P-47 Aviação e História

A contraespionagem americana durante a segunda guerra em Natal

A contraespionagem americana durante a segunda guerra em Natal

A Ribeira, bairro da zona Leste de Natal, sempre foi marcada pelo histórico boêmio e importância comercial, como o primeiro bairro do tipo na cidade. Ao longo de décadas, abrigou grandes galpões de estocagem de pescado, algodão e mantimentos, e suas ruas sempre foram caracterizadas pelas portas de lojas, dos mais diversos segmentos, seja de bares, lanchonetes, ferragem, antiquários, entre outras dezenas.

Contudo, neste post queremos abordar o aspecto da espionagem que no período da Segunda Guerra Mundial, rodeou a localidade. Principalmente, na Praça Augusto Severo, no cruzamento da Rua Doutor Barata com Travessa Aureliano, onde está de pé um grande sobrado, com térreo e dois pavimentos.

Atualmente, esse prédio beira ao abandono. Uma situação bem diferente dos anos 1940, quando ali ocupava um importante centro de informações da Marinha dos Estados Unidos, com forte ligação ao consulado, situado na Hermes da Fonseca. Trata-se do escritório local do “Naval Observer” (Observador Naval em uma tradução livre), que tinha por missão reportar ao comando militar as principais movimentações da cidade, sob o comando de Douglas Cook.

O observador naval Douglas A. Cook é mais um personagem que ganhou notoriedade na sociedade natalense devido a presença norte-americana no período da Segunda Guerra Mundial. Ele aparece repetidas vezes em documentos e textos entre 1942 e 1945, e substituiu Liewellyn Wimans (1941-1942) e Charles Gary (1942).

Oficialmente, o comandante Cook deveria ser um facilitador entre a sociedade civil por meio de autoridades como governador (interventor) e prefeito, e as forças armadas, no caso United State Navy (Marinha). Em 14 de abril de 1943, por exemplo, ele representou os EUA, ao lado do consul Harold Sims, na comemoração do Dia Pan-Americano na Rádio Educadora de Natal (REN), em programa dedicado à celebração dos povos do continente americano. Em outro evento, este noticiado no Correio da Manhã (RJ), em 25 de novembro de 1943, ele recebeu em sua residência na Avenida Rio Branco, 237, o ator de filmes de Hollywood e famoso pelo gênero velho oeste, Joel Mc Crea.

Extraoficialmente, Cook era na verdade um espião com autorização do Governo para atuar. Há relatos de que no prédio no Naval Observer, havia inúmeras antenas de comunicação e um movimento incomum de militares à paisana, que conduziriam investigações contra pessoas suspeitas. Em 3 de novembro de 1942, no Expediente Municipal de 27 de outubro, o próprio observador solicitou à Prefeitura, plantas atualizadas do Município de Natal, as quais foram autorizadas pelo despacho nº 3.822.

Contudo, pouco se sabe sobre o comandante Cook e o que teria acontecido com ele no pós-guerra. Contudo, uma passagem do livro “Natal, USA: II Guerra Mundial”, do autor Lenine Pinto, revela algumas considerações importantes, como disputas com o próprio General Walsh (comandante do United States Army Forces in South America) e sua estreita relação com os representantes do FBI na cidade.

Atualmente, os observadores militares atuam em região de conflito sob código de conduta da Organização das Nações Unidas (ONU) e suas resoluções, sobretudo no cumprimento de cessar fogo ou paz. Na época da guerra, quando não existia tal órgão, os observadores cuidavam realmente desse contato com as autoridades civis com objetivo de garantir o melhor funcionamento das bases militares, como aquisição de gêneros alimentícios e abastecimento.

A residência de Mrs Knabb onde os americanos se sentiam em casa

A residência de Mrs Knabb onde os americanos se sentiam em casa

O que aconteceu em Natal quando faltou hospedagem para os americanos, entre os anos de 1941 e 1945, com o auge da base de Parnamirim Field?

Ao longo dos anos, diversas pessoas falaram da grandiosidade da unidade militar e sua importância no cenário estratégico para os aliados, contudo, a presença dos militares em certo ponto se tornou um problema de logística, pois não tinha edificações suficiente para acomodar os dormitórios.

Na própria base, dezenas de áreas de camping foram adaptadas para receber centenas de barracas, pois não existia prédio de alvenaria suficiente. Na cidade, é muito comum ouvir o relato de que “os americanos alugaram casas” para abrigar seus pares, principalmente oficiais.

