Historiando

Neymar patrioteiro

Neymar patrioteiro

Futebol e pátria e futebol e nação não se misturam. Ou pelo menos não deviam se misturar. Quando se misturam o caldo entorna e ele, o futebol, é utilizado para fins outros que não os esportivos. A história é pródiga em exemplos, mas não vamos a eles. Por ora, fiquemos com o menino Ney, marmanjo de 30 anos que continua sendo tratado como garoto por imprensa caolha ou comprada.

A condescendência desmedida com Neymar, quando as orelhas dele deviam ter sido puxadas, cobram um preço a ele e ao futebol da seleção brasileira, posta à disposição dele, jogando para ele e secundarizando desmedidamente bons e excelentes jogadores.

O episódio do chilique neymariano, antes da decisão da Copa América com o selecionado argentino, dizendo-se “brasileiro com muito orgulho e muito amor” e expressando a dificuldade que tem de entender quem torce contra o Brasil, está no mesmo patamar (apud Bruno Henrique) das patriotadas de Zagallo gritando pela amarelinha, pelo verde e amarelo nos tempos de Brasil: ame-o ou deixe-o ou em tempos mais recentes. A diferença é que Zagallo, mesmo quando muito zangado, não mandava publicamente ninguém “para o caralho”, como fez o menino Ney com todos os brasileiros que disseram torcer pela vitória da seleção alviceleste contra a seleção canarinho.

Neymar tem a mesma dificuldade de Zagallo para entender que a seleção brasileira de futebol não é o Brasil. Não representa a pátria ou a nação. Nunca a representou, mesmo quando muito amada por jogar futebol de primeira qualidade.

Por vezes, mesmo jogando futebol de excelência, como o escrete que conquistou o tricampeonato, havia muita gente que rejeitava o selecionado brasileiro, porque temia, como de fato ocorreu, que o título ganho em gramados mexicanos pudesse ser utilizado como peça de propaganda pelo governo do general Garrastazu Médici.

A seleção de Tite e de Neymar não representa o Brasil. Representa o futebol brasileiro. Mal e porcamente, apenas a ele.

Neymar e sua patota trabalham contra o Brasil, no futebol e fora dele.

Fiquemos somente com o futebol.

Quem não fica no mínimo chateado com o futebol mequetrefe jogado pela seleção brasileira que tem em Neymar o seu maior expoente? Quem não ficou envergonhado com a participação mambembe de Neymar no última Copa do Mundo, quando rolou mais do que correu pelos gramados russos?

Neymar chegou com fama de estrela, com muitos apostando numa performance que o gabaritaria para assumir o posto de melhor do mundo e saiu do mundial com fama de picareta, transformado em símbolo de perfídia, de enganador, por rolar em campos fingindo faltas inexistentes. Ali, o futebol jogado por Pelé, Garrincha, Gérson, Romário e Ronaldo foi aviltado por um adulto tratado como adolescente e, por isso mesmo, visto como moleque.

Não sigamos por outros campos, a saber, a birra irresponsável para fazer festa para 500 convidados no auge da pandemia, etc.

Muitos torceram para a Argentina ontem justamente por causa de Neymar. E nem por isso são menos patriotas. Intuo até que são mais patriotas do que o craque que veste a sagrada camisa 10 da seleção brasileira de futebol.

***

Por falar em caldo, o caldo popular, pelo que tenho acompanhado, engrossou nas ruas, com Covid e tudo, e Bolsonaro vai ter de rebolar para se sustentar até o final do mandato.

O destino dele, se a coisa continuar como está, é ser dilmado ou, então, figurar como um morto-vivo até 2022. 

Só uma coisa pode virar o jogo: a melhoria nos índices econômicos. Desde que tal melhoria chegue à mesa dos brasileiros.

Rebanho político brasileiro

Rebanho político brasileiro

Não foi o impeachment de Dilma que jogou o Brasil nessa barafunda política. Aquilo foi apenas o sintoma de algo que corroía, por baixo, a ordem política urdida nos anos 1980, quando a oposição moderada uniu-se aos moderados que davam apoio ao regime para matar, sem sepultar, a ordem autoritária nascida em 1964.

