Historiando

A arte de empurrar com a barriga

A arte de empurrar com a barriga

Quando ingressei na universidade, em meados da década de 1980, a inflação anual brasileira era de três dígitos anuais e logo evoluiu para quatro dígitos, na segunda metade da mesma década. Planos econômicos eram tirados da cartola, um atrás do outro. Todos sem atacar a fonte do problema, a saber, o excesso de gastos públicos.

Existe forte correlação entre a oferta de moeda e o nível de atividade econômica.

De 1986, com José Sarney, a 1991, com Fernando Collor de Melo, o Brasil foi alvo das mais inusitadas experiências econômicas heterodoxas, todas atacando os efeitos da inflação, sem olhar para a causa. Congelamento de preços e salários eram o caminho mais fácil para causar ainda mais desarranjo a uma economia acostumada a lidar com o dragão inflacionário, até que veio, em 1994, o Plano Real e pôs o dedo na ferida, mostrando que o desastre econômico brasileiro era o excesso de gastos públicos.

A solução do governo para garantir a desordem de suas contas e assim bancar os seus excessos era o imposto inflacionário (https://epge.fgv.br/users/rubens/wp-content/uploads/2015/05/Imposto_Inflacionario_Cysne-Coimbra-Caetano1.pdf)

Controlar preços, mesmo de forma legal ou voluntária, provoca a destruição do sistema de economia livre e sua substituição por um sistema de controle central e não é efetivo na prevenção da inflação, pois o que é determinante no nível médio de preços e salários é o volume de moeda existente na economia, e não a forme de empresários por lucros e de trabalhadores por salários.

Soluções fáceis para problemas complexos não existem. Para superar definitivamente a inflação, é necessário que o governo brasileiro arrume a casa, pondo as suas contas em ordem. E para isso só existem dois caminhos para o governo: cortar forte e drasticamente os gastos ou aumentar forte e drasticamente a receita. Se houver outro caminho, que o mago da economia se apresenta e aponte-o.

Os governos brasileiros têm de dedicado a caminhos danosos: aumento da dívida e impressão de moeda. Os dois primeiros levam à inflação, respectivamente, a médio/longo e curto prazo.

Às vezes, o governo combina os dois com aumento da carga tributária. E aí temos o pior dos mundos possíveis: inflação e recessão ou crescimento econômico mirrado.

O fantasma da inflação ronda o Brasil porque o governo não faz o que deve fazer – diminuir os gastos públicos, cortando na carne. E como não toma o caminho da virtude e não tem mais crédito para tomar emprestado o necessário para cobrir o déficit, o déficit fiscal brasileiro é empurrado para a frente. Medidas paliativas como mexer no câmbio não resolvem o problema.

Nos anos 1980-90, a aceleração da inflação, que resultou na hiperinflação, gerava reforço de caixa para o governo, pois elevava a arrecadação de impostos antes de o governo cumprir com os seus compromissos financeiros.

Quando acabou o Plano Real drenou o pântano e a inflação caiu para índices civilizados, o governo federal percebeu que, sem o imposto inflacionário, não contava com caixa para fazer frente aos gastos. Apesar da adoção de medidas saneadoras na esteira do Plano Real, os governos (federal, estaduais e municipais) trataram de aumentar a carga tributária, que praticamente dobrou nas últimas duas décadas e meia e, ainda assim, não tem sido suficiente para cobrir os gastos públicos. E desta forma, os governos foram se endividando cada vez mais, a dívida pública crescendo exponencialmente e as contas se avolumando ano-a-ano.

Este(s) ou o(s) próximo(s) governo(s) terá(ão) um trabalho hercúleo pela frente: fazer o governo caber dentro do orçamento.

É isso ou os brasileiros continuarão sendo tungados pelo Estado

Lula ainda não é inocente – nem culpado

Lula ainda não é inocente – nem culpado

Dias atrás escrevi o texto Lá vem Lula neste mesmo espaço (https://grandeponto.com.br/blog/post/la-vem-lula). E desde ontem parece claro que ele pode vir mesmo.