Um dos locais mais conhecidos era o casarão da senhora Emily (Emilie) Knabb, localizado na avenida Deodoro da Fonseca, número 456, em frente onde hoje existe um supermercado Nordestão. A hospedaria recebia os militares do Air Transport Command (ATC).

A Mrs Knabb era inglesa naturalizada norte-americana, viúva de William Knabb, funcionário da Warton & Pedroza, e mãe de dois filhos, o funcionário da Panair (ADP) Francklin William Knabb, o “Frank”, e o secretário do Consulado dos EUA, Jack Grahan Knabb.

No livro “Natal, USA: II Guerra Mundial”, o escritor Lenine Pinto descreve o local como um grande terreno, com um casarão cercado de grandes árvores mangueiras. A hospedaria chegou a ter quartos em prédio principal e um anexo, além de refeitório e quadra de basquete, para entreter os ianques visitantes. È dito ainda que a calçada era disputada pelas moças da cidade e na parte interna era muito comum encontrar as placas “keep off the grass”.

Um detalhe apontado pelo arquiteto João Maurício foi uma apresentação da orquestra das Forças Armadas USA que teria ocorrido no espaço, inclusive com participação de Tommy Dorsey, famoso maestro à época. De acordo com ele, a população natalense se aglomerou na Avenida Deodoro para acompanhar.

Com o avanço do conflito mundial no Norte da África e Europa, Natal foi perdendo importância e, consequentemente, diminuiu o número de estrangeiros. Entre 1943 e 1944, já não tinha tanta necessidade pelas hospedagens na cidade e a casa de Mrs Kannb perdeu a função e fechou.

Em breve postaremos sobre outros locais associados à segunda guerra, que não eram instalações militares.

 

Dia D: A relação de Natal com a "Operação Overlord"

Dia D: A relação de Natal com a "Operação Overlord"

Muitas pessoas não fazem ideia de como a cidade de Natal, na costa leste do nordeste do Brasil, foi relevante para o esforço o aliado durante a Segunda Guerra Mundial. A tomada da Normandia, na França, em junho de 1944, é um dos fatos que estreita essa relação de importância da base aérea de Natal, também conhecida por Parnamirim Field.

O desembarque das tropas aliadas, em 6 de junho de 1944, é considerado um dos episódios mais importantes do período e resultou na libertação da Europa que estava ocupada pelo regime nazista de Adolf Hitler. Para compreender esta afirmação, podemos exemplificar com números de meios e recursos humanos nesta operação, que recebeu o codinome de “Overlord”:

  • Mais de 7.000 navios, sendo 1.213 naus de guerra e mais de 4.000 de desembarque;
  • 132 mil homens desembarcaram nas praias;
  • 24 mil paraquedistas;
  • 10.000 veículos terrestres transportados;
  • 4.000 mortos entre os aliados, apenas no Dia D;
  • 9.000 feridos ou desaparecidos;
  • 12.000 aeronaves utilizadas entre aviões de carga e combate.

Para esse post, o que interessa é justamente o último item, pois Parnamirim Field foi amplamente utilizada, principalmente nos meses que antecederam o Dia D, no transporte de pessoal, mantimentos e aviões, sobretudo os de carga. Dezenas de esquadrões, ligados a 8ª e 9ª Força Aérea do Exército dos Estados Unidos tiveram que descer até a América do Sul, cruzar o Atlântico até a África e seguir para Inglaterra. Podemos citar os 437th, 445th e 454th Bombers Group, que operavam os C-47.

Correspondência do 454th Bomb Group enviada de Natal (Acervo Fred Nicolau / Centro Cultural Trampolim da Vitória)

O Dia D começou a ser planejado ainda no primeiro semestre de 1943 e por conta do mau tempo que obrigava o fechamento da rota norte, que saía dos EUA direto para a Inglaterra, a rota do sul passou a ser vital. Em setembro de 1943, uma correspondência do Exército americano, endereçada ao alto comando a pedido do General “George”, comandante do Air Transport Command (ATC), alertava para esta necessidade de mudança de rota já em outubro de 1943.

Os números são impressionantes, uma vez que a 8ª Força Aérea receberia 825 aeronaves, entre outubro e dezembro daquele ano. Enquanto que a 9ª Força Aérea, tinha previsão de outros 130. Ou seja, seriam quase mil, para esquadrões que operavam a partir da Inglaterra e estariam envolvidos na operação futura. Não contabilizamos os meios entregues à 20ª e 40ª Forças Aéreas do Exército, nem as fornecidas aos britânicos, chineses e russos, que também passaram por Natal ao mesmo tempo.

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