Desde 2013, quando as ruas das principais cidades brasileiras foram tomadas por gente furibunda com as lideranças políticas, o Brasil não mais encontrou o rumo, porque abandonou a política para jogar o jogo dos salvadores messiânicos.  

A massa que tomou ruas e avenidas era formada por gente séria que sabia exatamente pelo que estava realmente protestando, por pessoas que foram festejar a simples ira dos descontentes, por uma multidão amorfa que não tinha a menor noção no que estava envolvida, pelos antissistema e por arruaceiros e baderneiros que simplesmente queriam depredar e destruir patrimônios público e privado.

Entre estes últimos estavam os que puseram a mão na massa e participaram ativamente das depredações e os intelectuais e pensadores (?!) que construíam formulações teóricas e acadêmicas sobre o que há de construtivo na destruição. Aquela turma de totalitários que, com vestes democráticas, trabalha para destruir o ambiente de liberdade de que se serve para propagar intolerância travestida de bem-querer.

O ambiente de intolerância no qual estamos imersos é construção coletiva, levada a extremos pela direita e esquerda adversárias da moderação.

Bolsonaro e Lula, abertamente adversários no pleito presidencial que se avizinha, são expressões personalistas do fenômeno.

O atual presidente, por razões para lá de claras, porque não consegue atuar sem criar conflitos, em sua maior parte desnecessários. Sem o conflito aberto, ele submerge na insignificância do que sempre foi.

Lula porque, a despeito de surgir aparentemente como homem de diálogo, exercita sua dupla personalidade, a de alguém moderado, quando a ele convém para atingir o fim a que se propõe, a saber, subir os degraus que lhe levam ao templo do poder, mas que, por baixo do pano, insufla a turma radical para romper os limites impostos pela ordem social e política. Os seus cães, como os de seu adversário, atuam maldizendo, difamando e injuriando qualquer um que se ponha à sua frente.

Cícero dizia que a política oferece dois caminhos para fazer o mal: a força ou a fraude. Ambas são indignas e bestiais, mas a fraude, disse o grande tribuno romano, é mais odiosa do que a violência porque quem a perpetra se faz passar por homem bom e justo.

Bolsonaro e Lula, em política, complementam-se. O primeiro quando exercita a sua boçalidade bélica; o segundo, a sua lábia demagógica. Às vezes, eles trocam os sinais, e o boçal torna-se demagogo e o demagogo, boçal, sem que os rebanhos que comandam permaneçam enormes e obedientes. E cegos aos defeitos de seus donos.

 

O rebanho deles, para citar Schopenhauer, odeia aqueles “que pensam diferente. Não tanto pela opinião em si, mas pela audácia de querer pensar por si mesmo. Algo que eles não sabem fazer”.

Enquanto estivermos na encruzilhada onde se encontram as duas avenidas, o Brasil não tira o pé do atoleiro.

A neolinguagem dos treinadores e dos comentaristas de futebol

A neolinguagem dos treinadores e dos comentaristas de futebol

Semana passada, no vácuo das discussões políticas sobre a ocorrência ou não da Copa América, vi uma declaração de Tite tão vazia de significado quanto o sonolento e amarelo hepático futebol da seleção brasileira. Disse o treinador do selecionado nacional que “Gabriel Barbosa me dá uma flutuação e infiltração de espaço para finalização. Jesus produziu muito pelo lado. Foi um destaque nosso na Copa América. Também ataca o espaço, muita força. Richarlison também dá isso. Firmino é um 9 que exerce o papel de 10. Esses jogadores vão te dando essas possibilidades de utilização dentro de uma determinada forma.”  

Tite é dado a essas manifestações vazias e a falas empoladas que nada dizem. Não é o primeiro que ocupou o cargo de treinador da seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) falando muito e confundindo mais ainda. Só para citar os que vi na linha titeana, Sebastião Lazaroni, treinador do Brasil entre 1989 e 1990, é um dos mais destacados. Criou uma linguagem que a imprensa esportiva chamava de lazaronês. Quando queria dizer que um jogador precisava evoluir, dizia Lazaroni que “Fulano tinha de galgar parâmetros.”

