Historiando

A persistência da retórica sebástica

A persistência da retórica sebástica

Estamos no final de 2021, a quase um ano da eleição presidencial, mas os potenciais candidatos insistem em adiantar a campanha e esquecerem que o Brasil (e quase todo o mundo) precisa de unidade para sair da crise na qual está mergulhado.

O presidente da república e candidato a renovar o mandato e o ex-presidente Lula, os principais contendores, parece que ainda não perceberam que a campanha política pode esperar um pouco mais. A linguagem de comícios insiste em dominar a fala deles e, de resto, de todos os que se apresentam como salvadores da pátria.

Deveria ser hora de mais administração e menos eleitoralismo. Mais ações e menos marketing.

É usual entre os políticos brasileiros não perceberem a distância que separa o palanque do gabinete. Mas no caso de Bolsonaro e de Lula é patológico e o resultado tem sido catastrófico para o país, engolfado por crise que parece não ter fim.

O imobilismo político e administrativo do atual presidente e sua potencial sanha gastadora, geram desconfianças no mercado, pois demonstram que as preocupações do atual ocupante do Palácio do Planalto são mais pela reeleição e menos pela saúde financeira do Estado.

Enquanto isso, ex-presidente Lula sobe nos palanques e nas pesquisas acreditando-se empenhado numa cruzada política destinada a acabar com o sofrimento dos pobres a toque de exibição e falação, adotando retórica salvacionista que, sabemos, invariavelmente resulta em demagogia desenfreada, irresponsabilidade financeira e ressaca fiscal, com todas as consequências deletérias.

Bolsonaro não fica atrás.

Lula e Bolsonaro jogaram o Brasil num extremismo desastroso e apresentam-se como os escolhidos para retirá-lo de lá. Um “salvando” à esquerda e o outro, à direita. Ambos, metendo a mão no combalido cofre estatal.

Sempre que podem Bolsonaro e Lula recorrem à retórica demagógica. Um e outro apresentam-se como o bonzinho que vai combater o mal, personalizado no adversário, qualquer adversário que se ponha no caminho. Hoje, o mal, para Bolsonaro, está em Lula; o de Lula, em Bolsonaro. Ambos estão prontos para salvar a população brasileira das garras dos que só se aproveitam dela.

É um discurso perigoso porque marginaliza a política, a sociedade, as questões econômicas, a razão, etc. Política e fé se fundem e, juntas, propõem a salvação a qualquer custo.

Bolsonaro e Lula não são os primeiros a fazerem uso de tais expedientes. Por sinal, a retórica messiânica não soa esquisito em líderes como eles, nascidos nos laboratórios do populismo tupiniquim, acalentados no assistencialismo rasteiro e apoiados pelo tradicionalismo político. É da essência dos dois contendores. Sem ela, o ex e o atual presidente não existiriam politicamente.

Não é novidadeira no Brasil, como disse acima, a apropriação do discurso religioso pelo debate político. Até os anos 1970, os anticomunistas acusavam os comunistas de representarem o mal, e estes diziam ser a burguesia e os latifundiários as melhores representações de vilania.

A retórica política sebástica é, além de pretensiosa, absurdamente cínica, pois invoca o sagrado para defender interesses comuns e materiais.

O povo, ora o povo é apenas joguete da inconfessabilidade política.

 

O indivíduo e o mercado

O indivíduo e o mercado

Adam Smith foi o primeiro grande pensador a discorrer sobre o mercado como catalisador da eficiência e da produtividade econômica.

Para o pensador escocês, o egoísmo é algo inerente ao ser humano e esta falha não seria inteiramente negativa, visto que era pelo egoísmo que todos os homens de negócios, que precisam agradar aos consumidores, engalfinhar-se-iam na tentativa de vender suas mercadorias e assim poderem potencializar os seus ganhos.

Mais de um século depois que o pai da Economia escreveu a sua grande obra (A Riqueza das Nações), que influenciou dez entre dez economistas, o francês Émile Durkheim elegantemente ajustou, do ponto de vista sociológico, a tese smithiana.

