P-47 Aviação e História

A foto da queda

A foto da queda

No último post (clique aqui), chegamos a acreditar que o Liberator do VB-107, de número 32605, caiu no mar sem deixar vestígios. Contudo, um novo fato surgiu. Ao folhear o livro Fairwing Brazil, do fotógrafo americano John R. Harrison – o Jack – encontrei um dado muito importante sofre o acidente.

Veja o que diz a legenda da foto que está no livro:

“Infelizmente, os aviões da Marinha dos EUA nem sempre conseguiram evitar desastres no mar, o que, no caso dos Liberators PB4Y (B-24), causava a morte certa às tripulações, uma vez que os PB4Y não pousavam bem na água, especialmente quando perdiam potência.
Na foto I-65, tirada em 2 de janeiro de 1944, vemos os enormes salpicos na água resultantes do acidente com o VB 107-B-12 (PB4Y pilotado pelo tenente RT Johnson) no mar a cerca de 71 milhas antes de um retorno seguro à Ascensão de uma batalha com um furador do bloqueio alemão, o Wesserland.”

O Jack e o seu livro merecem uma postagem a parte, que ficará para o futuro. Eu indico a aquisição no livro, o qual foi lançado apenas nos EUA, mas é vendido no Brasil. Vou deixar um link aqui para aquisição.

Óleo nas praias, fardos de borracha, Parnamirim Field e Segunda Guerra Mundial

Óleo nas praias, fardos de borracha, Parnamirim Field e Segunda Guerra Mundial

Nos últimos meses, a costa brasileira vem sofrendo com o aparecimento de manchas de óleo, sobretudo em praias nordestinas. Em outubro, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) levantaram a hipótese do óleo ser oriundo de um navio alemão afundado por comboio da U.S. Navy, em 4 de janeiro de 1944, transportando cobre e cobalto.

Mas o que Natal tem a ver com esta história?

Você sabia que outros dois navios alemães foram afundados na mesma semana na costa do Nordeste?

Além do óleo, o aparecimento de fardos estranhos nas praias tem relação?

Pesquisando um pouco sobre o assunto e cruzando informações, surgiram outros dois afundamentos na mesma área e semana do ataque ao SS Rio Grande, apontado pelo pesquisador da UFC como fonte do óleo vazado e que se tratava de navio alemão com nome brasileiro para disfarçar a fiscalização. De acordo com o registro oficial da Marinha Americana, entre os dias 3 e 5 de janeiro de 1944, três navios alemães foram afundados próximo ao Nordeste do Brasil, pois desrespeitaram as regras vigentes à época, no período da Segunda Guerra Mundial. Além do Rio Grande, também foram afundados o M.V. Meserland e o M.V. Burgenland, estavam retornando de viagem ao extremo oriente e, possivelmente, transportavam matéria prima que abasteceriam a indústria de guerra alemã.

No Atlântico Sul, a U.S. Navy tinha montado um verdadeiro cordão de bloqueio naval, utilizando navios e aviões, que se mostrou eficaz ao ponto de impedir o transpasse de qualquer embarcação não identificada, entre o Brasil e a África. Os navios da 4ª Frota da Marinha dos Estados Unidos ficavam ancorados em Recife, enquanto que os aviões, em sua maioria, ficavam em Natal se deslocando em patrulhas. Vale lembrar que em Natal existia aviões do Exército, responsáveis pelo transporte de material para o front, e da Marinha, que cuidava da defesa da costa.

Em 1º de janeiro de 1944, uma esquadrilha com 15 aviões do esquadrão VB-107, operando a partir de Natal, e outros 11 partiram da Ilha de Ascensão, de Widewalke Field, com a missão de dar apoio na interceptação de navios suspeitos e guiar os navios aliados, os cruzadores USS Omaha, Milwaukee, Cincinnati, Marblehead e Memphis, além de dois destroieres.

Já no segundo dia de patrulha (2 de janeiro), a esquadrilha se deparou com o navio M.V. Weserland, de nacionalidade alemã, navegando entre o Brasil e a ilha de Ascensão, retornando de viagem ao Japão e carregado de borracha crua (não sei se o termo correto seria crua ou natural, mas foi a melhor tradução que encontrei).

Vocês lembram dos fardos de borracha encontrados em nossa costa há meses?