Ouso dizer que o lazaronês, a forma empolada de falar sobre futebol, foi um dos maiores legados de Sebastião Lazaroni. Sua oratória quase incompreensível é farta e largamente utilizada por treinadores como Vanderlei Luxemburgo, Emérson Leão, Renê Simões e o atual treinador da seleção brasileira, Tite.

O mal, ressalto, está para além dos treinadores, contaminando a crônica esportiva. Assistir a mesas-redondas nas televisões brasileiras é um exercício de paciência. Primeiro, porque a crônica esportiva veste-se cada vez mais com o figurino da crônica política. Segundo, os cronistas adotaram um vocabulário com palavras já existentes para dizer coisas que já existiam: atacante de beirada era aquele que chamávamos de ponta; transição era antes avançar ou até mesmo atacar; marcação alta seria a antiga marcação por pressão. Quando juntam tudo isso num comentário, entremeado por frases empoladamente elaboradas, a análise nada diz ou se diz alguma coisa quase ninguém entende.

João Saldanha, o homem que fez a semana de arte moderna na crônica esportiva, Sandro Moreyra, Nélson Rodrigues e outros que atuaram comentando sobre futebol no Brasil, bateriam com mão na mesa ou destilariam ironia sempre que ouvissem algumas das sumidades atuais da mídia esportiva brasileira deitando falação oca e incompreensível, por vezes para mascaram o desconhecimento do assunto sobre o qual discorrem.

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Semana passada, as bolhas ideológicas se manifestaram freneticamente. O assunto era o antigo ópio do povo brasileiro, futebol. Nem era futebol mesmo, mas a possibilidade de a Copa América ter, de última hora, o Brasil como sede.

Na torcida pelo boicote ou não dos jogadores da seleção brasileira à Copa América, o caminho das críticas seguiu o complexo caminho das vias binárias. Os jogadores seriam 1) comunistas, petistas, lulistas, recuperaram a camisa da seleção para o povo, etc, caso se recusassem a jogar o torneio continental ou 2) bolsonaristas, alienados, mercenários, etc, se aceitassem envergar o uniforme da seleção e participassem do convescote ludopédico.

Fui e sou contra a Copa América no Brasil, porque, primeiro, não concebo este torneio sendo disputado a cada dois anos e, segundo, porque não dá para rebolar no nosso colo um evento faltando dez dias para o início.

Mas eu sou um neutro, segundo os frequentadores e torcedores alojados na bolha.

Esse pessoal ainda me manda para o inferno. Com passagem só de ida. E eu vou, só para ficar longe deles.

Seguidismo à brasileira

Seguidismo à brasileira

Quando apresentei meu projeto de doutorado na Universidade do Minho, em Portugal, sobre o papel do rádio e da televisão em campanhas políticas aqui no Rio Grande do Norte e discuti o tema coronelismo midiático, caro às comunicações no Brasil, minha orientadora, professora Madalena Oliveira, ficou impressionada com dois assuntos que retomei ao longo do trabalho, traçando um paralelo entre eles: coronelismo e populismo.

Após ler o esboço dos dois primeiros capítulos, no segundo semestre de 2014, e trocar informações comigo sobre as eleições presidenciais que se avizinhavam no Brasil e insistir para que eu explicasse o vínculo que o eleitorado brasileiro tem com os seus líderes, ela me falou sobre um assunto, seguidismo, sobre o qual fui ler e que, de alguma forma, terminou sendo incorporado ao meu trabalho.

Em linhas gerais, seguidismo é neologismo para adesão, por mimetismo, a movimentos, organizações ou ideias.

Toda posição de alinhamento acrítico é seguidismo e todo seguidista segue (desculpem a redundância) ou defende incondicionalmente alguma ideia, teoria ou partido, sem questioná-lo e, pior, sem se questionar.

Ora, nós somos seres sociais e, por isso, desejamos um senso de pertencimento comunitário/societário. Pertencer a algo é natural e parece, à primeira vista, saudável. Entretanto, no limite, podemos nos anular como indivíduos, frente a grupos.

