Historiando

O mar de Cotovelo (Por Paulo Caldas Neto)

O mar de Cotovelo (Por Paulo Caldas Neto)

Em algumas das manhãs de domingo, sempre que minha esposa vem para Natal, em período de férias, costumamos excursionar os quatro cantos do litoral potiguar sem poupar, muitas vezes, esforços para provar um pouco de sua gastronomia. Saindo de Natal e antes parando para curtir a simplicidade da feirinha de artesanato de Ponta Negra, onde decidimos comprar iguarias da cultura local, a fim de presentearmos conhecidos de outro estado da federação, seguimos o caminho do verão: as praias do litoral sul. Nenhuma discriminação para com as do litoral norte. É que, de onde residimos, as praias da zona sul acabam sendo mais próximas, facilitando muito o nosso percurso.

 

Mais precisamente na manhã deste domingo, dia 01, como nós dois dormimos até tarde e, ainda assim, ela também não havia tido uma boa noite de sono, resolvemos tomar um café da manhã não tão reforçado para que tivéssemos fome para o almoço, que já se aproximava. Saímos às 10h20min. Um horário não muito apropriado para quem deseja desfrutar intensamente as belezas do litoral do RN. O normal é levantar-se cedo. Assim, aproveita-se melhor o turno matutino, especialmente o curto intervalo de tempo entre 8h30min e 10h00min, quando, na opinião dos dermatologistas, os raios de sol não são prejudiciais à epiderme, evitando-se, com isso, doenças como o câncer de pele. Nossa sorte é que não nos expusemos ao forte sol de dezembro, o qual já prenunciava a alta estação do mês de janeiro do ano que entra, ansiosamente esperada por todos, em função das férias e dos frequentes banhos de mar dos veranistas.

 

Não estando minha companheira bem-disposta a altas caminhadas, fossem a pé, fossem de carro, estacionamos o meu Fox em Cotovelo, uma das praias que servem de acesso à praia de Pirangi, uma das mais badaladas da zona sul. Como o bar Barramares estava lotado, e o atendimento deixa a desejar em matéria de celeridade, optamos pelo restaurante Falésias por ser menos agitado e o atendimento eficiente. Em compensação, os preços dos pratos são salgados. Almoçamos uma peixada brasileira e bebemos suco de laranja gelado, porque o ambiente e a sua temperatura exigiam algo bem refrescante. De onde estávamos, o que impressiona é o mar, toda a enseada. Mesmo sendo meio caminho andado, assim como a Praia dos Artistas, vulgo Praia do Meio, localizada em plena a urbanidade de Natal e servindo de acesso a duas outras – a do Forte dos Reis Magos e a de Areia Preta –, Cotovelo possui Resorts, casas de veraneio ainda bem conservadas, embora seu entretenimento noturno seja fraco, sem a estrutura de grandes estabelecimentos que atraiam a juventude potiguar com bastante entusiasmo. Geralmente, os jovens costumam atravessá-la para ir a Pirangi, cujos empreendimentos oferecem uma ampla e diversificada culinária, bem como inúmeros pontos turísticos, estrategicamente explorados pelo ramo empresarial, a começar pelo grande Cajueiro.

 

Sentado em frente ao mar de Cotovelo, pois havíamos pedido ao garçom uma mesa próxima a algo que fizesse sombra, pude sentir a brisa me beijando, seduzindo-me lentamente, que, por um segundo, pensei que estivesse incorrendo em adultério. E logo ali, com a minha esposa ao lado. Que insensatez! Ainda bem que foi só a brisa! Mas o mar! O mar e a sua poética! Ele realmente é sedutor, lírico… Inspirador de poetas, compositores, ultrapassa milênios mantendo aquilo que é de mais belo, titânico e misterioso. Vê-se toda a imensidão do mar de Cotovelo que sensibiliza os olhares apaixonados! Uma boa quantidade de banhistas é vista compartilhando suas delícias com o mar, e este tentando acolher e banhar as pessoas com suas águas espumosas numa espécie de ritual, salgando e renovando os corpos que dali retornam à orla. Meu olhar recebe a hipnose de todo um espetáculo que se desenvolve em sua beleza natural. Um misto de paz e candura me leva de volta ao passado. E ao testemunhar o que a natureza faz, minhas lembranças me transportam às manhãs e às tardes de domingo da década de 80. Ainda criança, só conhecia o mar das praias urbanas anteriormente citadas. A família, vez ou outra, gostava de explorar novos paraísos litorâneos, e eu adorava. Vêm-me os versos da canção de Roberto e Erasmo:

 

Eu me lembro com saudade o tempo que passou.