Fardo de borracha encontrado em Pirangi, litoral Sul do RN 

Foto: Fardo de borracha recuperado no litoral do RN (Cedida)

Voltando ao Weserland: a embarcação era comandada pelo capitão Krag e navegava sob o nome falso de “Glenbank”, o que logo foi desmascarado, quando o avião, um Consolidated PB4Y-1 “Liberator”, o “Baker 9” do esquadrão VB-107, tentou contato via rádio para alterar sua rota sem sucesso, e ao sobrevoar identificou o nome verdadeiro. Era iniciado o ataque. Durante a tarde, o navio revidou, pois estava armado com artilharia antiaérea de 37 mm, que danificou a aeronave, ferindo um dos tripulantes. Algumas horas depois, já no fim da tarde, outro “Liberator”, o “Baker 12” do VB-107, voltou a encontrar o navio, a 70 milhas do contato inicial. Outros aviões, o “Baker 5” e “Baker 1” se juntaram a patrulha, mas estavam em outro setor.

 

Foto: Tripulação do Liberator "Baker 9" do VB-107

O “Baker 12” encontrou o Weserland, às 16h20 segundo consta no relatório da U.S. Navy. Nesta investida, a defesa antiaérea atingiu ferozmente o Liberator, que a princípio perdeu potência em um dos motores, além de combustível.

2 de janeiro – Relato oficial seguindo horário local:

  • 18h00 – Baker 02 acompanha Baker 12, mas precisar deixar local por estar no limite do combustível;
  • 18h30 – Baker 01 chega para apoiar retorno do Baker 12 à Iha de Ascensão, com percurso de 600 milhas;
  • 21h30 – Baker 12 perdeu altitude para 1.400 pés (425 metros) e tripulação informa via rádio que estavam caindo em chamas, com relato do piloto sobre falha em 3 dos 4 motores. Piloto Lt Robert Theodore Johnson: – Não parece que vai aguentar.
  • 21h45 – Baker 12 informa nova queda de altitude, passando para 600 pés (182 metros), a 90 milhas da ilha;
  • 22h30 – Baker 02 pousa em Ascensão, sem vestígio do Baker 12.

Com esta informação, o Baker 12 do VB-107, de número 32605, passou a ser considerado desaparecido, bem como os seus 10 tripulantes. Apesar de horas de buscas, nada foi encontrado.

Tripulação do Liberator VB-107-B12 32605

  • Lt Robert Theodore Johnson (piloto)
  • Ens James H. Wells
  • Ens John D. Cowan
  • Ens Eugene Bowers
  • Amm2c Russell Hamilton
  • Rm2c William B. Winter
  • Aom3c Edward J. Fisher
  • Amm3c Donald W. Carpenter
  • Rm3c Joslyn Simpson

 

Enquanto isso, a batalha no Atlântico continuava. Com apoio do Baker 1 e Baker 5, o destroier Somers (DD-381) avista o Weserland, a cerca de 20 quilômetros de distância e iluminado por flares – chamas lançadas pelos aviões para iluminar o alvo à noite – inicia uma perseguição, ciente de que se tratava de um inimigo que tinha atacado dois aviões aliados. Os disparos começaram a cerca de 6 quilômetros de distância, tornando-se cada vez mais eficientes até chegar 5 quilômetros. Os sobreviventes relataram que um dos primeiros disparos – cerca de 50 foram disparados de imediato – atingiu a parte mais alta da embarcação, matando 04 marinheiros. Às 03h, do dia 3 de janeiro de 1944, o Weserland afundou nas coordenadas 14°55 'S 21° 39' W. Um total de 133 sobreviventes foram resgatados pela Marinha Americana e desembarcados em Recife, no dia 6 de janeiro de 1944.

Foto: Navio Weserland

Em outra ocasião contarei a história dos outros dois navios em detalhes. Espero que tenham gostado deste post inicial. Os próximos serão mais curtos.

Referências:

Aviation Safety Network

The Official Chronology of the U.S. Navy in World War II

https://www.wrecksite.eu/

Decolando: vamos começar

Vamos iniciar esta nova etapa em minha vida como "blogueiro" jornalista. Sempre gostei de história, aviação e o Rio Grande do Norte, e a ideia é unir todos estes temas neste espaço. Espero contar com a ajuda dos seguidores e já já terá conteúdo aqui no P-47. Ao longo do tempo eu irei explicar mais sobre o projeto deste blog e o conteúdo escolhido.

Obrigado

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