O que ora ponho abaixo foi dito em linhas gerais, por mim, em redes sociais e em troca de mensagens com amigos, alguns lulistas/petistas abertos, outros apenas defensores dele contra presumidas injustiças cometidas e alguns opositores – leves e ferrenhos, entre os quais bolsonaristas.

Não sou da área jurídica, mas levanto, inicialmente, um questionamento de direito: Se Lula é inocente, porque a justiça federal sediada em Curitiba era incompetente para julgá-lo, então: 1) as gravações hackeadas como prova da atuação ilegal da força-tarefa da Lava Jato não podem ser usadas contra ela? 2) o dinheiro recuperado terá de ser devolvido aos "donos'?

O PT talvez deva festejar a decisão do ministro Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), cada vez menos supremo (e aqui não vai crítica, ainda, à decisão de Fachin). Eu, se petista fosse, vê-la-ia com reserva.

Minha visão é que a decisão de Fachin foi boa para Lula, muito boa para Bolsonaro e excelente para Sérgio Moro. Para o Brasil, um desastre.

Boa para Lula porque lhe permite livre trânsito, com possibilidade de se candidatar a presidente no próximo ano. Particularmente, acho difícil que o faça, pela idade avançada, pela dificuldade de uma eleição presidencial num país como o Brasil, de dimensões continentais, entre outras coisas. Além disso, não creio que Lula, pelo passado político e pelo ego que tem, embarque numa canoa furada. Ele certamente aguardará as pesquisas de opinião e, mais ainda, o humor dos prováveis aliados e a situação do país para definir o rumo a tomar.

Do ponto de vista político, a eleição presidencial de 2022 e por tabela todo o pleito serão palco para os extremos atuarem de novo, caso a disputa ponha em lados opostos as turmas de Lula e de Bolsonaro. Como em 2018. Ciro Gomes já se pronunciou contrário ao circo que o PT e satélites estão montando para alçar Lula à cabeça de chapa de uma frente de esquerda. Gostaria de ouvir Marina Silva e Guilherme Boulos sobre a possibilidade de embarcar na canoa petista, com ex-presidente conduzindo-a. Eu, se petista fosse, veria Lula-2022 com reservas.

Para Bolsonaro, um Lula ficha-limpa pode ser o caminho aberto para que ele, Bolsonaro, invista mais e mais na polarização, acusando o sistema de ser corrupto, imoral e por aí vai, apresentando-se, mesmo que as credenciais estejam bastante desbotadas, como o paladino da moralidade, figurino usado em 2018.

É um erro atribuir a polarização apenas a Bolsonaro, ainda que ele seja, nos dias que seguem, de 2018 para cá, um dos maiores beneficiários dela. Para sermos justos, a polarização começou com o PT apostando no discurso do “nós contra eles”, nas fakenews lançadas contra Marina Silva na campanha presidencial de 2014, etc. Quis ser esperto e malandro, e a esperteza e a malandragem lhe engoliu, porque Bolsonaro cresceu no vácuo e ali se instalou. A radicalização e a polarização não são boas para a democracia. Fragiliza-a, porque destrói a boa convivência entre os contrários. Isso era lição para estar aprendida, mas...

Sérgio Moro foi rifado por ele mesmo ao aceitar ser ministro do atual governo. Estava politicamente marginalizado, mas pode ganhar gás com a decisão do ministro do STF, pois ela vai pô-lo como vítima do sistema corrupto e, ao mesmo tempo e uma vez mais, como herói que luta praticamente sozinho contra esse sistema corrupto.

Continuo dizendo – e posso ser desmentido pelos fatos – que Lula é um cadáver insepulto. Faz tanto mal ao país quanto o atual presidente. Ambos envenenam e deixam o ambiente tóxico.

São especulações, até porque a decisão de Fachin é liminar e está escorada apenas em questão processual, sem vislumbrar o mérito. Nada diz sobre inocência ou culpa de Lula, apesar de quase todos os crimes praticados pelo ex-presidente estarem praticamente prescritos. E há um Gilmar Mendes no STF, adversário figadal da Lava Jato e, portanto, de Sérgio Moro.

