Historiando

O eterno “menino” Ney quer brincar de homicida

O eterno “menino” Ney quer brincar de homicida

Parte da imprensa boboca brasileira não cansa de noticiar, sossegadamente (!), que o jogador Neymar está promovendo festa em Mangaratiba, Rio de Janeiro (https://www.cnnbrasil.com.br/esporte/2020/12/27/neymar-faz-festanca-de-5-dias-e-gera-insatisfacao-de-moradores-de-mangaratiba).

O rega-bofe neymariano terá duração de cinco dias.

Começou não sei quando e irá até réveillon.

Serão quinhentos convidados que terão de cumprir algumas regras: não poderão estar com os celulares, nada de gravar stories ou vídeos.

Nada poderá ser publicado nas redes sociais.

Todos aglomerados e sem transmitir nenhuma imagem.

Só o corona estará livre da Neymasi, a polícia política e de costumes do jogador do Paris Saint Germain.

Todos (ou quase todos) sabemos que Neymar vive num mundo à parte.

Um mundo criado por puxa-sacos, por dirigentes omissos, por torcedores deslumbrados e por uma imprensa conivente.

Unidos, transformaram uma criança num menino mimado, num rapaz insuportável e num adulto de comportamento deprimente,

As desculpas utilizadas para justificar birras, molecagens e impertinências deverão ir a campo para também justificar, agora, o injustificável.

Por que não nos calamos?

Por que não nos calamos?

Estava assistindo, ontem, ao primeiro episódio de El Rey, que trata da trajetória, entre 1948-60, do futuro rei Juan Carlos, quando me veio à mente a polêmica, ocorrida em 2007, entre ele e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Para quem não lembra, o incidente entre o rei espanhol e Chávez ocorreu depois que o presidente venezuelano chamou o ex-primeiro-ministro espanhol Jose María Aznar de fascista, porque durante a sua gestão, Aznar foi um aliado próximo dos Estados Unidos.

Na ocasião, o então primeiro-ministro da Espanha, Jose Luís Rodriguez Zapatero, defendeu Aznar e disse que ele havia sido eleito “democraticamente pelo povo e foi um representante legítimo do povo espanhol”. Como Chávez, mesmo com o microfone desligado, tentou interromper Zapatero, o rei Juan Carlos levantou-se e ordenou-lhe, furioso: “Por que o senhor não cala a boca?” (https://videos.bol.uol.com.br/video/rei-juan-da-espanha-manda-hugo-chavez-se-calar-040266D0B91346).

O fato acima é um introito para que possa discorrer, nesta e na próxima semana, sobre o hábito, aqui no Brasil, de dizer ao mundo, notadamente aos países mais desenvolvidos, o que eles deveriam fazer para tornar a vida deles melhor e também para melhorar a situação dos países pobres.

A doença acometeu praticamente todas as nossas lideranças políticas de peso – mesmo que quase não as tenhamos e acomete o cidadão que estudou um pouquinho mais e se apresenta quase como especialista. E isso num país que não é bem um exemplo de como deve ser conduzida a política, da econômica à educacional, passando pela gestão da saúde e outras mais.

Quando os Estados Unidos são o assunto, então, existem especialistas de todos os tipos. Até quem nunca leu nada sobre o Tio Sam tem um recado a dar aos governantes de lá.

Nas universidades americanas não é incomum encontrar centros de estudos sobre América Latina. A quantidade de brasilianistas norte-americanos que já li é relativamente grande e todos dedicaram-se ou dedicam-se à história do Brasil por décadas. Quando falam ou escrevem sobre o nosso país, fazem-no com conhecimento de causa.

Tive a curiosidade de olhar, antes de escrever este texto, o site de universidades brasileiras para ver se havia alguma ação semelhante. Nada vi. O máximo que encontrei foi a inclusão de componentes curriculares em cursos que abordam elementos da história e da cultura norte-americana. Como minha pesquisa foi rápida, muita coisa pode ter passado sem que eu tenha visto.

Temos algo a ensinar ao mundo desenvolvido, é claro. Mas temos muito mais a aprender. Se quisermos ser conselheiros de alguém, devemos nos debruçar, com seriedade, sobre a história do aconselhado.