O tempo passa tão depressa, mas em mim deixou

Jovens tardes de domingo, tantas alegrias,

Velhos tempos, belos dias.

[…]

Hoje os meus domingos são doces recordações

Daquelas tardes de guitarra, sonhos e emoções.

O que foi felicidade

Me mata agora de saudade.

Velhos tempos, belos dias.

Jovens tardes de domingo!…

 

Olhos quase marejados diante do mar de Cotovelo. Escondo uma lágrima da minha mulher. Escondo até o meu saudosismo. Sou assim. O mar de Cotovelo me trouxe uma parte de mim, um passado feliz. Pois é! Um passado no qual eu era feliz e não sabia.

 

 

Por Paulo Caldas Neto

O sagrado espaço de sala de aula

O sagrado espaço de sala de aula

Típico de mentes estupidamente ladinas, como a de Fernando Morais e outros, à esquerda e à direita, misturar tudo – partido, sociedade, governo e Estado – num mesmo pote, para querer obrigar as pessoas a agir no interesse do partido como se estivessem atuando em prol do Estado e da sociedade.

Há pouco, uma mente só estúpida, sem qualquer resquício de ladinice, insinuou-se querendo me patrulhar.

Sofro este tipo de assédio há muito tempo, desde quando ainda era simpatizante de teses esquerdistas.

O argumento (se se pode chamar de argumento aquele ramerrame de chamar os outros de reacionários e outras adjetivações e/ou substantivações adjetivadas) do estúpido era que eu, professor do IFRN, não poderia ou deveria defender repressão à criminalidade abertamente e tampouco posso ou devo me insurgir contra o uso da Escola e mais precisamente da sala de aula como púlpito político-partidário, afinal estou no IFRN porque o governo Lula abriu editais de concurso público. Para o gênio, foi graças a isso que ingressei no então CEFET e por isso Lula e é meu credor.

Ora, sou um defensor da ordem (dizem que isso é discurso de direita e se for, estou, sem problema algum, à direita no espectro político), ingressei no serviço público, todas as vezes em que estive, inclusive na atual, por meio de concurso público, em edital aberto para qualquer cidadão brasileiro que tivesse a formação requerida, logo nada devo a governo ou a político algum.

Não estou filiado a nenhum partido político. Nunca fui. Já simpatizei com alguns e, ainda assim, nunca utilizei o sagrado espaço da sala de aula para fazer militância político-partidária. 

Não sigo e nunca segui político algum, seja de esquerda, direita ou centro.

Discuto e debato, sem qualquer ranço, os assuntos sobre os quais leio e estudo. Mas não tolero patrulhamento ideológico. E ainda menos que tomem um partido político, qualquer que seja ele, como portador da boa nova. Quem tiver em busca do seu Messias político, vá ao deserto.

Por último, considero a sala de aula espaço sagrado, para a qual professor algum deve levar suas crenças para fazer proselitismo de qualquer espécie.

 

***

 

Semana passada, o presidente Jair Bolsonaro foi derrotado em sua intenção de aprovar PEC que permitisse auditagem, via voto impresso, das urnas eletrônicas.

Um amigo, antibolsonarista de quatro costados, puxou conversa comigo dizendo estranhar como um presidente que cai pelas tabelas, acossado pelo STF, pelo Congresso Nacional, pela mídia, pela classe artística, etc, ainda consegue manter-se politicamente vivo, sem risco real, a curto prazo, de sofrer impeachment.

Aprovar um processo de impeachment contra um presidente da república exige condições políticas que, hoje, a oposição não tem, por duas razões: não conta com maioria folgada para tal na câmara de deputados e as ruas ainda não deram um recado suficientemente forte contra Bolsonaro, que, a despeito de toda a oposição que reúne contra si, ainda tem algo entre 25% e 30% do eleitorado a seu favor.

Dificilmente, um presidente com tal apoio político cai.

Lembrem-se que Michel Temer venceu na câmara federal, barrando aprovação do relatório que propunha licença para que o STF o julgasse por delito cometido na função de presidente. Lula, acossado por todos os lados em 2005, quando das denúncias do mensalão, seguiu altaneiro (em grande medida por imprudência da oposição tucana à época) rumo ao segundo mandato presidencial.

Então, o que vimos até aqui sobre o sono profundo do impeachment do atual ocupante do Palácio do Planalto, não deveria surpreender ninguém.

Nem adianta espernear.

Dilma foi impedida, em 2016, por incompetência política.

É só papirar jornais e revistas da época para constatar.