Autores como Solomon Asch chegam a sugerir a existência de uma variante do fenômeno seguidista, a saber, a de indivíduos que se anulam ou se calam para evitar conflitos entre as posições que defendem e a rejeição que podem enfrentar de outros indivíduos ou de grupos. É uma atitude conformista, pois o indivíduo conserva as ideias que defende e assume publicamente a opinião da maioria, evitando assim desgastes que considera prejudiciais e sanções que porventura possam vir a ser aplicadas aos que se desviam do pensamento majoritário. Quando isso ocorre, estamos passando por uma descompensação que pode nos levar à conformidade social, típico do comportamento de manada, que se caracteriza por elementos de hostilidade e medo e, portanto, nada tem a ver com o senso comunitário/societário. Ou seja, se o indivíduo está na manada, deve seguir as regras lá definidas, sob pena de, não o fazendo, ser de lá expulso e pagar, de variadas formas, pena pelo delito de discordar.

Pago a pena estipulada pela manada diária e cotidianamente, mas não abro mão de minhas ideias e da capacidade de pensar e criticar. Ainda que as manadas A e B se perpetuem pelo resto dos dias, nunca contarão com minha adesão. Como me disse certa vez um amigo querido e já falecido, “nasci só e só morrerei”.

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A propósito, as “milícias” esquerdistas e direitistas estão se estapeando, no Brasil, para mostrar à sociedade quem tem o monopólio da moral. Pois bem, as “milícias”:

1) Calam e acusam, respectivamente, nos últimos dias, sobre a postura de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que não se declarou suspeito por julgar caso no qual está diretamente envolvido; o ministro que seria considerado delinquente num país minimamente sério contou com o apoio da maioria dos integrantes da suprema corte vilipendiada.

2) Calam e acusam, respectivamente, um general do Exército que desrespeitou seu próprio Regulamento Disciplinar e o Estatuto das Forças Armadas, que proíbem a participação de militares da ativa em manifestações políticas; o general indisciplinado contou, posteriormente, com a anuência de seus superiores, abrindo provavelmente caminho para a indisciplina nos quartéis.

As instituições brasileiras são vis ou procedem de maneira vil porque a sociedade brasileira é vil ou tolera a vileza, seguindo acriticamente a excrescência que a diz representar.

Fernando Henrique Cardoso e o Instituto da Ex-Presidência

Fernando Henrique Cardoso e o Instituto da Ex-Presidência

Há coisas dignas de admiração e de opróbio nos Estados Unidos, como há em todos os países do mundo e, confesso, estou mais para admirador do que crítico da potência da América do Norte e do mundo. E coisa digna de admiração é a reverência e a compostura dos ex-Presidentes dos Estados Unidos, que, terminados os mandatos, recolhem-se à vida privada, sem intromissão alguma na vida pública do país. É assim desde George Washington e, ao que tudo indica, nada aponta para mudança de vulto neste quesito.

Aqui nos trópicos, ex-Presidentes da República saem candidatos a senador (Sarney e Dilma), governador (Itamar) e buscam novos mandatos presidenciais (Lula), aviltando o posto de primeiro magistrado da nação que um dia ocuparam. Mesmo figuras de proa de nossa história, como Vargas e JK, rebaixaram a Presidência, quando correram atrás de mandatos no Senado Federal – Vargas pelo Rio Grande do Sul e JK por Goiás.

Os generais-presidentes do ciclo de 1964, é verdade, recolheram-se à vida privada, mas os cinco (Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo) chegaram ao cargo na vigência de um regime autoritário (Costa e Silva nem chegou a se recolher à vida privada, fulminado por um derrame). Da redemocratização até hoje, somente um ex-Presidente ensaiou fortemente criar o Instituto da Ex-Presidência: Fernando Henrique Cardoso, que chegou ao Palácio do Planalto num lance que combinou um quase caos econômico e social, sorte e competência.