Durkheim diz que nas sociedades mais simples e mais homogêneas há uma integração equilibrada entre as partes porque existe pouca diferença entre elas, prevalecendo a solidariedade mecânica, que não exige uma reflexão intelectual ou uma escolha. Neste tipo de sociedade, o grau de coesão social é muito alto, sendo improvável que um indivíduo se sinta perdido e sem direção no mundo. O “sentido do nós é superior ao sentido do eu”, diz o mestre francês. A coesão é garantida por um conjunto de princípios (uma moral) e um conjunto de regras e normas (um direito), cuja função é punir os indivíduos que ao transgredirem ofendem a toda a sociedade. No mundo moderno e contemporâneo, porém, os vínculos entre os indivíduos são mais esgarçados e, aí, ninguém mais sabe com certeza o seu lugar ou em que direção seguir, como se nada mais os ligasse. Nesta sociedade predomina a solidariedade orgânica, produto das diferenças trazidas pela nova divisão social do trabalho. A solidariedade persiste, mas ela é fruto não da igualdade e sim da diferença. Os homens continuam obrigados a obedecerem regras e normas, entretanto as faltas cometidas pelos indivíduos não afetam a sociedade como um todo.

Como o homem é egoísta, diz Durkheim, a vida em sociedade os obriga a respeitar aos interesses dos outros e às instituições. Sendo assim, as regras morais garantem à sociedade um princípio de justiça. Nas relações econômicas, cada um dos agentes envolvidos deseja cravar o punhal nas costas do outro: “Há, nessa exploração do homem pelo homem, algo que nos ofende e nos indigna”.

Se o mercado é a arena social por excelência, é para ele que todos devem voltar a atenção, pois é ali que ocorre a maior parte dos conflitos e é ali que mais claramente percebe-se  como não é possível viver sem a cooperação de todos. Logo, diria Durkheim, o mercado precisa de uma ética mais forte que a lógica econômica, pois, deixado ao sabor dos acontecimentos e dos imperativos individuais, ele não tem limite e ameaça a vida social.

O problema de Durkheim é, guardada a devida proporção, o mesmo de Karl Marx quando este sugere algo para pôr no lugar do capitalismo. O alemão propôs um mundo idílico de extinção das desigualdades sociais que se configurou num mundo de opressão política e de pobreza econômica. O francês sugeriu uma espécie de ressurreição corporativa, onde pudessem conviver, de mãos dadas, patrões e empregados. A sua ideia resultou em algo daninho pouco menos de duas décadas depois de sua morte. 

Como críticos do funcionamento do sistema os dois são geniais, mas não conseguiram fazer a transposição de críticos para formuladores de uma nova ordem.

A ideia smithiana de um mercado livre ainda é, tirando-se os excessos, que podem ser podados por marcos reguladores, a melhor ferramenta para garantia da eficiência econômica. Nele está uma ética do egoísmo, instrumento propulsor dos ganhos de produtividade e, por tabela, da efetivação do crescimento econômico, porta de entrada para a melhoria do bem-estar social da maioria da população em qualquer parte do mundo.

O som do silêncio

O som do silêncio

Qualquer pessoa que relembra esporadicamente os fatos marcantes da infância e da adolescência procura assinalar como brincadeiras inesquecíveis as mais tradicionais: esconde-esconde, cabra-cega, polícia e ladrão, teco-teco, amarelinha… Além daqueles esportes muitíssimo sabidos e que não podem sumir da nossa prática do dia a dia, sendo o futebol o de maior fama.

Assim como toda criança, não fugi à regra: experimentei boa parte das atividades esportivas, mesmo não gostando intensamente delas. Porém, tive de cultivá-las na escola por questões de saúde e por obrigação, dado que educação física era (e ainda é) uma disciplina do currículo escolar e nunca será abandonada por atender também às necessidades médicas. É fato, não há como negar. Longe de mim sugerir o fim das atividades físicas. Querendo ou não, todo mundo, na infância, na juventude ou na velhice, acaba se exercitando para que o corpo não esqueça a sua principal função ― o movimento.

O corpo humano não foi feito para a quietude. É duro, agora que estou beirando os 40 anos, admitir isso, mas é verdade. Aliás, sempre foi. As consequências vão desde uma simples bursite no ombro esquerdo a uma condromalácia nos joelhos. Aí, não tem vez: ou se fazem exercícios, sejam de musculação, sejam de reabilitação, ou se espera a morte chegar.