Entre Gato e ratos

Entre Gato e ratos

Li hoje alguns textos e assisti vídeos que registraram o ataque, por cerca de vinte pessoas, em São Paulo, na tarde de ontem, à estátua do sertanista Borba Gato (https://www.youtube.com/watch?v=cmcKC5okuI4).

Sim, sertanista, porque os paulistas que rasgaram o país preando índios e em busca de ouro e pedras preciosas eram assim chamados. 

A direita logo se apressou a dizer que foi um ato de terrorismo e a esquerda chamou a ação de exemplo (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ataque-a-borba-gato-direita-fala-em-terrorismo-e-esquerda-em-exemplo,70003788848).

Não foi uma coisa, nem outra.

Foi vandalismo feito por “revolucionários” mimados, da mesma cepa daqueles intelectuais de gabinete e revolucionários de suvaco que vivem a construir fórmulas e a arrumar justificativas para o amor incontido que têm por figuras abjetas da história mundial, tiranos e déspotas da pior espécie e por movimentos que, com o pretexto de se contrapor ao sistema, depredam patrimônios público e privado.

Aqui mesmo em Natal, ano passado, a casa onde viveu o folclorista, historiador e etnógrafo Câmara Cascudo foi pichada (http://blogcarlossantos.com.br/pichacao-marca-vandalismo-no-instituto-camara-cascudo/) e apareceu um ou outro intelectual justificando o ato ou até mesmo sugerindo que o alvo do ataque poderia ser outro, a estátua do ex-governador e ex-senador Dinarte Mariz, falecido em 1984, na Via Costeira (oficialmente avenida Dinarte Mariz).

Na madrugada de ontem para hoje, a polícia civil prendeu um suspeito de ter participado do ato na zona da capital paulista.

Os sertanistas dos séculos XVII e XVIII foram homens do tempo deles e, não custa registrar, os primeiros grandes devassadores dos sertões e, portanto, formadores das dimensões continentais que têm o Brasil.

Eram, grosso modo, mestiços de branco com índio, até mais índios do que brancos, nos costumes, na arte da guerra, no trato com a natureza, etc, como expõe uma gama de estudiosos do tema em livro organizado por Diogo da Silva Roiz Suzana Arakaki Tânia Regina Zimmerman (Os Bandeirantes e a Historiografia a Brasileira).

Eles não precisam e nem devem ser cultuados como heróis, como eram nos livros didáticos de antanho, tampouco apodados como bandidos, como insiste um certo revisionismo caolho.

Antes de depredar a estátua dos sertanistas, os valorosos homens da revolução do século XXI, candidatos a sequestradores da memória nacional e simpatizantes e integrantes de grupos que carregam os pomposos nomes de Mao Tsé-tung, Vladimir Lenin, Ernesto Che Guevara, Carlos Marighella e que tais, deveriam conhecer a história deles.

Talvez dessa forma pudessem fazer aquilo que dizem fazer – pensar criticamente, tão dito e tão pouco ensinado e aprendido.

Neymar patrioteiro

Neymar patrioteiro

Futebol e pátria e futebol e nação não se misturam. Ou pelo menos não deviam se misturar. Quando se misturam o caldo entorna e ele, o futebol, é utilizado para fins outros que não os esportivos. A história é pródiga em exemplos, mas não vamos a eles. Por ora, fiquemos com o menino Ney, marmanjo de 30 anos que continua sendo tratado como garoto por imprensa caolha ou comprada.

A condescendência desmedida com Neymar, quando as orelhas dele deviam ter sido puxadas, cobram um preço a ele e ao futebol da seleção brasileira, posta à disposição dele, jogando para ele e secundarizando desmedidamente bons e excelentes jogadores.

O episódio do chilique neymariano, antes da decisão da Copa América com o selecionado argentino, dizendo-se “brasileiro com muito orgulho e muito amor” e expressando a dificuldade que tem de entender quem torce contra o Brasil, está no mesmo patamar (apud Bruno Henrique) das patriotadas de Zagallo gritando pela amarelinha, pelo verde e amarelo nos tempos de Brasil: ame-o ou deixe-o ou em tempos mais recentes. A diferença é que Zagallo, mesmo quando muito zangado, não mandava publicamente ninguém “para o caralho”, como fez o menino Ney com todos os brasileiros que disseram torcer pela vitória da seleção alviceleste contra a seleção canarinho.

Neymar tem a mesma dificuldade de Zagallo para entender que a seleção brasileira de futebol não é o Brasil. Não representa a pátria ou a nação. Nunca a representou, mesmo quando muito amada por jogar futebol de primeira qualidade.