Suplente de Senador, em 1978, FHC assumiu o mandato em 1983, quando o titular, Franco Montoro, sentou na cadeira de govenador de São Paulo. Reeleito em 1986, na onda do Plano Cruzado, afastou-se do Senado em outubro 1992 para assumir o cargo de Ministro das Relações Exteriores, cargo a que sempre aspirou. Em maio de 1993, com o país sendo tragado pela inflação e sem que o Ministro da Fazenda Eliseu Resende tivesse condições políticas de permanecer no cargo, o presidente Itamar Franco convidou, num ato de quase súplica, o seu chanceler para comandar a economia do país. Naquele momento, FHC estava preocupado com as questões da política internacional e pensava como, no ano seguinte, iria organizar sua campanha visando ocupar uma cadeira na Câmara Federal, pois sabia que suas chances de renovar o mandato senatorial eram praticamente nulas, como ele mesmo registra nos Diários da Presidência e em O improvável Presidente do Brasil.

Alçado ao posto de Ministro da Fazenda, FHC montou a equipe responsável por construir plano econômico para resolver o problema inflacionário que tornava caótica a vida no país. À frente da equipe, Fernando Henrique emprestou seu nome e prestígio político às medidas indicadas por jovens economistas, quase todos egressos da PUC do Rio de Janeiro.

Entre 1993 e 1994, as bases do Plano Real foram montadas e implementadas levando o aspirante a deputado federal por São Paulo desincompatibilizar-se, em março, do cargo de Ministro para candidatar-se à Presidente da República.

A vitória, no primeiro turno, sobre Lula foi consagradora e o mandato do intelectual uspiano seguiu sem sobressaltos, tirando as caneladas do Partidos dos Trabalhadores, useiro e vezeiro na arte de fazer oposição sem trégua ao país, até que a aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição para cargos executivos foi aprovada, com denúncias de compra de votos, a crise de 1998 engolfasse a economia brasileira e FHC, que vencera por duas vezes, no primeiro turno, a Lula, caísse ladeira abaixo, sem conseguir fazer o sucessor, José Serra, na eleição presidencial de 2002.

Fiel a seu figurino educado, cordato e republicano, o Presidente fez uma transição digna de elogios, passando a faixa presidencial para o seu maior adversário e duas vezes contendor, Lula, que pouco tempo depois, junto com os seus áulicos, dizia ter recebido herança maldita.

Pois bem, foi esse mesmo Fernando Henrique que semana passada hipotecou previamente apoio a Lula num provável segundo turno contra Jair Bolsonaro.

Naturalmente, como cidadão livre que é, o ex-Presidente Fernando Henrique deve escolher em quem votar no peito eleitoral do próximo ano. Nada deve existir que o impeça de sufragar o nome Lula, provável adversário de Jair Bolsonaro, rejeitado por parcela cada vez maior de eleitores insatisfeitos com a forma como conduz o país. Penso, porém, que a manifestação precoce de FHC prejudica o partido ao qual é ligado desde o final da década de 1980 e macula a sua atuação como fomentador do Instituto da Ex-Presidência. Sem contar que deveria olhar com atenção um sem-número de argumentos e principalmente fatos que deveriam impedi-lo de votar em Lula e mesmo no PT que se apresenta como guardião do bem.

Só para refrescar a memória, durante os oito anos de mandato de Fernando Henrique, todos os projetos enviados ao Congresso Nacional foram rejeitados pela bancada do PT. Antes mesmo de FHC chegar à Presidência, o PT sabotou e/ou atrapalhou quase todas as tentativas de pôr o país nos trilhos, como descrevo abaixo:

1) O PT, que se apresenta como baluarte da luta pela redemocratização, absteve-se de votar, em 1985, no colégio eleitoral, em Tancredo Neves, adversário de Paulo Maluf, candidato do regime autoritário que dirigia o país há mais de duas décadas;

2) O PT não aprovou a promulgação, em outubro de 1988, da Constituição Federal, que ele ajudou, na Assembleia Constituinte, a elaborar (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/apos-25-anos-da-constituicao-lula-justifica-voto-contrario-do-pt,ded5e2e05b471410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html).

3) O PT (Jair Bolsonaro também) se pôs contrário ao Real, importante iniciativa do governo Itamar Franco, com Fernando Henrique à frente do Ministério da Fazenda, plano econômico que estabilizou nossa moeda e pôs fim à escalada inflacionária (https://veja.abril.com.br/economia/bolsonaro-e-pt-votaram-contra-o-plano-real-ouca-audios-da-epoca/).

