Historiando

Libertadora pelada

Libertadora pelada

Antes de qualquer coisa afirmo que uma pelada de futebol é sempre libertadora, por um sem número de motivos.

Assisto finais da Libertadores da América desde 1976, quando o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Jairzinho e Joãozinho, que fez o gol do título, antecipando-se à cobrança de falta de Nelinho, venceu o River Plate, por 3 a 2, (https://www.youtube.com/watch?v=-TUNndiobJo).

Vi jogos tecnicamente excelentes (https://www.youtube.com/watch?v=jjVR3x721MA)  e batalhas campais (https://www.youtube.com/watch?v=PeJwKbkB8eY).

A emoção e a garra quase sempre deram o tom.

As cinco mil testemunhas aglomeradas no Maracanã, ontem, assistiram à pior final da Libertadores de 1976 para cá.

A emoção e a garra, que poderiam contrabalançar a ausência de técnica e tática, também estiveram ausentes do campo de jogo.

Palmeiras e Santos entraram para não sofrer gols. Se fosse possível, fariam um e cozinhariam o jogo até o fim, o que explica as poucas finalizações.

Os goleiros praticamente assistiram a partida.

O arqueiro do Palmeiras fez uma defesa bisonha, mancheteando, no segundo tempo, uma bola que veio fácil. No rebote, o Santos quase marca. Depois pegou um chute, numa tentativa de bicicleta do centroavante santista. Na maior parte do tempo, limitou-se a bater tiros-de-meta e a receber bolas recuadas para despachá-las, com chutões, para o meio-campo.

O do Santos limitou-se a bater tiros-de-meta e a receber bolas recuadas, às quais rebatia em direção ao meio-campo.

Durante certo tempo, os grandes armadores eram os goleiros, com chutões.

As meias-canchas das duas equipes inexistiram, inviabilizando o jogo dos atacantes, que recebiam balões dos goleiros, com zagueiros às costas e médios-volantes à sua frente. Espremidos entre duas linhas, limitaram-se a lutar e a trombar.

Vi e ouvi a imprensa tupiniquim responsabilizar o técnico Cuca, expulso pouco antes do gol palmeirense, pela derrota.

Segundo analistas, a confusão na qual o técnico do Santos se meteu desestabilizou a sua equipe.

Desconcentrados, os jogadores do time do litoral paulista permitiram o cruzamento e a finalização que decidiram, no apagar das luzes, a peleja.

Se a versão da imprensa preponderar, o que não é difícil, porque é cada vez mais raro ouvir e ler alguém que se ponha contrário aos consensos midiáticos, o vitorioso Cuca – sim, vitorioso, afinal exerceu múltiplos papéis num Santos em constante crise, em 2020, levando o clube à improvável final da Libertadores e a uma campanha sem sustos na série A – será alçado ao papel de vilão.

Ora, a fastiosa partida seria decidida com gol único ou na prorrogação ou se arrastaria, tormentosa e atormentadora, até as disputas por tiro livre direto da marca dos pênaltis.

O tento único libertou a todos nós da tortura de mais 30 minutos de pelada.

A humanidade é um projeto(?!) fracassado

A humanidade é um projeto(?!) fracassado

Há coisa de dois meses perdi um bom colega de profissão, a quem conhecia há pouco mais de duas décadas e com quem, há certo tempo e mais ainda após a pandemia, trocava impressões sobre questões acadêmicas, leituras, etc.

Por sugestão dele comecei a ler Artur Schopenhauer, filósofo alemão que viveu entre 1788 e 1860 e influenciou gênios como Nietzsche, Wagner e Tolstoi e mesmo Goethe, primoroso poeta e seu contemporâneo, que, apesar de quase silente sobre o filósofo, chegou a fazer referências a ele, notadamente sobre a importância dada à intuição como forma de conhecimento.

Schopenhauer foi um misantropo em essência e sua misantropia teve provavelmente origens familiares, pois era filho indesejado de um bom mas ausente pai e de uma mãe que, embora escritora de sucesso, era superficial e mesmo frívola e tinha ciúmes do talento do filho. Solitário por toda a vida, afastou-se dos filósofos que foram incensados em seu tempo, entre eles o imenso Hegel, voltando-se para os antigos, Platão e Aristóteles à frente, e os modernos como Locke, Espinosa e Hume.  A solidão e a misantropia também o afastaram do patriotismo e do nacionalismo marcial alemão de sua época. ( https://sites.google.com/site/incensuraveis/a-obsessao-de-schopenhauer).