Por vezes, mesmo jogando futebol de excelência, como o escrete que conquistou o tricampeonato, havia muita gente que rejeitava o selecionado brasileiro, porque temia, como de fato ocorreu, que o título ganho em gramados mexicanos pudesse ser utilizado como peça de propaganda pelo governo do general Garrastazu Médici.

A seleção de Tite e de Neymar não representa o Brasil. Representa o futebol brasileiro. Mal e porcamente, apenas a ele.

Neymar e sua patota trabalham contra o Brasil, no futebol e fora dele.

Fiquemos somente com o futebol.

Quem não fica no mínimo chateado com o futebol mequetrefe jogado pela seleção brasileira que tem em Neymar o seu maior expoente? Quem não ficou envergonhado com a participação mambembe de Neymar no última Copa do Mundo, quando rolou mais do que correu pelos gramados russos?

Neymar chegou com fama de estrela, com muitos apostando numa performance que o gabaritaria para assumir o posto de melhor do mundo e saiu do mundial com fama de picareta, transformado em símbolo de perfídia, de enganador, por rolar em campos fingindo faltas inexistentes. Ali, o futebol jogado por Pelé, Garrincha, Gérson, Romário e Ronaldo foi aviltado por um adulto tratado como adolescente e, por isso mesmo, visto como moleque.

Não sigamos por outros campos, a saber, a birra irresponsável para fazer festa para 500 convidados no auge da pandemia, etc.

Muitos torceram para a Argentina ontem justamente por causa de Neymar. E nem por isso são menos patriotas. Intuo até que são mais patriotas do que o craque que veste a sagrada camisa 10 da seleção brasileira de futebol.

***

Por falar em caldo, o caldo popular, pelo que tenho acompanhado, engrossou nas ruas, com Covid e tudo, e Bolsonaro vai ter de rebolar para se sustentar até o final do mandato.

O destino dele, se a coisa continuar como está, é ser dilmado ou, então, figurar como um morto-vivo até 2022. 

Só uma coisa pode virar o jogo: a melhoria nos índices econômicos. Desde que tal melhoria chegue à mesa dos brasileiros.

Rebanho político brasileiro

Rebanho político brasileiro

Não foi o impeachment de Dilma que jogou o Brasil nessa barafunda política. Aquilo foi apenas o sintoma de algo que corroía, por baixo, a ordem política urdida nos anos 1980, quando a oposição moderada uniu-se aos moderados que davam apoio ao regime para matar, sem sepultar, a ordem autoritária nascida em 1964.

Desde 2013, quando as ruas das principais cidades brasileiras foram tomadas por gente furibunda com as lideranças políticas, o Brasil não mais encontrou o rumo, porque abandonou a política para jogar o jogo dos salvadores messiânicos.  

A massa que tomou ruas e avenidas era formada por gente séria que sabia exatamente pelo que estava realmente protestando, por pessoas que foram festejar a simples ira dos descontentes, por uma multidão amorfa que não tinha a menor noção no que estava envolvida, pelos antissistema e por arruaceiros e baderneiros que simplesmente queriam depredar e destruir patrimônios público e privado.

Entre estes últimos estavam os que puseram a mão na massa e participaram ativamente das depredações e os intelectuais e pensadores (?!) que construíam formulações teóricas e acadêmicas sobre o que há de construtivo na destruição. Aquela turma de totalitários que, com vestes democráticas, trabalha para destruir o ambiente de liberdade de que se serve para propagar intolerância travestida de bem-querer.

O ambiente de intolerância no qual estamos imersos é construção coletiva, levada a extremos pela direita e esquerda adversárias da moderação.

Bolsonaro e Lula, abertamente adversários no pleito presidencial que se avizinha, são expressões personalistas do fenômeno.

O atual presidente, por razões para lá de claras, porque não consegue atuar sem criar conflitos, em sua maior parte desnecessários. Sem o conflito aberto, ele submerge na insignificância do que sempre foi.

Lula porque, a despeito de surgir aparentemente como homem de diálogo, exercita sua dupla personalidade, a de alguém moderado, quando a ele convém para atingir o fim a que se propõe, a saber, subir os degraus que lhe levam ao templo do poder, mas que, por baixo do pano, insufla a turma radical para romper os limites impostos pela ordem social e política. Os seus cães, como os de seu adversário, atuam maldizendo, difamando e injuriando qualquer um que se ponha à sua frente.

Cícero dizia que a política oferece dois caminhos para fazer o mal: a força ou a fraude. Ambas são indignas e bestiais, mas a fraude, disse o grande tribuno romano, é mais odiosa do que a violência porque quem a perpetra se faz passar por homem bom e justo.

