foi, assim eles percebem, mais agradável com Lula do que com outros presidentes. Os números atestam, com precisão, que houve melhoria de vida dos pobres e mostram que eles são fruto de uma combinação de distribuição de renda com crescimento econômico, associada a medidas de cunho assistencialista como bolsa-escola, vale-gás, aumento do salário-mínimo, queda ou pequeno aumento do preço dos alimentos, entre outras coisas.

Se é assim, por que não experimentar de novo?

Ninguém está dando muita bola para os casos de corrupção ocorridos no núcleo governamental da era petista. A maioria continua derramando suas intenções de voto no candidato do PT. E Lula consegue, por ora, desligar sua imagem da do partido da estrela vermelha e de seus aliados encrencados no poder judicário (ele mesmo ainda deve explicações à justiça).                 

O PT errou no passado porque desprezou a força do Real – assim como o PSDB também errou ao apostar que, como o crescimento econômico médio era ruim (e era mesmo), os pobres estavam perdendo.

Hoje, o presidente Bolsonaro e seus aliados perdem porque não entenderam que, parece, a onda de 2018 passou e eles não foram capazes de surfá-la. Querem artificialmente fazê-la retornar. Será que têm tecnologia para tal? As pesquisas mostram que não.

É aguardar as pesquisas de janeiro em diante, todas devidamente chanceladas pelo TSE, e, acima de todas elas, o resultado das urnas.

Princípios, que princípios?

Princípios, que princípios?

Na última quarta-feira (15), a deputada federal Natália Bonavides foi atacada (https://www.youtube.com/watch?v=zZHlo9DOaxo) pelo apresentador de TV Carlos Massa, Ratinho, na rádio Massa FM, em São Paulo, e quase imediatamente vi amigos e colegas pronunciando-se sobre o caso. Colegas da instituição na qual trabalho, como professor, levantaram-se corretamente contra Ratinho e a favor de Natália.

O motivo da manifestação de Ratinho está ligado ao projeto de lei da deputada federal potiguar que propõe alterar os termos “marido e mulher” na celebração de casamentos civis, trocando o “vos declaro marido e mulher” por “firmado o casamento”, visto que há uniões civis entre pessoas do mesmo sexo e que, portanto, não se enquadrariam nas definições de “marido e mulher”.

Está entre as atribuições da parlamentar propor projetos de lei, como está entre as atribuições de um apresentador de rádio e televisão e de jornalistas tecer críticas à atuação de parlamentares, inclusive com palavras e termos duros, ainda que eu pense que Ratinho passou das medidas ao sugerir que formuladores de propostas do tipo da apresentada por Natália Bonavides devam ser metralhados. Tais coisas são dotas em mesas de bar, em rodas de amigos, espaços nos quais as bazófias são apenas bazófias, nunca, porém, numa rádio ou numa televisão, concessões públicas, ou em revistas ou jornais, como o fez o colunista Hélio Shwartsman, em junho de 2020, torcendo para que o presidente Jair Bolsonaro morra. Cheio de empáfia intelectualista e academicista, ele disse, para justificar sua posição infeliz: “Torço para que o quadro se agrave e ele morra. Nada pessoal. (...) Embora ensinamentos religiosos e éticas deontológicas preconizem que não devemos desejar o mal ao próximo, aqueles que abraçam éticas consequencialistas não estão tão amarrados pela moral tradicional” (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/07/por-que-torco-para-que-bolsonaro-morra.shtml). Trocando em miúdos, para o colunista da Folha de São Paulo, Bolsonaro deve morrer logo, pois só assim o Brasil começaria a entrar nos trilhos.

O que disseram Natália Bonavides e os meus amorosos colegas de trabalho sobre as palavras politicamente racionais e envoltas nos ditames da ética consequencialista proferidas por Hélio Shwartsman? Nada. Silenciaram. E sabem por quê? Simples: Bolsonaro é adversário deles, digo, inimigo, porque é assim que veem os adversários nos embates políticos. Igualzinho à postura dos adversários de Natália que vibram com as palavras de Ratinho.

Alguém pode dizer, mas Ratinho foi machista e misógino. Sim, como Lula que, em conversa gravada com o ex-ministro da casa civil, Paulo Vannucchi, referiu-se às feministas do PT como mulheres do grelo duro (https://extra.globo.com/noticias/brasil/lula-chama-feministas-do-pt-de-mulheres-do-grelo-duro-internautas-reagem-18897069.html).

O caso envolvendo Natália Bonavides e Ratinho deve seguir o curso esperado num regime democrático.