Quanto a esses entretenimentos, é inevitável a sua presença no progresso infanto-juvenil. Outros, facultativos, vão preenchendo o tempo do indivíduo quase que por osmose, e ele nem se dá conta. Pois é. Eu não me dei conta que, salvo o esporte enquanto disciplina que garantia parte das notas bimestrais, a arte viria a dar significado à minha existência não muito bem compreendida até hoje. Não sei se isso é coisa de artista ou se acontece mesmo. O fato é que talvez parte da minha introspecção venha daí, e eu sinceramente, em algumas horas, até que me sentia bem sozinho comigo mesmo. Uma voz começou a brotar intimamente, o primeiro som. Não era uma voz comum, tinha o canto de uma sereia. Seduziu-me desde o início. Uma embriaguez! E eu tinha apenas 5 anos completos! Não perguntem como explicar tal feito porque há mais de 05 décadas que não tenho sequer uma resposta.

O primeiro som! Diferentemente de um ruído, o som nos transmite um significado e, por sua vez, é classificado como música. Essa dama que há milênios nos encanta com o seu dom de iludir, que há milênios nos emociona com sua capacidade de nos transformar, não sai de mim; aliás, nunca saiu. A prova disso é que cultivei todas as pérolas musicais em uma coleção de clássicos, doada por uma inquilina de papai quando eu somava aproximadamente 15 anos completos. Antes, ainda no período infantil, é claro, tive os meus tios, amantes da música erudita. Bons professores que eram iam instigando minha curiosidade, e eu, sem saber direito, ia exercitando em mim o gosto pela apreciação musical… Voltando à inquilina. Ela era, à época, uma senhora de seus 50 e poucos anos e havia adquirido a coleção pela Revista Caras, um encarte nacional que se ocupava de reportagens sobre a vida e obra de celebridades e havia lançado um suplemento cultural sobre a biografia de inúmeros compositores da música erudita. O apêndice era composto de um CD contendo músicas do compositor, interpretadas por músicos e filarmônicas do mundo todo, e de um caderno com informações sobre a trajetória do respectivo gênio. A cada edição da revista, um nova história sobre um talento musical se apresentava para quem desejasse conhecê-la. Enfim, tendo por mamãe uma enorme amizade e sabendo do meu interesse, essa gentil e solitária senhora não pensou duas vezes:

― Você quer todos esses CDs? ― perguntou-me percebendo os meus olhos brilhantes.

― Posso mesmo?! ― eu não me continha de tanto fascínio.

Peguei o material discografado em laser e corri para casa para ouvi-lo no aparelho que tinha em meu quarto, o meu retiro até a atualidade quando preciso meditar. Sentia um alívio na alma sempre que lia a história de vida de todos aqueles prodígios da música, sobretudo os que compunham para piano, o instrumento que conseguia sobre mim, com sua elegância e nobreza de estilo, hipnotizar-me cada vez que eu reconhecia sua timbre característica. Foi a partir daí que me aprofundei nos estudos histórico-musicais mesmo sem o saber teórico e prático que todo interessado em estudar tal arte carece ter se quer tornar-se pelo menos um aspirante a virtuose. Essa lacuna, deixada em parte pela falta de recursos financeiros, naquele tempo, para obter um piano clássico, terminou preenchida pelos quesitos análise e apreciação musical, que, muitos anos depois, eu descobriria se tratarem de disciplinas do currículo escolar dos cursos técnicos e de graduação na área nas diversas universidades do Brasil. E tudo se deu graças ao som que veio do silêncio! Sim, porque para desenvolvermos o gosto pela música, seja ela erudita e de origem europeia, seja ela popular (e aí depende de cada nação), é preciso ouvirmos o silêncio que há em nós. “Não haveria som/se não houvesse o silêncio…”, quiçá esses versos de Nelson Motta, musicados por Lulu Santos, exemplifiquem o meu escólio.

As ideias inatas e musicais estavam em estado de latência, isto é, não se perderam. Continuaram em mim adormecidas, esperando a alvorada. Os primeiros raios de sol as despertaram. Mas a manhã demorou a nascer, como todos nós que necessitamos de tempo; e este é de Deus, não nosso. As noites eram mais longas antigamente. Para sobreviver a escuridão, eu contava com a literatura, outro som, só que feito de palavras. Essa dama da noite vinha me fazer companhia ao chamado de papai quando contava histórias para mim antes do sono; uma prática que, nos dias de hoje, infelizmente, não existe mais. O tempo passou até que na juventude (lá pelos idos de 1996) eclodiu a primeira vitória com as letras ― um prêmio escolar pela escrita de um romance em prosa, informação já compartilhada, creio, em outro texto escrito. Sentia que ao escrever, especialmente um poema, era como se compusesse uma letra de música. Será que eu já fazia MPB?! Pelo visto, na noite fria, de vez em quando, apontava o Sol da meia noite. Porém, novamente o silêncio era ouvido, e a música que se fazia ouvir pelas palavras de cada verso e estrofe me mostrava que, mesmo em outro campo da arte, era possível ser notada. Ela também me demonstrava ser totalmente adaptável a outros terrenos, e isso era incrível ao meu olhar adolescente!