Para começar, faríamos mais e melhor se conhecêssemos a nossa própria história e situação, afinal um povo que vive num país com os índices de criminalidade, de analfabetismo, de corrupção e de injustiça social que nós temos, deveria se meter menos com os problemas dos outros, procurar menos culpados fora e trabalhar com afinco e silenciosamente para tirar o pé do lodaçal no qual vive e se meter menos com os problemas dos outros.

A canalhice travestida de moralidade pública

A canalhice travestida de moralidade pública

Acompanho, à distância, nos últimos quinze dias, o rumoroso caso da nomeação do professor Tassos Lycurgo, da UFRN, como diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI) do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em substituição a Hermano Fabrício Oliveira Guanais e Queiroz (https://www.agazeta.com.br/entretenimento/cultura/pastor-tassos-lycurgo-e-nomeado-diretor-do-iphan-1220).

Tassos Lycurgo é graduado em Filosofia e Direito, especialista em Direito Material e Processual do Trabalho, mestre em Artes e Filosofia (Sussex University, Inglaterra), doutor em Educação (UFRN) e pós-doutor em Apologética Cristã (ORU, EUA) e em Sociologia Jurídica (UFPB). Além disso, estudou Liderança Avançada (Haggai Institute, Tailândia), Ministério Pastoral e Estudos Bíblicos (RBT College, EUA) e publicou onze livros (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do;jsessionid=4006930DE81EFC84A873457E3951CBFC.$%7Bjboss.server.jvmRoute%7D).

Apesar da robusta formação acadêmica e do exercício docente na UFRN, ele tem sido apresentado como apenas pastor e, portanto, inabilitado, pela função pastoral que exerce e pela formação acadêmica que tem, para ocupar o cargo para o qual foi nomeado.

Não conheço Tassos Lycurgo e tampouco o trabalho acadêmico dele.

Tive alguns contatos distantes com ele, quando eu cursava Filosofia (UFRN), entre no final do século passado e o início deste, e outro um pouco mais próximo, em 2016, quando o professor Luiz Roberto (Filosofia/IFRN) e eu conseguimos levá-lo a participar de um debate com o também professor UFRN, Alípio de Sousa Filho, um dos grandes acadêmicos e intelectuais deste estado.

No já quase distante 2016, Luiz Roberto, Luiz Henrique (História/IFRN), Roberto Moura (Sociologia/IFRN) e eu estávamos à frente de um projeto de Extensão, Debate em Cena, por meio do qual levávamos ao campus Natal Zona Norte/IFRN políticos, acadêmicos, publicitários, intelectuais, etc para debaterem temas polêmicos (ética e política, existência de Deus, ideologia em sala de aula, entre outros).

Por lá passaram Ricardo Rosado, Kelps Lima, Edmílson Lopes Junior, Dante Henrique, Rogério Marinho – e Tassos e Alípio, entre outros.

A proposta do projeto era que os debatedores tivessem ampla liberdade para discutir os temas, sem quase amarra alguma.

Alguns debates foram acalorados, porque os convidados tinham visões claramente antagônicas sobre o tema proposto, mas respeitosos.

Não vou escrever aqui sobre o que ocorreu com o projeto e com cada um dos que estiveram à testa dele, porque não é o objetivo do artigo. Fiz referência ao mesmo apenas para dizer que Tassos e Alípio, ambos professores da UFRN e com posições diametralmente opostas quando o assunto é religião, protagonizaram alguns do momentos mais eletrizantes e instigantes do Debate em Cena, em suas duas edições, à altura do conhecimento que ambos têm.

Na última terça-feira (8) e mesmo antes, quando o nome de Tassos circulava como provável nomeado para cargo no Iphan, a máquina de moer reputações pôs-se em marcha, apontando-o como incapaz para exercer a função por não ser especialista na área que vai comandar e, pasmem, por ser pastor.

As críticas feitas apenam mencionam superficialmente o currículo e a formação acadêmica do professor Tassos e centram fogo no ministério pastoral por ele exercido, como se a vida privada dele fosse óbice para o desempenho de função púbica, como se não fosse possível identificar, quando e se ocorrer, decisões por ele tomadas que misturem as esferas pública (Estado) e privada (religião).