A parlamentar afirmou, em suas redes sociais, que as declarações de Ratinho põem sua vida e integridade em risco. Por isso, disse que acionará a justiça, porque acha que ameaças e ataques covardes não devem ficar impunes. “Vamos acioná-lo judicialmente, inclusive criminalmente”, encerrou Natália.

É assim que deve ser na democracia. Quem diz o que quer tem de estar preparado para arcar com as consequências. E o campo do embate é o judiciário.

Faço poucas críticas, neste caso, à postura de Natália e à de muitos dos meus colegas que saíram em defesa dela. Sinto, porém, que os meus colegas falharam em meados de 2020 ao silenciarem quando um professor da casa foi covardemente ameaçado de morte, em redes sociais, se viesse a pôr os pés na maior unidade de ensino da instituição na qual trabalho. O silêncio foi quase total. O que li e gravei, à época, mostra inclusive gente se rejubilando pela intrepidez de quem propôs matar o professor.  

A militância – a aberta e a envergonhada, dos dois lados – não cansam de fazer contorcionismo para justificar os erros grosseiros de seus heróis e aliados. E assim seguimos, sem freio, rumo ao brejo.

Fake news e política: potencialização da mentira

Fake news e política: potencialização da mentira

Há duas décadas e meia, a internet era uma esperança e, às vezes, alvo de piada. Hoje, a piada não é; piada é não estar na internet.

Tente imaginar sua vida sem ela.

O ciclo das inovações é exatamente assim. Quando surgem, muitas vezes, parecem bobagens. Depois de algum tempo, à medida que se desenvolvem, transformam completamente as nossas vidas e as inovações passam de esperança e piada a fatos revolucionárias. Hoje, está cada vez mais curto o intervalo entre tais ciclos. Tudo indica que encurtará ainda mais daqui em diante, com prós e contras.

As inovações interferem em toda a vida social e, como não poderia deixar de ser, o fenômeno político não está imune a elas.

Atravessamos um tempo de disputa entre mentiras políticas, sociais e econômicas apoiadas pelas mentiras da mídia, pelas fake news difundidos por meio de grupos (as mais danosas) ou por ações individuais sem grande impacto. Cada um se acha no direito de opinar sobre tudo, apropriando de um discurso que julga apropriado, atribuindo a outros o que percebe como negativo.

Cabe, antes de prosseguir, uma pergunta: o que é fake news? Não seriam apenas mentiras? Mentiras potencializadas pelas inovações tecnológicas que tornaram o mundo uma aldeia global, para citar estudioso do fenômeno comunicacional?

Etimologicamente, a palavra mentira vem do latim mentire, que remete à palavra mens (mente, inteligência, intenção). Em outras palavras, é o ato de alguém que tem mente, inteligência e intenção e modifica as informações para obter algum proveito, livrando-se d’algumas situações constrangedoras, incômodas.

Em 2015, Umberto Eco sentenciou que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. E completou: “normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”. A televisão “já havia colocado o idiota da aldeia em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Há uma variedade imensa de mentiras e de mentirosos assim como de razões para mentir. Não é meu objetivo fazer uma análise de casos e nem refletir sobre os métodos apropriados para detectar mentiras e mentirosos.

Cada mentira ou ato que chamamos genericamente de mentira, porque provem de nossa mente, esconde e revela algo da realidade e reflete uma situação diferente numa imensa escala de razões justificando as mentiras

Não existem fake news; existem mentiras! Fake news representam mais uma submissão a uma língua estrangeira. É a tentativa de tornar chique uma palavra que traz em seu bojo sordidez. A palavra correta é mentira, mais precisamente a mentira deslavada, urdida no esgoto das ideologias, sejam elas quais forem, e replicadas na internet, que tem potencial de difusão avassalador.

A mentira dos homens públicos não pode ser justificada apenas por nossa finitude humana ou pela condição pecadora da humanidade.

Todos os políticos mentem. Alguns mais; outros menos. Todos utilizam a mentira como ferramenta política sistemática. O que os diferenciam entre si: o volume e a intensidade com que usam a mentira como uma lança política. A prática é sobejamente relativizada, sobretudo na política, notadamente quando utilizada por aqueles a quem rendemos homenagens. Manipulações e dissimulações sempre foram usadas à farta em campanhas eleitorais, com os candidatos adotando a inverdade como tática e estratégia.

Nicolau Maquiavel disse, constatando um fato da política, sem maquiagem alguma e separando a política da ética e da religião, que a mentira é útil aos que desejam conquistar e manter o poder.