O sonho não acabou. Finalmente, a manhã que eu esperava nasceu. Pude respirá-la com todas as minhas forças, acolher suas melodias, seus acordes, seu ritmo em vários compassos regulares e irregulares. Todos eles com a ajuda do piano. Mágico! No entanto, a magia, no fim das contas, está no transmitir. Usa-se o cérebro para se compreender a música; em seguida, o coração para senti-la. Por último, todo o pensamento e todo o sentimento são repassados aos ouvintes a quem queremos tocar, transformar com a única intenção de praticar o bem. Sempre acreditei no poder da palavra, mas especialmente no poder do som. A música que eu queria tocar, compor, improvisar era para o bem dos outros. Era para levar alento aos ouvintes, à humanidade. Belíssimas canções eruditas ou populares integrariam o meu repertório e fariam um enorme bem ao Brasil. Os possíveis aplausos que eu receberia em cada apresentação pública me dariam a certeza da missão cumprida. Um brinde à boa música!

 

 

Por Paulo Caldas Neto

Populismo fiscal e ressaca econômica

Populismo fiscal e ressaca econômica

A América Latina é useira e vezeira na arte em produzir crises – econômicas, políticas... Crises de toda ordem. Potência na região, o Brasil não foge à regra do lugar, esteja mandando no país a direita ou a esquerda.

Uma das últimas uniu políticos, intelectuais, artistas e anônimos. Todos irmanados contra o projeto voluntarioso, demagógico, oportunista e irracional do atual presidente Jair Messias Bolsonaro, às voltas com mais uma daquelas propostas que negam o que a contabilidade ensina há anos: a de que despesas não podem ultrapassar receitas, sob pena de, ocorrendo tal desatino com frequência, gerar dívidas que engolirão receitas... O núcleo-duro da formação oposicionista ao projeto bolsonarista é formado por aqueles que querem apeá-lo do poder; repete-se, agora, o que se fez contra Dilma, mudando-se apenas a composição ideológica. O enredo demonstra que obediência a princípio, no Brasil, é coisa apenas para estar em discursos, nunca para praticar. Lembro-me de uma máxima antiga: “Em política, quem tem princípio tem fim.”

Nossos dirigentes, quase sempre muito diligentes no trato com a coisa pública quando oposicionistas, são muito pouco responsáveis e quase nunca responsabilizados pelas farras que produzem com o dinheiro do Estado, que, a rigor, do povo, o último a ser consultado sobre o que fazem com o seu rico dinheirinho.

O Brasil parece não aprender a discutir os temas sérios com a devida seriedade. Não há, entre os nossos dirigentes, parece, sabedoria suficiente para compreender os anseios da sociedade. Por isso, abusa-se dos atos voluntaristas que visam tão-somente a eleição seguinte.

A ciência moderna nasceu no Ocidente. Mas a sabedoria não tem hemisfério. O Japão e a Coréia e, agora, a China têm sobejamente provado isso.

Arruinada por quase três décadas de dirigismo econômico, a China faz, desde o final da década de 1970, quando se libertou dos dogmas maoístas, uma reforma econômica encangada na outra, sem que o móvel delas sejam as crises econômicas que enfraquecem ciclicamente as economias ocidentais. E a experiência chinesa torna o sucesso de uma reforma ensinamento para a seguinte.

Os chineses fizeram, nos últimos vinte anos, duas importantes reformas tributárias, reforçando a máxima de Miguel de Cervantes, o célebre espanhol criador de D. Quixote de La Mancha, para quem “o melhor molho do mundo é a fome”.

Enquanto os chineses debruçam-se sobre o essencial, o Brasil fica no acessório.

Desde Sarney (para ficarmos somente na Nova República), a reforma tributária está na agenda do dia. Fernando Henrique Cardoso e Lula afirmaram ser ela uma prioridade – juntamente com a reforma política. Ambas ficaram pelo meio do caminho, pois o “príncipe e o sapo”, para usar imagem construída por importante jornalista, não puderam – ou não quiseram – queimar o capital eleitoral e político numa matéria por demais desgastante.