Em O mundo como vontade e representação, publicado em 1818, dois pontos estão bem nítidos na filosofia de Schopenhauer: sua aversão a uma ética do dever incondicionado e de uma lei da liberdade. Segundo suas palavras são “de fato uma contradição flagrante denominar a vontade livre e, no entanto, prescrever-lhe leis segundo as quais deve querer: ‘dever querer!’, ferro-madeira!”.

Na epistemologia de Schopenhauer, há diferença entre vontade e representação, pois o mundo possui duas naturezas que se complementam a si mesmas e mutuamente, que são a vontade como instância-em-si do mundo e a representação, que é apenas seu fenômeno. A vontade é livre, mas apenas no âmbito do fenômeno se estabelece a determinação necessária sem possibilidade para a liberdade individual, pois o sujeito é também fenômeno e, desta forma, determinado. Logo, livre apenas em seu caráter inato, que faz parte da vontade como coisa-em-si. Porém, a vontade é una e para ela não há diferenças individuais e, assim, só há individuação no fenômeno e o indivíduo não pode inverter a ordem de importância e determiná-la.(https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/searafilosofica/article/download/6870/5968)

Há pelo menos duas décadas eu não confio muito na humanidade. Nos últimos cinco ou seis anos as minhas desconfianças aumentaram a grande velocidade. A pandemia e a leitura de Schopenhauer potencializaram o processo. Estou quase um misantropo, com vontade de me manter afastado de quantidade cada vez maior de pessoas (de alguns "amigos", então, prefiro nem ouvir falar), mas preso a fenômenos que a cerceiam. Por isso, estar a léguas de gente por quem tenho pouco ou nenhum respeito e/ou consideração é apenas uma vã e distante possibilidade.

Estamos todos falando e escrevendo sobre Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e cia, e esquecemos de olhar nosso quintal particular. O particular, para que não comecemos a falar de Álvaro Dias e Fátima Bezerra, é menor do que a tribo e a aldeia. É só mesmo a cabana ou choupana na qual passamos a maior parte do tempo. É ali, também, onde se praticam e se consolidam, individual e coletivamente, os erros que hão de moldar a unidade na qual todos estamos. O respeito a regras básicas de convivência é aprendizado da cabana e da choupana.

Gasta-se mal o nosso rico dinheirinho nos palácios de governos municipais, estaduais e federal, nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas, na câmara de deputados e no senado federal, todos sabemos. Mas se metade de nós soubesse como é mal gasta a verba pública que chega ao andar de cima de nossas cabanas e choupanas, como é mal gerida e, em casos específicos, como é devorada por espertalhões que se apresentam como bons colegas e/ou diligentes gestores do dinheiro público, ficaríamos abismados. Não é muito difícil reparar os danos, basta um olhar diligente para as coisas que nos cercam e estão próximas de nós.

O azinhavre do dinheiro público está nas mãos de muitas vestais do andar de baixo, inclusive e principalmente dos fiscais do comportamento alheio.

Parafraseando Tolstoi, o fenomenal escritor russo e discípulo de Schopenhauer: se quer conhecer bem o mundo, comece por sua aldeia.

O que é ser conservador?

O que é ser conservador?

Certo dia um colega trabalho me perguntou como eu me situava politicamente. Eu, sem titubear, disse-lhe que me considerava um liberal com alguma tintura conservadora.

Rindo, o fulano – filho de professor universitário com certo mérito – que quase nada fala, de aproveitável, sem citar o papai, insistiu: “Você é de direita?”.

Quem conhece a realidade de instituições federais de ensino ou mesmo da docência em qualquer nível e em qualquer escola, ser visto como de direita é quase uma condenação à morte. Como não sou de fugir de briga, disse-lhe: “Não me considero de direita e, como você sabe, fujo como o diabo da cruz, do esquerdismo juvenil. Ando pelo centro, mas se você e qualquer outro dos que pensam como igual quiserem me colar o rótulo de direita, aceito sem reclamar, afinal o que você e eles pensam não me incomoda em nada, por um motivo simples: há o que não leem; há os que leem e não entendem o que leram; e há o que entendem e são intelectualmente desonestos. Você faz parte do primeiro grupo”.

Esse mesmo fulano foi um dos primeiros a andar em grupos de aplicativo me difamando e me injuriando em entre o final de abril e o início de maio.

Outro, atualmente à frente de uma unidade de ensino no interior do estado, não podia ouvir meu nome, que, espumando baba bovina sacava o argumento sofisticado: “É um fascista, um reacionário”, sem saber exatamente o que são um e outro.