As fichas estão na mesa.

A Constituinte e a corrupção brasileira

A Constituinte e a corrupção brasileira

Quando a Assembleia Constituinte preparava a Constituição que foi promulgada em 1988, veio à tona novamente o papel a ser desempenhado pelo Estado e pelo mercado na construção econômica de um Brasil recém-saído de um regime autoritário que durou pouco mais de duas décadas

Pesquisas apontam que a corrupção política não é coisa apenas de quem tem mandato ou dos que estejam nos cargos mais altos da administração pública. É comum que funcionários públicos que ocupam postos de mando, nos mais diversos escalões, na administração pública e que não estão sujeitos ao mandato democrático ou ao controle burocrático deitem e rolem na máquina estatal, traficando influência. Indivíduos que nem estão em cargos públicos ou alguns que lá estão por indicação partidária patinam na lama das negociatas encomendadas por mandões. Todos ou que se todos têm ligações muito próximas com políticos e administradores e são extremamente leais aos seus padrinhos. Os casos de corrupção nas últimos três décadas anos demonstram isso.            

Seria o caso de dizer que o problema está encastelado somente no Estado?

Não, não é o caso, pois a composição nefanda e nefasta com o Estado é da essência do capitalismo de laços deste gigante adormecido. Parcela grande e fundamental do empresariado nacional vive de mamar nas gordas e suculentas tetas do Estado. E isso não é de hoje. Vem de tempos imemoriais. Nos dias atuais tomamos conhecimento com mais detalhes do que ocorre.

Não são poucos os empresários brasileiros que interagem com políticos e cujo sucesso profissional é baseado menos na competência de suas empresas e mais no acesso que têm à máquina pública. Sucesso econômico oriundo não de sua competência e engenhosidade, mas dos contatos políticos que mantêm.

Há propostas pretensamente milagrosas para acabar com a praga da corrupção ou diminuí-la para níveis civilizados. Algumas construídas ou incentivadas por quem alimenta o monstro. Qualquer uma que se mostre efetiva é rechaçada pelo meio político e empresarial comprometido com a farra. Afinal, ninguém quer ser exposto ou preso, ainda que se apresente, para consumo externo, como diligente soldado da moralização da vida pública.

Lembro-me de um estudo que li há anos sobre o aumento dos casos de corrupção em vários países, entre eles o Brasil. O texto alertava para o fato de que a política piora de qualidade quando novas classes sociais entram no jogo político. Isso não quer dizer que houvesse menos corrupção quando havia poucos grupos sociais monopolizando ou se revezando nos postos de mando. Antes a corrupção se limitava a esses poucos grupos, entre “membros do mesmo grupo social e, portanto, ninguém promovia escândalos, preservando a face externa da classe”. Por isso são tão poucos os casos denunciados durante o período oligárquico da República Velha ou do Império

A partir de 1930, com o ingresso de novos grupos para disputar os recursos do Estado, as denúncias de corrupção dão o ar da graça. Aristocratas e oligarcas não estavam dispostos a repartir o sagrado butim do Estado com comerciantes e industriais. Quando estes já estão admitidos no campo que pode repartir o sagrado pão da corrupção, vem a turma do chão da fábrica. Aí, foi demais!

O discurso da ética ganhou as ruas e as redações, não necessariamente nessa ordem e não porque os conflitos fossem inteiramente novos. Tampouco porque os recursos estivessem sendo usados de forma escusa, mas porque interesses escondidos no seio da corrupção estão sendo contrariados. O bolo é pequeno, julgam, para ser dividido com tantos. Instaura-se conflito distributivo. E com ele nasce, entre muitos dos que assaltaram o dinheiro da viúva, o discurso da ética política.

O petismo e o bolsonarismo (antes deles a UDN e o MDB) beberam da água benta da ética na política, mas somente enquanto a eles interessavam. Quando o discurso idealista se chocou com o realismo político, era hora de despir as vistosas roupas da imaculada pureza e cair no lodaçal da vida real. E assim o fizeram, para gáudio de uns e festejos de outros.