4) O PT foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada no Congresso Nacional durante a gestão tucana e que pôs fim aos desmandos de muitos gestores públicos, trazendo transparência aos gastos do Executivo (https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u68770.shtml).

5) Já em janeiro de 1999, pouco mais de dois meses após a reeleição de FHC, o então deputado federal Tarso Genro lançou a campanha Fora FHC. E daí em diante e sempre por unanimidade, o PT abraçou a bandeira que exigia o impeachment do Presidente Fernando Henrique (https://oglobo.globo.com/brasil/ha-16-anos-setores-do-pt-pediam-impeachment-governo-acusava-golpe-15979631).

6) Foi Lula e o PT que chamaram o legado de FHC de herança maldita, como se Itamar e o sociólogo que virou Presidente não tivessem entregado ao petista um país infinitamente melhor (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3004200402.htm).

7) Foi a Presidente Dilma Rousseff, sucessora de Lula, quem deu azo e incentivo à elaboração do dossiê que acusava Fernando Henrique e Ruth Cardoso, sua esposa, de gastos sem freio com vinhos caros (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0404200802.htm).

Fernando Henrique poderia dizer que não votará, em hipótese alguma em Bolsonaro, por motivos sobejamente conhecidos (Bolsonaro é adversário histórico de pautas defendidas por FHC; chegou inclusive a defender o seu fuzilamento) (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3012199902.htm), sem hipotecar apoio antecipado a Lula num provável segundo turno, em 2022. Justificou sua manifestação dizendo que Lula tem postura republicana, esquecendo-se, porém, que a gestão de Lula foi responsável pelo Mensalão, compra de votos dos parlamentares no Congresso Nacional.

Estamos ao Deus dará

Estamos ao Deus dará

Muito se discute, há décadas, no Brasil (e em vários outros países), acerca da razoabilidade de conceder porte de armas para o cidadão.

Há bons argumentos pró e contra. Em síntese, quem é contrário à medida argumenta que a segurança do cidadão deve ficar a cargo do Estado; quem é a favor rebate que cada indivíduo deve também ser responsável por sua própria segurança.

Das muitas maneiras que conheço para iniciar uma reflexão sobre Hobbes, a mais fácil e óbvia é a que aborda o estado de natureza, o estado de guerra de todos contra todos, passando pelo contrato que institui concomitantemente a paz e um Estado forte.

O homem hobbesiano é movido por paixões e não aceita de forma alguma obstáculos. Qualquer um que obstrua a preservação do movimento das paixões será para aquele que é frustrado em suas pretensões um inimigo. Logo, a antecipação é a forma mais prática de garantir a segurança e a sobrevivência, pois ela não dá a supostos adversários nenhuma possibilidade de ataque. Maria Isabel Limongi, em sua obra O homem excêntrico: paixões e virtudes em Thomas Hobbes, diz que a “razoabilidade deste comportamento (que se segue da circunstância da nossa igualdade e que não pressupõe nenhuma tese acerca de uma inclinação irreparável para a disputa que estivesse desde sempre e para todo escrita nos nossos corações) é suficiente para tornar razoável que cada um se antecipe a ela, garantindo-se pela força ou pela astúcia”

A paz é o principal esteio do pensamento político de Hobbes A constituição de um Estado forte é o caminho para alcançá-la, e também à segurança.

Para Hobbes, os homens perseguem as mesmas coisas ao mesmo tempo, porém “a razão mais frequente por que os homens desejam ferir-se uns aos outros vem do fato de que muitos, ao mesmo tempo, têm apetite pela mesma coisa que, contudo, com muita frequência não podem nem desfrutar em comum, nem dividir; do que se segue que o mais forte há de tê-la, e necessariamente se decide pela espada quem é mais forte.” Ou seja, no estado de natureza os homens têm liberdade e igualdade totais, podendo desfrutar de tudo quanto lhes for desejável. Sendo assim, o conflito nasce exatamente do fato de que as paixões são ilimitadas e podem levar os homens a usar de todos os recursos para reterem aquilo a que aspiram. Por isso, o resultado é justamente a guerra de todos contra todos, porque quando todos têm direito a todas as coisas, ninguém tem direito a nada, motivo pelo qual não haverá segurança necessária para desfrutar de bem algum.