Os doutos doutores não sabem o que falam e confirmam a regra que um dos meus orientadores acadêmicos repetia à exaustão: “Idiotas defendem tese”.

Há imensa confusão entre o que é ser conservador e o que é ser reacionário e infelizmente a ignorância e grosseria pautam insultadores, insultados, corre em meio aos pretensos estudiosos e difunde-se por grande parte da sociedade que se lhes apresenta como público.

O reacionário aposta na retomada de uma felicidade, real ou presumida, que passou e que ele teima em ver voltar. É um utopista que dirige o carro olhando o mundo pelo retrovisor. Nostálgico, luta para que o mundo volta a experimentar o que já foi.

As viúvas de Vargas e do regime de 1964 são exemplos vivos do nosso reacionarismo político, como existem os saudosos das utopias revolucionárias regressistas. É gente que, a despeito de defender a liberdade, atacam-na e querem vê-la destruída ou viva apenas naqueles aspectos que lhe pareçam interessantes.

Dizer que o conservador é alguém que pretende conservar uma situação existente ou que manifesta aversão em mudar determinado estado de coisas é uma simplificação grosseira.

É preciso muito mais para discutir o assunto a sério.

O termo conservador é usado como ofensa no Brasil ou ousado como um coringa para designar qualquer coisa que fuja ao esquerdismo juvenilizado e/ou teoricamente grosseiro, em parte porque o conservadorismo é uma concepção política negligenciada nas universidades e no meio cultural brasileiro.

Ser conservador na China não é a mesma coisa de ser conservador nos Estados Unidos ou na Arábia Saudita ou na França e por aí vai. Logo, para reduzir tudo a um único denominador, adianto que, no geral, o conservador, em qualquer parte do mundo e em qualquer época, prefere o conhecido ao desconhecido. Saltar no escuro não é, em hipótese alguma, tarefa assumida por um conservador.

A ciência moderna, hoje assunto da moda, só se faz, por exemplo, à base de testes e retestes, seguindo método. Por mais que promova mudanças e sirva de combustível para as transformações, ela está assentada em bases firmes, convenientes, limitadas, prováveis. Então, a ciência moderna, criação da civilização ocidental, traz consigo as sementes da conservação e da mudança.

No texto As tolices dos nossos partidos, o inglês Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) diz que “o mundo moderno está dividido entre conservadores e progressistas. O papel dos progressistas é continuar cometendo erros. O papel dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o revolucionário se arrependesse da revolução, o tradicionalista já a estaria defendendo como parte de sua tradição. Portanto, temos dois grandes tipos de pessoas: a avançada que se precipita para a ruína, e a retrospectiva que aprecia as ruínas” (https://www.sociedadechestertonbrasil.org/as-tolices-dos-nossos-partidos/).

Samuel Huntington (1927-2008) aponta o conservadorismo como uma ideologia situacional e reativa, diferente da maioria das outras, ideacionais e ativas. E assim é porque ele só se manifesta quando identifica a ação de ideologias que propõem mudanças abruptas, radicais e destrutivas. Para o cientista político norte-americano, o conservadorismo é ideologia que brota de “um tipo de situação histórica em que um desafio importante é direcionado às instituições estabelecidas e em que os apoiantes dessas mesmas instituições empregam a ideologia conservadora em sua defesa” (https://www.gov.br/defesa/pt-br/arquivos/ensino_e_pesquisa/defesa_academia/dissertacoes_e_teses/viii_cdtdn_2018/percursosa_doa_conservadorismoa_contemporaneo.pdf).

Três importantes pilares nos quais se sustenta o conservadorismo são a vida, a liberdade e a propriedade, como o exercício da liberdade não condicionado a qualquer tipo de opressão efetivada pelo Estado. Mais, ao Estado cabe garanti-la e evitar qualquer tipo de opressão. O fundamento-mor é a manutenção da ordem por meio da defesa do Estado de Direito, que evitaria a desagregação da sociedade.

Choremos pitangas

Choremos pitangas

A Ford praticamente fechou as portas no Brasil, caminho provavelmente a ser percorrido por outras montadoras, e nós ficamos nos maldizendo pelo agora sem olharmos para o passado distante e mesmo próximo.

A Gurgel, marca genuinamente nacional, foi pouco valorizada pelos governos brasileiros, como escancara Fernando do Amaral Gurgel, filho do empresário João Augusto Conrado do Amaral Gurgel. (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/campinas/cm2801200103.htm).