Lá vem Lula

Lá vem Lula

De onde vem a força política de Lula?

São muitas as respostas possíveis.

Vem da própria história de superação do retirante que, chegado a Santos nos anos 1950, a bordo de um pau-de-arara, mudou-se com a família para São Paulo, fez curso no SENAI, trabalhou como operário, militou no movimento sindical, transformando-se no mais emblemático sindicalista do Brasil nos anos 1970-80, fundou um partido político (Partidos dos Trabalhadores – PT) que congregou sindicalistas, intelectuais e membros da igreja, tornou-se maior e mais representativo do que o partido, chegou a presidência da república, elegendo-se e reelegendo-se, fez o seu sucessor, no caso, sucessora e implodiu o partido e a si mesmo, abrindo espaço para a vitória, em 2018, de Jair Bolsonaro.

Vem da participação na luta pela redemocratização do Brasil, entre o final dos anos 1970 e toda a década de 1980, que encerrou-se na eleição direta para presidente da república, em 1989, quando ele perdeu, no segundo turno, para Fernando Collor de Mello.

Vem da atuação da atuação de professores e alunos nas universidades públicas (e mesmo privadas) Brasil afora, onde as esquerdas, de modo geral, e o PT, em particular, têm hegemonia.

E vem do governo por ele feito na primeira década deste século (2003-2010), quando penetrou nos redutos até então dominados pelas azeitadas máquinas do PMDB e PFL e aliados, praticando o fisiologismo e o clientelismo que denunciava nos anos em que esteve na oposição.

A força de Lula, como líder político de massas está atrelada à melhoria da renda das camadas populares. Os políticos ditos profissionais apostaram na derrocada de Lula, tragado pelos escândalos de corrupção de seu governo, e não atentaram para a melhoria de vida das camadas mais pobres da sociedade. E aí quebraram a cara.

Lula fortaleceu-se porque é nordestino, veio de baixo, conseguiu se fazer entender pelas massas e é bom palanqueiro, mas principalmente porque os mais pobres, que constituem a maioria da população, disseram, nele votando, que estavam melhor de vida. A melhoria, o tempo mostrou, não era sustentável, entretanto isso, por mais que seja apontado por vários estudiosos de economia, não entrou, ainda, no radar de quem sentiu, nos anos Lula, que vivia melhor. Afinal, é bom ressaltar, política é, também e principalmente, momento. E o momento dos pobres foi mais agradável com Lula do que com outros presidentes.              

A melhoria de vida dos mais pobres foi fruto de uma combinação de distribuição de renda com crescimento econômico, associada a medidas de cunho assistencialista como bolsa-família (pacote herdado de bolsas do período tucano), aumento do salário-mínimo, queda ou pequeno aumento do preço dos alimentos, entre outros.           

O PT errou no passado porque desprezou a força do Real – assim como o os partidos de oposição, durante os anos do PT, erraram ao apostar que, como o crescimento médio é ruim (e foi mesmo), os pobres iriam perder.

Sem dar bola para os casos de corrupção ocorridos no núcleo governamental, os mais pobres ainda embalam o sonho do retorno do líder petista. É como se a imagem de Lula estivesse desvinculada da do PT. Para se afastar do PT, o próprio PT se “remodelou”, excluindo a estrela vermelha.

Livre da cadeia e com a Lava Jato em xeque, muitos ainda embalam o sonho do retorno sebástico, em 2022.

Uma reflexão sobre o dever: professores e profissionais da saúde

Uma reflexão sobre o dever: professores e profissionais da saúde

Semana passada escrevi texto neste espaço e daria continuidade às ideias ali apresentadas, mas resolvi ceder a vez para o professor Luiz Roberto, colega de instituição e amigo, polemizar. E como Luiz gosta da polêmica muito mais do que eu, segue o texto dele.