Pouco mais de quatrocentos depois de Maquiavel escrever sua obra mais conhecida, os regimes totalitários, à direita e à esquerda, fizeram a mentira mudar de patamar (ou seria de patamá?) como instrumento político, como afiançou Joseph Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. A lógica embutida na formulação do famoso e diabólico ministro da propaganda do regime nazista era precisa: as pessoas duvidariam da falsidade da mentira pela insistência e, posteriormente, considerá-la-ia verdadeira. O próprio Adolf Hitler dizia que as “as massas acreditam muito mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena”.

Para quem acha que isso ocorreu só de um lado do espectro político, não esqueçam que nos anos 1930 pessoas desapareceram dos registros fotográficos na União Soviética. Vejam matéria sobre o assunto aqui (https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-42810209).

Transformar deliberadamente a mentira em realidade pode ser um instrumento eficaz para ascender ao poder. Por isso, Hannah Arendt dizia que verdade e política não se dão muito bem uma com a outra, e parece que ninguém pensou em incluir entre as virtudes políticas a sinceridade. Por sinal, escrevendo sobre o fascismo, a pensadora alemã afirmou que os fascistas exploravam o antigo preconceito ocidental que confunde realidade com verdade, tornando “verdadeiro” o que “até então só podia ser descrito como mentira” e demonstrando profundo desprezo “aos fatos como tais”.

Tirando a dose elitista do pensamento de Eco, o diagnóstico dele sobre o que ocorria em tempos passados e ocorre, em volume e intensidade maiores, nos dias que seguem é correto. A polarização, dados os algoritmos, domina o discurso público, com muitos socados em trincheiras nas quais os extremos estão cada vez mais afastados do centro, criando uma espécie de espaço ideológico vazio. Qualquer um que ouse ficar por ali, tentando estabelecer um mínimo de racionalidade e conciliação será brutal e impiedosamente atacado pelos dois lados, que, insatisfeitos por apenas alvejarem-se, destilam ódio contra possíveis apaziguadores.

Esse pessoal vive numa guerra, porque é assim que enxerga a política. E “na guerra”, como indica frase famosa e controversa, “a primeira vítima é a verdade”.

Não adianta fechar os olhos: traços do DNA de Goebbels e da máquina de propaganda soviética estão espalhados nos discursos e nas narrativas políticos contemporâneos.

 

Simplesmente Marília

Simplesmente Marília

Meu gosto musical sempre foi muito apurado. Eu diria também seletivo em se tratando das novas tendências da Música Popular Brasileira.

Dizer que acompanho todos os estilos seria mentira. Na verdade, sigo apenas aqueles que são do meu agrado: Bossa Nova, Pop, Pop Rock. Do Sertanejo, só me lembro dos clássicos: Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Chororó e Zezé di Camargo & Luciano, que, quando criança, ouvia no início da década de 90, porque meus avós e tios também ouviam. No entanto, não foi um estilo popular que deixou marcas em mim como a Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, o RPM (dentre tantos do Rock Nacional) e os demais nomes da MPB: Ivan Lins, Flávio Venturini, Guilherme Arantes, Tom Jobim, Toquinho etc.

De uns 10 anos para cá, a única estrela do Sertanejo que me atraía por sua voz e por seu estilo, voltado para o Folk Song e para o Country, foi Paula Fernandes. Identifiquei-me com as suas melodias românticas, seguras, seu ritmo tão sentimental quanto os temas das letras que eram cantadas. Em 2015, eis que surge outra estrela, que não teve muito a minha atenção: Marília Mendonça. Por quê? Talvez pelo estilo “exageradamente” sofredor e pelos coloquialismos presentes no texto verbal, dando origem ao que depois se denominou “Sofrência”. Daí, o apelido: a Rainha da Sofrência. A língua portuguesa tem disso, a cada época germinam novos neologismos que caem no paladar do povo, e este é quem determina os rumos que ela vai tomar, assim como a própria MPB. Marília abordava temas banais que integravam o cotidiano do povo brasileiro, especialmente das populações interioranas. O que explica tanto sucesso e tanta comoção com a sua morte prematura em 05 de novembro?

Até para mim que nunca fui seu fã, a notícia de que seu avião particular, que voava em direção à cidadezinha de Caratinga/MG, para mais uma agenda de shows, caíra na zona rural, região serrana, explodiu como uma bomba no meu peito. Eu parecia não acreditar. Marília Mendonça estava no auge da sua fama. Aspirava toda a plenitude do seu ser. Foi reverenciada por grandes celebridades da MPB como Caetano Veloso, o qual fez uma alusão à sua pessoa em uma faixa sua intitulada “Sem samba não dá”, do álbum Meu coco. Houve até uma canção composta por Marília, sob encomenda, e interpretada por Gal Costa em seu novo álbum A pele do futuro. Trata-se da faixa “Cuidando de longe”. Difícil crer, porque para mim era só mais uma cantora sertaneja com um estilo bem “brega”. A explicação para tamanho carisma e destaque, possivelmente, esteja na ousadia que teve em abordar, com tanta naturalidade, temas sociais até então tabus.