Outras tentativas de erguer montadoras nacionais foram feitas. Algumas aconteceram desde o fim da Gurgel, sendo a mais bem sucedida a Troller, fabricante de jipes.

A Troller nasceu como uma marca cearense e, comprada pela Ford em 2007, acabar-se-á.

Enquanto Troller e Gurgel (não sei se outras) foram deixadas ao relento, multinacionais eram tratadas a pão-de-ló, com generosos subsídios governamentais de municípios, estados e união, além de isenções fiscais (https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16139/tde-21012010-145148/publico/tese.pdf).

Na última década e meia, só a união concedeu subsídios de quase 54 bilhões de reais para as montadoras (https://g1.globo.com/economia/blog/joao-borges/post/2019/04/24/beneficios-fiscais-da-uniao-a-fabricas-de-automoveis-somaram-r-538-bi-nos-ultimos-16-anos.ghtml).

Entre os anos de 2003 e 2018, a renúncia fiscal mais que triplicou, passando de R$ 1,7 bilhão em 2003 para R$ 5,4 bilhões em 2018. Dados do Ministério da Economia apontam que 97% dos subsídios ao setor correram, em 2018, para a região Nordeste, enquanto o Centro-Oeste ficou com o restante.

Não existe almoço grátis, como ensinam os manuais de economia. A fatura chegou e será paga com desemprego, choro e busca por culpados.

Liberdade e cidadania ativa: pressupostos da democracia

Liberdade e cidadania ativa: pressupostos da democracia

Parece estar no nosso DNA cultural: para a sociedade brasileira o sentido da política está na coerção e na violência, quase nunca no diálogo e na liberdade.

Quanto ao poder político, seja no âmbito do Estado ou de qualquer outra instituição (escola, empresas, etc), o que vem à mente são os aparatos do poder. É a coisificação do poder. E a origem deste fenômeno está no discurso dos setores dirigentes, discurso quase sempre pontuado com alusões aos poderes constituídos, à necessidade de respeitá-los e obedecê-los.

O exercício do poder está associado à força. Força não é, porém, apenas o uso da coerção e da violência. Em O que é poder, Gérard Lebrun sustenta que “força não significa necessariamente a posse de meios violentos de coerção, mas de meios que me permitam influir no comportamento de outra pessoa.”

A tradição política brasileira é sabidamente conservadora e autoritária e os nossos grupos dirigentes, beneficiados com a manutenção do status quo. É mais fácil e mais cômodo para eles perceber e propagar o poder de um burocrata ou de um técnico que apenas implementa medidas que não foram decididas por eles, sem indicar que a decisão ou o encaminhamento de uma proposta por uma liderança política mobiliza uma quantidade significativa de pessoas.

No Segundo tratado sobre o governo, John Locke afirma que sendo “os homens, (...) por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser (...) submetido ao poder político de outrem sem dar o consentimento”. 

Para as nossas autoridades, o poder político de que dispõem vem do fato de estarem montados na máquina do Estado. Não conseguem ou não querem vislumbrar que o seu poder é transitório, fruto de um momento, pois o poder de fato está assentado na condição transformadora das relações políticas reais. Claude Lefort sustenta que o lugar do poder na democracia é o lugar do vazio, visto que é o poder com o qual ninguém pode se identificar e que será exercido transitoriamente por quem for escolhido para tal.

Os grupos dirigentes brasileiros, em sentido micro e macro, fazem o que for possível para mascarar a origem dos poderes constituídos. Obscurecem como podem a dimensão essencialmente constituinte da noção de poder, isto é, como um fenômeno criado pela sociedade, como associação livre de vontades, como manifestação da soberania do povo.

O abade de Sieyès já o dissera no final do século XVIII: “A nação tem o direito de organizar-se politicamente, como fonte do poder público”.

O poder exercido pelo povo, em determinados momentos, é denominado de poder constituinte. O poder constituinte é uma função da soberania popular, que pode constituir, reconstituir ou reformular a ordem jurídica. Geralmente, surge em função de invalidação da lei fundamental por uma revolução ou algum outro evento de grande envergadura. Se tal ocorre, impõe-se a tarefa de constituir em novas bases o ordenamento jurídico. Neste momento, o poder constituinte é, em tese, um poder ilimitado.

Elaborado o novo ordenamento jurídico, cessa o poder constituinte, que sobrevive parcialmente nos poderes constituídos, responsáveis por emendar a Constituição, como [deve estar] previsto no texto constitucional.