A mesma imprensa presumidamente vigilante (e a imprensa deve mesmo ser vigilante e perscrutar o poder público, como dizia Millôr Fernandes: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”) dormiu de touca quando o tucano José Serra (engenheiro e economista) sentou na cadeira de ministro da saúde, mesmo o fazendo com competência, vale ressaltar; ou quando o médico Antônio Palocci foi, com desenvoltura, ministro da área econômica de Lula; ou quando o grande, imenso, Celso Furtado, advogado por formação e economista por vocação, esteve à frente do ministério da cultura, nos anos Sarney; ou ainda quando o advogado Ciro Gomes esteve, por pouco tempo, comandando o ministério da fazenda na gestão do presidente Itamar Franco.

A economista Dilma Rousseff foi, na década de 1990 e no início dos anos 2000, secretária estadual de minas e energia e esteve na sua congênere federal no primeiro governo Lula. O médico Joaquim Murtinho foi um dos mais competentes ministros da fazenda do Brasil, durante o governo Campos Sales e o sociólogo Fernando Henrique montou e liderou, como ministro da fazenda, a equipe que engendrou o mais engenhoso plano econômico brasileiro, o real; o advogado gaúcho Getúlio Vargas teve passagem pífia pelo mesmo ministério no governo de Washington Luís.

Nicolau Copérnico e Thomas Malthus, respectivamente cônego da igreja católica e pastor, nunca foram acusados de abraçar suas crenças religiosas. Ambos são justamente incensados por seus feitos científicos, nas áreas da astronomia (Copérnico) e da economia e demografia (Malthus). Aquino e Agostinho são acima de tudo filósofos; o dominicano Bartolomeu de Las Casas e os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega não são amaldiçoados pelo exercício pastoral.

Não sou advogado de defesa de Tassos Lycurgo, o que não me impede de apontar como tem sido covarde e desonesta a forma como ele está sendo apresentado por parcela da imprensa brasileira (https://oglobo.globo.com/cultura/governo-oficializa-troca-de-especialista-em-preservacao-por-pastor-no-iphan-24786620).

Igualmente covarde tem sido a postura de parte considerável de seus pares de academia.

O safadismo

O safadismo

Três opiniões sobre o historiador da música brasileira José Ramos Tinhorão:

1) Tom Jobim, de quem Tinhorão arrolou 16 músicas com antecedentes conhecidos, isto é, plágio,  disse que urinava diária e religiosamente num vaso de “tinhorão”.

2) Para o crítico Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, “tinhorão é apenas uma árvore herbácea da família das Aráceas”.

3) Ruy Castro o define como bête noire e dragão da maldade da bossa nova em seu livro Chega de Saudade, porque, entre outras coisas, numa série de artigos para o Jornal do Brasil, em março de 1962, disse que a “bossa nova nasceu como automóvel de JK: apenas montado no Brasil” e, suprema das heresias para os aficionados do gênero, afirmou que Tom Jobim “começou querendo ser Villa-Lobos, depois se conformava em ser Cole Porter e acabou sendo só Antônio Carlos Jobim – ele não era um criador, era um bom músico”.

Bons tempos aqueles em que se podia desancar a bossa-nova, dizendo que era apenas uma expressão cultural chupara pela classe média brasileira da norte-americana.

Soubesse Tinhorão os rumos da música brasileira entre o final do século passado e o início deste, apagaria o que escreveu e incensaria a bossa-nova.

Agora nestes tempos de Covid-19, fui bombardeado por um sem-número de pessoas que me perguntavam se eu iria ou não aos shows de Safadão.

A todos, invariavelmente, eu afirmava que não, por dois motivos: evito ir a locais muito movimentados e não gosto de porcaria.

Todos ou quase todos me respondiam estupefatos, que Safadão é um grande cantor de forró (??!!).

Acostumados a ouvir heresias, eu repetia que o forró de que gosto é o de Gonzagão, Dominguinhos, Nando Cordel, Flávio José e por aí vai.

Não adiantava muito. Então, recolhia-me ao silêncio.

Admiro sobremaneira a beleza feminina, mas sou crítico da superexposição da mulher, transformada num objeto de consumo e o figurino que acompanha Safadão é composto por jovens que se vestem, como dizia o grande Luiz Gonzaga, “com blusas que terminam muito cedo e saias e shorts que começam muito tarde”.