Reforma tributária – na China ou em Marte – passa por cima de interesses. A última feita na China, uma ditadura, consumiu três anos de discussões. No Brasil evita-se o primário – a discussão do tema. E assim, passa o tempo e as distorções do sistema tributário só se agravam. E a complexidade do sistema entrava o crescimento econômico, impedindo a população economicamente ativa de ocupar um espaço no sistema produtivo.

Sem crescimento econômico compatível com as necessidades de nossa população, criamos um exército de famélicos que só conseguem sobreviver à base dos auxílios sociais do governo. Dessa forma, corremos o risco de transformar programas assistenciais em políticas permanentes. Seria a escravização dos pobres, eternamente dependentes das esmolas governamentais.

Alguns dos desajustes da economia brasileira decorrem da dificuldade de nossa elite dirigente, à esquerda e à direita, de aceitar uma mudança de porte no contrato social entre o Estado e os indivíduos, algo que substituía a visão paternalista do governo por uma atitude mais próxima daquela que vigora nos países que mais crescem no mundo.

Ser contra o paternalismo do Estado brasileiro não significa ser avesso à solidariedade – mesmo porque o paternalismo é o abastardamento da eficiente solidariedade. É de suma importância que sejamos sensíveis com os problemas alheios e atentos à miséria que campeia no nosso país. Precisamos, porém, atentarmos para alguns aspectos importantes. Não é possível, do ponto de vista econômico, praticar solidariedade sem custo. Logo, há limites orçamentários que devem ser obedecidos. Qualquer programa político de solidariedade tem de funcionar, então cabe a quem o implementa buscar eficiência. Isso pode parecer, ainda que seja, apenas tecnocracia; assim deve ocorrer, dado que os recursos disponibilizados para programas e políticas sociais são escassos, mas as demandas são infinitas.

A Constituição de 1988 reflete o período em que foi elaborada e, portanto, a falsa percepção que ao Estado caberia a função-mor de provedor da Nação. Foram várias as mazelas trazidas, entre elas a opção de implementar políticas sociais meramente distributivas, que funcionam através de um sistema puro e simples de transferências de recursos financeiros e que, de certa forma, prendem o beneficiado ao presumido benemérito – sempre o agente público que distribui benesses com o chapéu de todos. É o neocoronelismo, com o coronel mudando-se de cada município do Brasil para a capital federal.

O mais correto e certamente o mais alvissareiro, a médio e longo prazo, seria a readequação do sistema, com maior igualdade de oportunidades, cabendo ao Estado a repactuação do contrato social – que deveria estabelecer o Estado daria a cada indivíduo, essencialmente, educação básica, saúde, segurança e acesso ao sistema de justiça. Daí por diante, caberia a cada um desbravar seu caminho – com atuação pontual do Estado para sanar pontos de estrangulamento. Funciona assim nos países que estão dando certo, mas o Brasil prefere trilhar um caminho próprio, ainda que os resultados se mostrem desastrosos. É a contra-indução de que falava Mário Henrique Simonsen.

Somos um país que detesta o sucesso e enaltece o fracasso. Tom Jobim afirmou que o brasileiro gosta de render glória ao fracasso. Por isso, arrematava o músico genial, o brasileiro não gosta como deveria de Pelé.

Os gastos da previdência subiram, de forma exponencial, entre outros fatores, porque por mais de duas décadas só aumentamos a remuneração de quem nunca contribuiu ou quase nunca contribuiu para o INSS. E só fizemos a reforma quando não havia mais saída (e olhe que teve trabalho de pós-graduação, aprovado em banca, que apontava como desnecessária a reforma).

Os gastos com a distribuição de bolsas cresceram assustadoramente (ainda que sejam ínfimos os gastos do governo federal com elas se comparados a outros) na última década e meia e a consequência disso é que a despesa primária vem aumentando muito como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo período. Isso não é ilegítimo, mas se sabemos como os gastos do governo têm crescido e não nos dignamos a discutir o tipo de Estado que queremos, não podemos reclamar do aumento da carga tributária, nem de que faltam recursos para investimentos. Afinal, como disse acima, os recursos orçamentários serão consumidos em políticas de solidariedade. E eles irão embora tanto mais rapidamente quanto menos eficientes tais políticas forem. Este é um princípio econômico. E não pode ser revogado por decreto, como quiseram muitos daqueles que sentaram na cadeira presidencial.