Bolsonaro e Lula, em política, complementam-se. O primeiro quando exercita a sua boçalidade bélica; o segundo, a sua lábia demagógica. Às vezes, eles trocam os sinais, e o boçal torna-se demagogo e o demagogo, boçal, sem que os rebanhos que comandam permaneçam enormes e obedientes. E cegos aos defeitos de seus donos.

 

O rebanho deles, para citar Schopenhauer, odeia aqueles “que pensam diferente. Não tanto pela opinião em si, mas pela audácia de querer pensar por si mesmo. Algo que eles não sabem fazer”.

Enquanto estivermos na encruzilhada onde se encontram as duas avenidas, o Brasil não tira o pé do atoleiro.

A neolinguagem dos treinadores e dos comentaristas de futebol

A neolinguagem dos treinadores e dos comentaristas de futebol

Semana passada, no vácuo das discussões políticas sobre a ocorrência ou não da Copa América, vi uma declaração de Tite tão vazia de significado quanto o sonolento e amarelo hepático futebol da seleção brasileira. Disse o treinador do selecionado nacional que “Gabriel Barbosa me dá uma flutuação e infiltração de espaço para finalização. Jesus produziu muito pelo lado. Foi um destaque nosso na Copa América. Também ataca o espaço, muita força. Richarlison também dá isso. Firmino é um 9 que exerce o papel de 10. Esses jogadores vão te dando essas possibilidades de utilização dentro de uma determinada forma.”  

Tite é dado a essas manifestações vazias e a falas empoladas que nada dizem. Não é o primeiro que ocupou o cargo de treinador da seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) falando muito e confundindo mais ainda. Só para citar os que vi na linha titeana, Sebastião Lazaroni, treinador do Brasil entre 1989 e 1990, é um dos mais destacados. Criou uma linguagem que a imprensa esportiva chamava de lazaronês. Quando queria dizer que um jogador precisava evoluir, dizia Lazaroni que “Fulano tinha de galgar parâmetros.”

Ouso dizer que o lazaronês, a forma empolada de falar sobre futebol, foi um dos maiores legados de Sebastião Lazaroni. Sua oratória quase incompreensível é farta e largamente utilizada por treinadores como Vanderlei Luxemburgo, Emérson Leão, Renê Simões e o atual treinador da seleção brasileira, Tite.

O mal, ressalto, está para além dos treinadores, contaminando a crônica esportiva. Assistir a mesas-redondas nas televisões brasileiras é um exercício de paciência. Primeiro, porque a crônica esportiva veste-se cada vez mais com o figurino da crônica política. Segundo, os cronistas adotaram um vocabulário com palavras já existentes para dizer coisas que já existiam: atacante de beirada era aquele que chamávamos de ponta; transição era antes avançar ou até mesmo atacar; marcação alta seria a antiga marcação por pressão. Quando juntam tudo isso num comentário, entremeado por frases empoladamente elaboradas, a análise nada diz ou se diz alguma coisa quase ninguém entende.

João Saldanha, o homem que fez a semana de arte moderna na crônica esportiva, Sandro Moreyra, Nélson Rodrigues e outros que atuaram comentando sobre futebol no Brasil, bateriam com mão na mesa ou destilariam ironia sempre que ouvissem algumas das sumidades atuais da mídia esportiva brasileira deitando falação oca e incompreensível, por vezes para mascaram o desconhecimento do assunto sobre o qual discorrem.

***

Semana passada, as bolhas ideológicas se manifestaram freneticamente. O assunto era o antigo ópio do povo brasileiro, futebol. Nem era futebol mesmo, mas a possibilidade de a Copa América ter, de última hora, o Brasil como sede.

Na torcida pelo boicote ou não dos jogadores da seleção brasileira à Copa América, o caminho das críticas seguiu o complexo caminho das vias binárias. Os jogadores seriam 1) comunistas, petistas, lulistas, recuperaram a camisa da seleção para o povo, etc, caso se recusassem a jogar o torneio continental ou 2) bolsonaristas, alienados, mercenários, etc, se aceitassem envergar o uniforme da seleção e participassem do convescote ludopédico.

Fui e sou contra a Copa América no Brasil, porque, primeiro, não concebo este torneio sendo disputado a cada dois anos e, segundo, porque não dá para rebolar no nosso colo um evento faltando dez dias para o início.

Mas eu sou um neutro, segundo os frequentadores e torcedores alojados na bolha.

Esse pessoal ainda me manda para o inferno. Com passagem só de ida. E eu vou, só para ficar longe deles.

Blogs


Clique aqui e receba nossas notícias gratuitamente!