Do contrato social (J. J. Rousseau), uma das obras seminais da literatura política ocidental, ensina que sendo a soberania o exercício da vontade geral, “jamais pode alienar-se, e que o soberano, que nada é senão um ser coletivo, só poder ser representado por si mesmo. O poder pode transmitir-se; não, porém, a vontade”. E continua: distinguem-se no corpo político “a força e a vontade, esta sob o nome de poder legislativo e aquela, de poder executivo”. A força pública necessita “de um agente próprio que a reúna e ponha em ação, segundo as diretrizes da vontade geral” [ e ] “que sirva à comunicação entre o Estado e o soberano, que de qualquer modo determine na pessoa pública o que no homem faz a união entre a alma e o corpo. Eis qual é, no Estado, a razão do governo, confundido erroneamente com o soberano, do qual não é senão ministro.”  

Mas as nossas autoridades não podem ser responsabilizadas sozinhas pelo estabelecimento de uma visão equivocada da origem do poder político. Elas, com suas ações anti-republicanas e anti-democráticas, apenas potencializam o fenômeno. Têm sócios, porém, na insana marcha.

Desde a Revolução Francesa, os pensadores que defendem a democracia como o regime político ideal argumentam que só existe uma forma de fazê-la deitar raízes: praticá-la. É assim que se transforma público em cidadão, é assim que se constitui o que os cientistas políticos e os mestres do direito público chamam de cidadania ativa, pois a democracia institui o espaço da virtude, o amor pela coisa pública (res publica).

O mundo ocidental procura separar, desde a idade moderna (os gregos e romanos antigos chegaram a ensaiar), a esfera pública da esfera privada. O poder político não é herdado. É conquistado pelo voto. Quem está no exercício do poder político é apenas o depositário da soberania popular. O poder se constitui como poder de direito, e sua legitimidade repousa não somente na força repressiva, mas no mandato popular. O súdito deixa de sê-lo e se transforma em cidadão, visto que participa (ou deveria participar) da comunidade cívica.

Escrevendo em meados do século XIX, John Stuart Mill, em Considerações sobre o governo representativo, destaca a existência de cidadãos ativos e cidadãos passivos. De modo geral, diz o pensador britânico, os governantes preferem os cidadãos passivos, visto que é mais fácil manipulá-los e dominá-los. Mas a democracia, que não se constitui por obra e graça dos governantes, necessita mesmo é dos cidadãos ativos. Se prevalecerem os cidadãos passivos, conclui, “os governantes transformariam seus súditos num bando de ovelhas dedicadas tão-somente a pastar capim uma ao lado da outra”. Para Mill, o remédio para esse mal era a extensão do sufrágio às classes populares, porquanto a participação eleitoral ter grande valor educativo. É por meio da discussão política que os indivíduos conseguem compreender a conexão existente entre eventos distantes e os seus interesses pessoais e estabelecem relações com cidadãos diversos daqueles com os quais mantém relações cotidianas, tornando-se membros conscientes da sociedade.

Nada disso existirá, entretanto, sem que os indivíduos sejam livres e esta liberdade depende, em grande medida, das condições materiais para que o maior número possível possa atuar livremente no espaço público.

O eterno “menino” Ney quer brincar de homicida

O eterno “menino” Ney quer brincar de homicida

Parte da imprensa boboca brasileira não cansa de noticiar, sossegadamente (!), que o jogador Neymar está promovendo festa em Mangaratiba, Rio de Janeiro (https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/2020/12/27/neymar-faz-festanca-de-5-dias-e-gera-insatisfacao-de-moradores-de-mangaratiba).

O rega-bofe neymariano terá duração de cinco dias.

Começou não sei quando e irá até réveillon.

Serão quinhentos convidados que terão de cumprir algumas regras: não poderão estar com os celulares, nada de gravar stories ou vídeos.

Nada poderá ser publicado nas redes sociais.

Todos aglomerados e sem transmitir nenhuma imagem.

Só o corona estará livre da Neymasi, a polícia política e de costumes do jogador do Paris Saint Germain.

Todos (ou quase todos) sabemos que Neymar vive num mundo à parte.

Um mundo criado por puxa-sacos, por dirigentes omissos, por torcedores deslumbrados e por uma imprensa conivente.

Unidos, transformaram uma criança num menino mimado, num rapaz insuportável e num adulto de comportamento deprimente,

As desculpas utilizadas para justificar birras, molecagens e impertinências deverão ir a campo para também justificar, agora, o injustificável.

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