Governos gastadores e perdulários resolvem seus problemas e pioram,, a média e longo prazo, a vida da Nação. Não existe, como disse Delfim Netto, almoço grátis. A conta sempre chega, e é paga pelos convivas ou por quem convida. Se ninguém quer pagar, o dono do estabelecimento assume o prejuízo. É assim que as coisas funcionam no mundo real da economia, onde não há espaço para quem é apenas voluntarioso.

 

A caminho do caos

A caminho do caos

Assim como a maioria das pessoas nos dias de hoje, faço terapia cognitivo-comportamental. É uma forma de aprender a controlar a ansiedade que tenho e que herdei de familiares. Não é uma tarefa muito fácil num mundo cada vez mais problemático e exigente como o nosso. É de praxe eu chegar ao consultório do especialista, e ele me perguntar: “e aí, meu amigo, como estamos?”, e eu responder quase sempre: “caminhando, amigo… Porém…”. Este último vocábulo já é uma verde que eu jogo para tratarmos do que realmente vem me incomodando. E desse jeito, vamos levando a entrevista que dura em média 01h00min.

 

O engraçado é que, de vez em quando, no meio dela, eu acabo servindo de terapeuta para ele, e nós dois vamos trocando vivências até certo ponto comuns e divertidas. Na última sessão, a conversa girou em torno da crise ética e de valores que assola o nosso Brasil. Crise esta que se reflete também na escola, meu ambiente de trabalho. Segundo o psicólogo, estava ele deitado na rede da varanda do condomínio onde reside, lendo um bom livro, quando adolescentes, que se entretinham no salão de festas, começaram a ouvir uma música no estilo funk e a cometer atitudes estranhas. Eram três meninos e três meninas, possivelmente filhos de moradores da habitação coletiva. O relógio batia 0h00min. Como ele não costuma dormir cedo, acompanhou o episódio em tempo real.

 

Que alguns fãs do funk me perdoem pelo preconceito, mas o estilo pouco constrói valores positivos para uma sociedade carente destes, a começar pela qualidade das melodias e das letras produzidas. Daí, porque tenho que dar crédito ao gênio da Música Popular Brasileira, Milton Nascimento, “o Bitúca”, ao se expressar sobre o assunto: “A MPB hoje é uma merda!”. De acordo. Não há, infelizmente, outra qualificação. Tudo isso também é a representação de uma educação intelectual decadente. Que saudade da educação tradicional que a escola fornecia! Se funk é cultura, me desculpem, não consigo enxergar uma cultura que inverte valores como saudável na edificação do caráter humano. É uma verdadeira falácia que só engana idiotas. Os temas das letras do referido estilo musical só banalizam a mulher, o sexo, o casamento e o amor, mostrando conceitos controvertidos. E esse material todo ainda têm a parceira da grande mídia para disseminá-lo.

 

Mas voltando ao fato, a mim relatado pelo profissional. O embalo da música e o conteúdo da letra inspiraram um dos jovens, do sexo masculino, a dar tapas no rosto de uma das adolescentes que estava ali no salão, participando da festa. Isso mesmo, leitor, “dar tapas”. Ou seja, o texto verbal ensinava o homem a agredir fisicamente a mulher. Pelo menos, foi o que entendi do relato. A jovem começou a chorar e a desejar não mais integrar o grupo e a dança de pares que estava se desenvolvendo naquele instante. O agressor ignorava o sofrimento da vítima, sem a mínima noção da gravidade do ato. Continuou a dançar e a se divertir como se nenhuma inconveniência estivesse se desenrolando. E pior: as outras adolescentes consolavam a agredida, argumentando que a atitude do agressor era normal, e que as lágrimas dela não se justificavam. Convenceram-na a retornar à dança. Resultado: as agressões físicas permaneceram. Pelo visto, somente a adolescente agredida é que tinha ciência do tamanho de sua dor. Confesso que fiquei estarrecido e inquiri:

 

⸺ Onde estavam os pais desses jovens que não viram isso? ⸺ o psicólogo ficou mudo, sem resposta.