Algumas de suas canções mostravam como se encontravam as relações humanas, principalmente as amorosas: em total banalidade. Traições, relacionamentos conturbados, um eu feminino que passava a fazer coisas que só os homens faziam, como beber cerveja, tequila e ainda subir em cima de uma mesa, aproveitando o momento de libertinagem. Que intensidade! Era este o perfil da gente rural. “Bem pior que eu você/Que não deixa ela/E ainda vem me ver”, escreveu em uma de suas letras. “Iê! Iê! Infiel/Agora ela vai fazer o meu papel/Daqui um tempo, você vai se acostumar/E aí vai ser a ela a quem vai enganar/Você não vai mudar”, observou em outra. Realmente, é muito comum viver a vida tão intensamente, correndo todos os riscos e tentando ser feliz do seu próprio jeito, ainda que você se depare com a censura alheia no fim das contas. Ao mesmo tempo, Marília Mendonça expôs um novo modelo social: aquele no qual a mulher ganha mais espaço e maior liberdade para planejar e agir conforme seus próprios sonhos e vontades. É o que as feministas classificam como “empoderamento”; palavra que até então eu desconhecia e tinha ido consultar no Aurélio. Achei, dentre duas acepções, a mais próxima do contexto, soando até como gíria: “Passar a ter domínio sobre a sua própria vida; ser capaz de tomar decisões sobre o que lhe diz respeito: empoderamento das mulheres”. Cada vez mais autônoma, a mulher busca produzir, capacitar-se, colocar-se ao lado do homem como ser pensante, transformador. Tudo isso para nós é algo ainda instigante, sobretudo quando se torna midiático. O que antes estava se modificando lentamente e despercebidamente agora está aí, às claras, para quem quiser ver. Marília não tinha vergonha disso e muito menos de ser uma cantora sertaneja que falava do sofrer e do que visivelmente fazia as mulheres sofrerem. Tal dor exigiu delas mais imposição, coragem e força para desnudarem as suas aflições; porém, tudo de uma forma muito intensa e objetiva. Não estávamos acostumados a essa maneira de expressão feminina que se destacaria neste século. Até pouco tempo, eu via a gente simples, que gostava desse estilo musical romântico, como uma parcela da população brasileira mais oprimida ou comedida talvez. Nunca como cidadãos que resolvessem gritar ou serem ouvidos enquanto pessoas à procura de respeito quanto às próprias decisões. É isso!

Somente por meio da arte, neste caso da música, é que passamos a nos entender mais na atualidade. Quem sabe até repensarmos a nossa maneira de amar, de nos relacionarmos uns com os outros, das mais variadas formas, de nos expressarmos e de nos conhecermos no que se refere a quem somos e ao que queremos de nós mesmos! Marília nos ensinou o caminho. Se o Sertanejo deu os seus primeiros passos na década de 80 e 90, com mulheres como Roberta Miranda, ainda muito timidamente, como todo estilo musical, evoluiu com a sociedade, aceitando mudanças. Normal! Cada geração com os seus respectivos costumes.

O sertanejo passou a ser uma tendência da MPB com aspectos políticos e sociais e teve a missão de problematizá-los sem poupar vocábulos. Marília Mendonça liderou uma legião de cantoras a seguirem essa vertente dentro do que era chamado de “brega”, “sofrência”. Com um mundo no qual valores morais se invertem a todo momento, é preciso amoldar-se e enfrentar novos desafios. Marília não teve medo. Jogou-se de corpo e alma e venceu-os um a um. Se ela pôde, nós podemos.

“Maravilha Mendonça!”. É como está escrito na letra da canção “Sem samba não dá”, de Caetano Veloso. É, portanto, maravilhoso saber que a semente foi plantada, a árvore cresceu, deu frutos bons e continuará a ser bem cuidada. Para os admiradores, Marília Mendonça já é imortal na música brasileira; para os que só escutavam suas canções esporadicamente, também, dado que tudo que vem contribuir para humanizar (e não aludo aqui a palavra apenas no sentido de fazer o bem, mas no sentido de suscitar um debate sobre quem somos, sobre no que nos transformamos) é válido. Afinal, a vida para nós continua e sempre cheia de responsabilidades. A maior delas agora chama-se “viver”. Viver com amor, com a crença no que é possível ser e fazer diferente se for o caso. Viver honestamente, com o esforço de quem enxerga no outro algo que precisa de entendimento, de uma chance. É o que visualizo em Marília; é a grande e sutil lição deixada. Ela, uma pessoa decidida que cantava um estilo musical simples e que a fez única e simplesmente Marília.