Mas há algo pior.

É comum ouvir em shows de bandas de forró perguntas como “Há rapariga aí?” ou “Há corno aí?”.

Para confirmar pedem que, se houver, que levantem a mão. Para espanto de qualquer pessoa minimamente consciente, a maioria das mulheres levanta a mão. muitos homens, não sei se cornos ou não também o fazem.

A plateia delira quando os vocalistas das bandas, digamos, de forró utilizaram o escasso vocabulário de umas quatro palavras prediletas (dele e todas bandas do gênero): cachaça, putaria, cabaré e “gaia”.

Há duas ou três décadas passadas, alguém que procedesse como o fazem os vocalistas dessas, vá lá!, bandas de forró, dificilmente deixaria ileso a cidade na qual fizesse o show.

Abomino, por entendê-lo como autoritário, o discurso moralista. Tampouco, destilo elitismo. Acho, entretanto, que quando alguém que se denomina artista, em público, inquire a plateia com expressões do tipo "tem rapariga ou corno aí?" e obtém resposta positiva, mesmo das que não o são, é um indício de que algo muito sério está acontecendo na sociedade. O caso torna-se ainda mais sério quando percebemos que o fenômeno engolfa os jovens celeremente. Os mesmos que em pouco mais de uma década estarão se preparando para empalmar o poder e gerir os destinos da nação.

Não sei o motivo pelo qual as pessoas, hoje, vibram ao serem chamadas de corno, rapariga e afins. Intuo, no entanto, que a culpa pelo baixíssimo nível deve ser debitado não somente na conta das bandas. Os seus integrantes são vítimas de um sistema que os “deseducou”. Quando muito, apenas empregados de empresários que investem pesadamente e que exigem retorno financeiro. Chegamos assim a um estágio em que o bom gosto foi mandado para as cucuias, tornando virtuoso o que é apenas primitivismo estético.

A glamourização do que seria apenas dejeto cultural engole toda uma juventude descrente nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada por bandidos que estão, até mesmo, encastelados no aparelho do Estado.

A vítima é o bom gosto. E os nossos ouvidos.

Com o corona à espreita.

Derrotado, PT

Derrotado, PT

As eleições de 2016 e de 2018 mostraram que combustível eleitoral mais potente era o antipetismo. A deste ano, seguiu assim.

A esquerda, tirando o PSOL que disputou a prefeitura de Belém e ganhou, a ala mais moderada ou oligárquica (a eleição do filho de Eduardo Campos, que era neto de Miguel Arraes, e o candidato em Maceió, ambos do PSB, entre outros), em captais nordestinas, a esquerda saiu derrotada. Foi mal no pleito deste ano. O primeiro turno demonstrou isso e o segundo turno sacramentou a tendência.

Poucos saíram tão nanicos quanto o PT, que chegou ao segundo turno em apenas duas capitais, Recife e Vitória, com Marília Arraes e João Coser, ambos derrotados.

É a primeira vez, desde que as eleições para prefeitos nas capitais tornaram-se diretas, em 1985, que o PT não elegeu nenhum prefeito nas capitais brasileiras.

É provavelmente o maior fiasco da história do partido em eleições municipais.

A título de lembrança: em 2004, quando Lula ainda estava no seu primeiro mandato presidencial, o PT elegeu nove prefeitos de capitais.

A presidente do PT é Gleisi Hoffmann, mas quem manda e desmanda na legenda é Lula, que, responsável pela estratégia petista, isolou-o ainda mais, com atuação desastrada na eleição de Recife, e atuando como peso morto nas candidaturas de Manuela D’Ávila (PC do B) e de Guilherme Boulos (PSOL), duas candidaturas que eletrizaram as hostes esquerdistas.

O PSOL surgiu, este ano (já vinha apontando para isso), como sucessor do PT, mas nem mesmo os figurinos moderados de Guilherme Boulos (Boulosinho Paz e Amor) e de Manuela D’Ávila (Manuzinho Bela e Recatada) foram suficientes para o sucesso dos candidatos, que tiveram de carregar a desconfortável companhia do PT e sua extensa ficha corrida.