 

É uma irresponsabilidade, um abandono! Fico pensando: se a família não educa, não pune os próprios filhos, quem vai fazê-lo? A escola? Esta adora dizer que também não existe para punir, como foi o que ouvi uma vez de uma pedagoga com quem já trabalhei. Então, quer dizer que disciplinar é prejudicial à saúde mental da criança e do adolescente? Porque, nas entrelinhas, é o que quase se apreende desse discurso. Quem vai dar limites? A Polícia? A Justiça? Coitado desse jovem ao atingir a maioridade penal! Sofrerá as consequências de seus atos ao experimentar o rigor da lei ou a escuridão de uma cela. Isso, se não for antes vítima da própria violência. Não quero levantar um debate ideológico aqui como alguns até preferem; primeiro, porque não tenho compromissos dessa natureza; segundo, porque acho que a causa está além disso. Passa por políticas sociais eficientes para amparar a estrutura familiar falida e pela substituição de um modelo educacional que já deu sinais de desgaste. Claro que é uma tarefa a longo prazo. E com um Estado corrupto como o nosso, esse “a longo prazo” é tão longo que os resultados esperados nunca chegam. Vão tomando formas na sociedade um cansaço, uma insatisfação por tanta impunidade, criando, assim, um sentimento de “salve-se quem puder”.

 

A Constituição da República Federativa do Brasil é bastante enfática no seu art. 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Se uma postura compromissada, das instituições aludidas, deixar de existir, correremos um grande risco de vivermos uma metástase social. Tudo começa pela educação familiar, complementando-se na escola.

 

Ademais, nenhum dos dois lados pode se omitir sob pena de formarmos profissionais medíocres para o mercado de trabalho. Ao contrário do meu tempo de estudante, hoje, nem a escola, nem a família criam na criança uma cultura do dever. Brigam pelos direitos dos educandos, entretanto, esquecem-se de orientá-lo para o esforço. O argumento, conforme a pedagogia moderna, que teve como um dos precursores o teórico Paulo Freire, é a de se educar o cidadão para que este, desde cedo, adquira a sua autonomia. Ocorre que a criança ainda não é um ser autônomo, a menos que para atividades lúdicas. É preciso, como era no meu tempo, que os pais e a escola monitorem o estudo da criança, a fim de que esta se empenhe a, de fato, aprender; do contrário, ficará perdida, sem saber o que e como fazer. Como vou querer que um educando escreva se antes não o ensinei a escrever e, por sua vez, a ler? Como posso exigir que um aluno estude um instrumento musical se antes não o ensinei a tocá-lo e muito menos a teoria da música? São pressupostos até mesmo para que ele se torne um bom arranjador ou improvisador nessa área. Esses exemplos ilustrativos valem para qualquer outra analogia sobre o método de ensino-aprendizagem.

 

Pela ausência de uma cultura do maior esforço, a família chantageia a escola, cobrando-lhe facilidades na avaliação, apenas com o intuito de que os filhos sejam aprovados e um diploma, conquistado. Professores são ameaçados, desrespeitados, e o aluno, nesse contexto, vai aprendendo que a vida é fácil, que desacatar uma autoridade é o correto, e que os obstáculos devem ser mínimos. Com o aval dos familiares, não se submete a forte e necessária pressão da escola para o progresso de suas habilidades cognitivas, e o resultado é a frustração diante de uma enorme carga de responsabilidade que a academia, em seguida, irá lhe atribuir, uma vez que, no ensino superior, se forma o educando para uma profissão. Tal postura pressupõe que ele domine conceitos da educação básica, que o ajudarão na busca do conhecimento técnico a ser usado “na qualificação para o trabalho”, como bem observou o texto constitucional. Surgem as “crises existenciais” (algumas delas erroneamente classificadas de “depressão”) como desculpa para que o ambiente escolar dê os seus “jeitinhos”. O professor passa a ser, então, o culpado pelo fracasso do desempenho discente. O aluno é aprovado para o nível seguinte, mesmo com alguma deficiência no aprendizado, porque os pais e os governos entendem que a reprovação desmotiva e oprime. A consequência disso é que se acaba conscientizando o próprio alunado a pular etapas de aprendizagem, e as lacunas só serão sentidas mais tarde.

 

Pois é. O sistema educacional brasileiro, ao lado de uma total desestrutura familiar, tende a entrar em colapso em questão de anos. E não é exagero meu. Aos que optam por se iludir com uma metodologia de ensino moderna que fantasia a prática educativa, tudo o que argumentei anteriormente é insustentável e, com certeza, dirão que se trata de um educador que não deseja inovar. Ledo engano. Só os que deveras vão passar 30 anos numa sala de aula (e dela, em momento algum, se afastaram para exercerem outras funções burocráticas) é que a conhecem bem e são gabaritados para discorrerem melhor sobre esse conceito de inovação e sobre sua verdadeira funcionalidade. Podem, inclusive, atestar com suas múltiplas experiências em várias modalidades de ensino o quanto é penoso o fazer docente na atualidade. Estratégias de ensino-aprendizagem nem sempre podem ser vistas como um remédio para todos os casos. Temos tendência a generalizarmos a eficácia do método só porque logrou êxito em algumas situações, estabelecendo-se, desse jeito, uma grande farsa. Sejamos práticos: continuaremos a maquiar os efeitos negativos de uma educação “construtiva” ou assumiremos de vez esse câncer que só cresce a cada dia? A verdade é que nós, educadores e autoridades governamentais, estamos implodindo um sistema, sem sabermos exatamente o que estamos erguendo no lugar. Por ora, fixamo-nos na utopia.