 

 

Uma reflexão sobre o dever: professores e profissionais da saúde

 

Há dias o amigo do qual adoro discordar, Sérgio Trindade, publicou o texto É hora de merendar a hipocrisia. Diga-se de passagem, num escrito com fatos bem demonstrados e argumentos muito bem elaborados, ele tratou fundamentalmente da ausência das instituições de ensino públicas no retorno às aulas presenciais, aqui em Natal.

Praticamente em ato contínuo, todos tivemos notícia da desditosa professora, do Departamento de Ciências Humanas e Letras, da UESB, que defendeu nas redes socias, acredito eu, intempestivamente, ou sob o efeito de alguma substância que promove o ódio do bem, a morte para os supostos filhos dos ricos, com o objetivo expresso de nivelar a educação. Para ela os “pais ricos” enviam seus filhos para escola, durante a pandemia, com o único intuito de tirar um peso de seus ombros. O que a jovem esqueceu de mencionar, ou de pensar, é que os “pais pobres”, aqueles que têm filhos estudando em escolas públicas, não estão enviando seus filhos para a escola – provavelmente deixam de enviar não porque não o queiram, mas porque enviar os filhos para a escola está interditado para eles. Isso mesmo. Vez que a interdição se deve aos nobres professores, das escolas públicas, que não querem voltar às aulas presenciais. Vale dizer, ainda! Não querem nem mesmo discutir a possibilidade.

Pois é, juntando tudo isso, e mais a minha vivência na docência, posso testemunhar que os professores das escolas públicas, como eu, estão apavorados com a possibilidade do retorno às aulas presenciais. Alguns alegam que é uma loucura total voltar para a escola sem que todos estejam vacinados. No frigir dos ovos, são tantas narrativas que penso sempre estar pisando em  terreno minado quando falo sobre isso.

Umas das coisas que o amigo Sérgio apontou em seu texto, eu venho humildemente prevendo desde setembro ou outubro de 2020. Que muitos profissionais da educação pública, principalmente a federal, não iriam querer voltar ao trabalho presencial no início de 2021, mas, tranquilamente, enviariam seus filhos para as melhores escolas privadas de Natal... É, parece que a professora lá de cima esqueceu disso antes de tecer seus infelizes comentários. Porquanto, é certo que isso não ocorre apenas na terra dos comedores de camarão.

Pois é, dias atrás estava conversando com uma profissional da saúde que trabalha em um hospital privado de Natal, lidando diariamente com o Covid-19, e fiz a seguinte pergunta para ela: vocês todos já pegaram o Covid? Ela respondeu negativamente para o caso dela, bem como para diversos outros colegas que trabalham no mesmo hospital. Mas também disse que muitos outros foram contaminados, bem como que, infelizmente, perdeu alguns colegas. Na mesma hora pensei em nós professores.

Meu raciocínio é o seguinte. Pera aí, antes tenho que fazer uma admoestação: não me venham falar de vacina, pois ela só chegou agora. E os estudos provam que não é 100% efetiva.

Segue o raciocínio...

Os profissionais da saúde estão precisamente naquilo que chamamos de Linha de Frente do combate à maldita doença. Ora, isso ocorre há quase um ano. E eles estão recebendo diariamente pessoas e mais pessoas contaminadas com o vírus. E a despeito de qualquer medo, que no caso deles não causa paralisia mental e de discernimento, estão colocando a si mesmos em risco, bem como suas famílias e entes queridos. A menos que não tivessem filhos, pais, mães, irmãos, sobrinhos, tios, amigos, namorados e netos, e por aí afora. Em resumo, fossem viventes sem qualquer proximidade social com outros seres humanos fora da órbita da saúde.

Já nós, profissionais da educação, que não iremos lidar diretamente com as pessoas doentes, em porcentagem nem decimal daquela que o pessoal da saúde é obrigado a tratar em seu cotidiano, alegamos o medo estarrecedor, paralisante da doença, bem como de levá-la para casa, pois os protocolos de biossegurança, pelo que parece, não são tão seguros assim para nós, da educação pública, quando do exercício de nossa atividade in loco.