A desordem instalada no estado de natureza amplia a sensação de medo e insegurança entre os homens e nesta condição de guerra, desordem e impossibilidade de lucro e, talvez de conservação até mesmo da própria vida, qual seria o melhor caminho a ser tomado?

Segundo Hobbes, a condição para sair do estado de guerra de todos contra todos seria o acordo entre os homens, pois, como ele sugere, “o começo da sociedade civil provém do medo recíproco”, com a suspeita e a desconfiança gerando uma antecipação ao ataque que pode ou não acontecer.

O Estado hobbesiano nasce do medo que os homens têm da morte violenta e dos danos provenientes da guerra. Diz Hobbes: “o começo da sociedade civil provém do medo” que move para a guerra e para a vida, e, segundo um estudioso de Hobbes, a constituição da “sociedade civil é o meio mais eficaz que encontram os homens para se livrarem do medo generalizado que os acompanha no estado de natureza”; é uma construção artificial, conclui o filósofo, gera pactos e associações. Comparando os homens aos outros animais, o pensador britânico indica que “o consentimento de tais criaturas brutas é natural, o dos homens apenas por pacto, ou seja, artificial”, de maneira “que o consentimento ou contrato de associação, sem um poder comum pelo qual os particulares sejam governados por medo ao castigo, não basta para construir aquela segurança que é requisito para o exercício da justiça natural”.

No que concerne às condições para que o pacto social aconteça, o Estado dará aos homens as garantias necessárias para que o acordo se realize. O pacto deve ser firmado por muitos, para evitar que o Estado tenha fissuras que o enfraqueça, pois somente um acordo firmado por muitos homens (necessariamente pela maioria) pode garantir que ele seja forte e suficientemente capaz para garantir que todas as pessoas vivam conforme as leis da natureza, bem como a segurança necessária para uma vida longa.

A disputa entre os homens para impor aos outros a própria opinião é um dos maiores entraves para a construção da paz e, segundo Hobbes, mesmo que o número de homens envolvidos na construção do pacto seja muito grande, a coalizão não terá “a marca distintiva de uma sociedade, a menos que haja um poder comum, artificialmente estabelecido, que os obrigue a se manterem firmes na direção do fim que os reuniu”. Para ele, os conflitos travados por partidários de religiões, de seitas e de grupos políticos são os mais violentos.

Mesmo com a garantia da união mediante um acordo de muitos, isso ainda não será suficiente para garantir a paz, sem que haja um poder capaz de manter a todos, como afirma o filósofo: “por maior que seja o número dos que se reúnem para a autodefesa, se contudo eles não concordarem entre si sobre algum meio excelente para promovê-la, mas cada um ficar usando dos seus esforços a seu próprio modo, nada se terá conseguido; porque, divididos em suas opiniões, cada um deles constituirá um obstáculo para o outro”. Neste caso, é o Estado que terá o monopólio da força, da violência e também da opinião.

Mas, e se o Estado não fizer o necessário para garantir a segurança dos indivíduos, como hoje ocorre no Brasil?

A segurança é por definição mola-mestra da soberania, pois o poder só é efetivamente soberano se for “amplo o suficiente para garantir a segurança. Assim, se o Estado não garante a segurança, não é Estado”. Uma das possibilidades é a resistência civil, segundo a qual os súditos são livres para desobedecer a qualquer determinação do Estado que ameace a integridade física deles e quando não mais for capaz de garantir a segurança.

Ressalte-se que os súditos só se mantêm obrigados à obediência se a segurança for garantida, entretanto, o próprio Hobbes indica os motivos que levariam ao fim da soberania: invasão externa, guerra civil e renúncia do governante.

Estamos numa encruzilhada, pois há pelo menos três décadas o pacto que sustenta o Estado brasileiro está falido, porquanto o Estado não garantir o que lhe compete, segurança. Há dois caminhos para reformá-lo. Eles correm paralelos, mas o ponto de partida é diferente.

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