 

 

Por Paulo Caldas Neto

 

O patrimônio não

O patrimônio não

De todos os pensadores que já se ocuparam da política, o melhor para analisar a atualidade ainda é Nicolau Maquiavel, autor a quem, suspeito, Jair Bolsonaro nunca recorreu. Creio até que sequer folheou as obras dele e se as leu, não entendeu muita coisa, pois anda na contramão do que preconizou o pensador florentino, ao pôr os filhos acima dos interesses do Estado, ao falar o que pensa sem medir as consequências e a fazer pouco caso do patrimônio do cidadão brasileiro (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/questionado-sobre-crise-hidrica-bolsonaro-diz-que-ligou-para-sao-pedro,e9ed21404524741e4d0f4ac14c2623a1baxv3j3d.html).

Para Nicolau Maquiavel, pai da moderna ciência política e autor d’O Príncipe, obra na qual aconselha os políticos a como governar e a como manter o poder, mesmo que para isso tenham que usar a força e a fazer muitos inimigos, a regra é clara e objetiva: um político no exercício do poder só deve falar com propósito objetivo, porquanto a atividade política ter como objetivo chegar a lugar específico e, assim, o que ele fala leva-o para perto ou deixa-o mais distante daquilo que pretende.

Por isso, ensinou Maquiavel, políticos não podem falar o que pensam; por isso, até mentem, se e quando necessário: “Nunca a um príncipe faltarão pretextos legítimos para mascarar a inobservância”, pois existe uma razão prática no poder, sendo necessário, às vezes, mentir para mantê-lo. Entretanto, não pode a mentira pela mentira. Ela é aceita, quando as circunstâncias exigirem, para salvaguardar os interesses do Estado; nunca deve ser dita apenas para dominar o poder.

O desgaste da imagem de Bolsonaro, tirando os erros de gestão, é fruto de suas próprias palavras. E o que ele diz contamina a agenda governista, mesmo que ela seja meritória.

Além desse problema, Bolsonaro enfrenta um outro, pior, que faz a sua reeleição subir no telhado. E não é Lula, como insistem em dizer os analistas políticos, mas a recessão (a economia tem mostrado sinais de recuperação mas bem abaixo das necessidades que garantam a queda brusca nas taxas de desemprego) (https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/tag/previsoes-macroeconomicas/), combinada com o aumento da inflação (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/10/aumento-da-vacinacao-ajudaria-a-reduzir-inflacao-pelo-mundo-aponta-fmi.shtml), fenômenos que ameaçam a renda do brasileiro. Outra vez, Maquiavel vem a calhar: “É muito mais fácil para um homem esquecer a morte do pai a esquecer a perda do patrimônio”.

Mesmo dirigindo um governo mambembe e capenga, o presidente Jair Bolsonaro ostenta, segundo os mais variados institutos de pesquisa, índices que variam de 20% a 30% de intenções de votos. Como ponto de partida para uma campanha presidencial como a que se avizinha não é pouca coisa, ainda mais para alguém que tem a caneta para nomear, garantir gastos, etc.

Porém, o atual presidente e candidato a renovar o mandato está enredado no mau desempenho da economia e se até o início do próximo ano não houver uma reviravolta nos rumos econômicos do país, o seu projeto eleitoral corre sérios riscos.

Em 1992, James Carville, marqueteiro da campanha Bill Clinton, candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, identificou o desempenho claudicante da economia norte-americana como calcanhar de Aquiles da gestão do então presidente e candidato à reeleição George Bush. Centrou fogo ali, forjando a frase: “É a economia, estúpido!”.

A vida econômica das pessoas falou mais alto e Clinton venceu.

As eleições presidenciais de 2022, no Brasil, parecem seguir caminho parecido. E a Bolsonaro tem faltado um Carville. Não é só isso, mas é principalmente isso.
 

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