A questão que me incomoda é porque nos apegamos tanto assim ao medo, enquanto uma boa parcela da sociedade não tem esse direito. Não, melhor, mesmo que o tenha, sabe que existe um dever a ser cumprido. Principalmente os heróis da saúde. Heróis, sim, pois decidiram enfrentar o medo e sair do conforto por conta do dever de suas profissões. E são centenas e mesmo milhares de pessoas nesta mesma situação. Trabalhando, sabendo daquilo que estão vocacionados a cumprir. Minha angústia provavelmente se deva a nós estarmos equivocados em relação à nossa vocação. E, sobretudo, junto a isso, do que deva refletir o exercício da docência.

São tantas incoerência e contradições presentes em nossas ações que nem é preciso enumerá-las aqui.

O que nutre nosso pavor? É a certeza do salário garantido? Um professor de escola ou universidade privada talvez não se dê a esse luxo. Nós acreditamos verdadeiramente que lidar com a docência é não enfrentar o desconforto? Mesmo que seja o desconforto de ir ali encarar nossos alunos na sala de aula.

Já nem sei ao certo se profissionais como nós farão alguma diferença positiva na vida dos milhares de alunos que estão fora das salas de aula, em ensino presencial. Conseguimos pensar na cova que estamos cavando para nós mesmo? Somos assassinos de nossas próprias reputações. E o pior, coveiros também.

Não sei para onde estamos indo, mas olho para o futuro assustado, sem saber quando e se chegaremos ao fundo do poço, ou da cova.

 

É hora de merendar a hipocrisia

É hora de merendar a hipocrisia

Sou professor há uns bons anos e sinto-me verdadeiramente incomodado com a situação da escola pública durante este período da pandemia.

A escola pública é causa de preocupação diária e constante, mas a pandemia escancarou uma postura no mínimo omissa.

Ontem vi um post (está na chamada da matéria), e nem conferi para saber se é verdadeiro ou não, que me chamou a atenção e, de certa forma, fez-me sair da zona de silêncio na qual eu estava até então.

Na semana que passou vi ou soube de alguns (muitos até; de trinta a quarenta)) professores de instituições públicas de ensino, a esmagadora maioria militante da causa do Fique em casa e do Retorno às aulas apenas com vacina, deixando alegre e displicentemente os seus filhos e netos para assistirem aulas presenciais n’algumas das mais prestigiosas e caras escolas da rede privada de Natal. 

Também vi ou soube de alguns (muitos até; não saberia dizer aproximadamente quantos) professores de instituições públicas de ensino, a maioria militante da causa do Fique em casa e do Retorno às aulas apenas com vacina em reuniões presenciais n’algumas das mais prestigiosas e caras escolas da rede privada optando pelo ensino presencial para seus filhos e netos.

Parece-me estranha, para dizer o mínimo, a postura dos valorosos docentes inviabilizarem que filhos e netos dos outros possam acompanhar as aulas presencialmente enquanto mantêm os seus filhos e netos em aulas presenciais em escolas privadas. Como parece-me estranho muitos colegas docentes estarem por semanas em manifestações políticas e recusarem-se melíflua e cinicamente a estar em sala de aula lecionando – tarefa para qual são pagos, pois a função do docente é lecionar e não exatamente estar em manifestações políticas. Nada impede que lá estejam, acompanhados por amigos e colegas, defendendo as pautas que quiserem, depois de cumprirem com os seus afazeres profissionais.

É hora de essa turma discutir o assunto volta às aulas presenciais seriamente, com base em dados científicos e técnicos – afinal, como dizem os diligentes defensores da ciência, devemos dar voz aos cientistas. Que dispa as vestes da hipocrisia e adeque o discurso à prática. Ou, então, assuma explicitamente a hipocrisia.

Talvez, quem sabe, já seja possível deixar a meninada merendar. As duas merendas, a que sacia a fome digestiva e a que sacia a fome intelectual.

É hora de sindicalistas sedentos (e as mariposas por eles atraídos) por espaço político deixarem o palco ser ocupado por especialistas que entendem do assunto. Ou assumam que o discurso da defesa da ciência é apenas jogo de cena.

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