D. Sebastiões

D. Sebastiões

Rei de Portugal aos 14 anos de idade, D. Sebastião cresceu e foi educado pelo seu tio, cardeal D. Henrique, em meio a um catolicismo cruzado, na corte de seu avô, Dom João III.

D. Sebastião era filho de Joana da Áustria e de João Manuel, príncipe herdeiro de Portugal, que morreu dias antes do nascimento do filho.

O seu nascimento, em 1554, provocou certo rebuliço à época, pois havia o temor de Portugal ficar sem herdeiro. Talvez por isso mesmo foi o mais amado entre os reis portugueses, por ter sido muito desejado desde antes de nascer.

Provavelmente foi ainda mais amado após a sua morte, em 1578, quando combatia os mouros no norte da África, a ponto de parcela considerável da população portuguesa, à época, rechaçar a notícia de sua morte, afirmando que  ninguém chegara a ver o rei ser morto, surgindo daí a crença de que o ele não havia morrido e que regressaria como um salvador de Portugal.

Surgiram vários D. Sebastiões na Europa e, com o tempo, a crença atravessou o oceano, aportando em terras brasileiras.

Estamos em novembro de 2020, a campanha política para conquista de prefeituras do país ainda corre em algumas das principais cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, entre outras) e o sentimento de que ungidos podem nos salvar do caos faz-se presente.

No caso brasileiro, a intervalos regulares de dois anos, há quase três décadas.

Mesmo quando as campanhas políticas se acabam, os nossos D. Sebastiões teimam em armar palanques nos palácios de governo, sejam municipais, estaduais ou federal, esquecendo-se que, findo pleito eleitoral, é hora de mais administração e menos marketing.

É usual entre os políticos brasileiros não perceberem a distância que separa o palanque do gabinete, razão pela qual perdem-se em meio ao imobilismo administrativo e os lances publicitários, gerando desconfiança, quando não enfado.

Alguns dos candidatos a prefeito este ano subiram nos palanques e nas pesquisas acreditando-se empenhados numa cruzada política destinada a acabar com o sofrimento dos pobres a toque de muita falação e exibição.

Desde o início da campanha, adotam retórica messiânica, apontando-se como os bonzinhos prontos a salvar a população das garras daqueles que só se aproveitam dos cargos, até perceberem, como diria Weber, que há distância considerável entre as éticas que permeiam a política. Aproximá-las é tarefa vital para que o líder não caia na demagogia.

O discurso messiânico é perigoso porque marginaliza a política, a sociedade, as questões econômicas, a razão, etc fundindo política e religião e propondo a salvação a qualquer custo, como foi possível perceber na proposta de Guilherme Boulos para organizar as contas da previdência paulistana (https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/11/20/proposta-de-boulos-para-previdencia-arma-adversario.ghtml) ou de Crivella, às voltas com fanáticos religiosos.

Boulos, Crivela e mesmo Manuela não são os primeiros e nem serão os últimos políticos brasileiros a usar a tática. Ela está aí há tempos e já foi testada nos laboratórios do populismo tupiniquim, acalentada no assistencialismo rasteiro e apoiada pelo tradicionalismo político.

É típica de nossos políticos provincianos e, como diria Paulo Francis, jecas.

Num candidato de mais estofo intelectual, a retórica sebástica só caberia como ironia. Em Boulos, Crivela e Manuela é essência. Sem ela, os três não existiriam politicamente.

Não é novidadeira no Brasil, como disse, a apropriação do discurso religioso pelo debate político.

Até os anos 1970, anti-comunistas acusavam comunistas de representarem o mal, e estes diziam ser a burguesia e os latifundiários as melhores representações de vilania.

Nos Rios Grandes do Norte e do Sul, na segunda e na primeira metade do século XX, a divisão política atingia famílias. No do Norte, então, os anos 1960-70 dividiram o estado de norte a sul, de leste a oeste por cores. O mal vestia verde para os dinartistas e vermelho para os aluizistas.

A retórica política sebástica, além de pretensiosa, é absurdamente cínica, pois invoca o sagrado para defender interesses comuns e materiais.

O povo, ora o povo é apenas joguete do que não pode ser confessado em público.

Blogs


Clique aqui e receba nossas notícias gratuitamente!