 

Por Paulo Caldas Neto

Antes que só do que mal acompanhado

Antes que só do que mal acompanhado

Venho pondo em prática o ditado popular expresso no título deste texto e que, segundo estudiosos, nasceu no século XIII, quando cruzados espanhóis partiam para a Terra Santa: Mejor sería andar solo que mal acompanhado.

Tenho evitado, tanto quanto possível, discutir política em grupos de aplicativos de mensagens e mesmo no restante da esgotosfera, devido à polarização bruta, estúpida e emburrecedora. Prefiro continuar bruto, estúpido e burro sem a contribuição de meus irmãos de infortúnio.  

Até fora da esgotosfera tenho evitado o tema. E isso tem me feito um bem danado.

Quando quero dizer algo sobre o assunto, escrevo em meus perfis nas redes sociais ou em espaços aos quais tenho acesso (sites, blogs, etc), sem abrir espaço para polemizações infrutíferas.

Consolidei minha intenção quando passei a ver um monte de gente fanática defendendo os seus “heróis” e atacando os “heróis” dos outros, cegando para os erros de casa e apontando os erros da rua.

Esquerdistas acusam o atual presidente da república de propor medidas para estourar o teto de gastos (defendo que o teto de gastos deve ser respeitado por Bolsonaro e por qualquer pessoa que sente em cadeiras de presidente, de governadores e de prefeitos) e esquecem que, em 2014, Aluízio Mercadante, então ministro-chefe da casa civil, disse que aqueles que pretendem impedir o governo de alterar a lei de diretrizes orçamentárias (LDO) não entende de matemática. Sobre a atuação de Mercadante e sobre as mudanças proposta pelo governo Dilma, vejam, respectivamente, os links (https://www.reuters.com/article/brazil-politica-cmo-novavotacao-atualiza-idBRKCN0J31W020141119) (https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-12/dilma-pede-aprovacao-de-projeto-que-muda-meta-fiscal).

O governo da presidente Dilma enfrentava então uma tremenda crise fiscal e buscava resolver o problema por um caminho fácil, a exemplo do governo de Bolsonaro. Pareceu-me, à época, que o governo do qual Mercadante fazia parte não entendia matemática, afinal foi o governo que não coube no orçamento e, como não coube, quis, malandramente, mudar as regras do jogo, lançando, de quebra, o Brasil no limbo econômico, de onde teria dificuldades de sair.

Os governantes brasileiros são useiros e vezeiros na arte de gastar o que não têm e transferirem o débito para os sucessores. Não administram, esbanjam. De todos os que sentaram na cadeira presidencial, somente um, Fernando Henrique Cardoso, teve a grandeza política de tentar pôr o país nos trilhos. Para ser justo, Michel Temer também, mas o passado nefasto o golpeou e ele precisou ficou boa parte do mandato tentando salvar o próprio pescoço.

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Num convescote organizado em Lisboa, Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), disse, sem constrangimento algum, quando falava sobre sistemas políticos que no Brasil já funciona num modelo semipresidencialista “com um controle poder moderador, que hoje é exercido pelo Supremo Tribunal Federal. Basta verificar todo esse período da pandemia”. E seguiu o seu raciocínio tortuoso e criminoso: “Governar não é fácil no Brasil. O sistema presidencial tem muita força, mas o Parlamento é a centralidade, na medida em que é no Parlamento que se formam os consensos das elites regionais, sendo a Justiça sua fiadora.” (https://www.youtube.com/watch?v=sXso93sW7c4).

Que o Brasil tem um sistema político Frankenstein, é sabido.

No processo de elaboração da atual Constituição (promulgada em 1988), para ela foi contrabandeada toda sorte de elementos parlamentaristas, sem que os constituintes fizessem o serviço completo. Tanto que propuseram um plebiscito, para 1993, por meio do qual o povo iria se pronunciar sobre forma e sistema de governos.

No entanto, uma coisa é ter uma Constituição capenga, outra bem diferente é um ministro da corte constitucional admitir publicamente que o tribunal do qual faz parte atua em descompasso com a Constituição da qual é o guardião.

Claramente o ministro admite haver uma subversão da ordem constitucional. E o estranho é que isso não gerou maiores sobressaltos.

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