P-47 Aviação e História

75 anos do fim da guerra: Embaixador dos EUA cita Trampolim da Vitória e Rampa

75 anos do fim da guerra: Embaixador dos EUA cita Trampolim da Vitória e Rampa

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, gravou uma mensagem em homenagem aos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, na sexta-feira (8). Ele agradeceu a forte parceria entre os EUA e o Brasil no passado e no presente, citando que o Centro Cultural Trampolim da Vitória e o Museu da Rampa, em Parnamirim e Natal, respectivamente, serão equipamentos culturais que perpetuarão esta boa relação. Ao fim, ele cita a atual crise causada pela pandemia do Covid-19, relacionando com a crise causada pela guerra.

8 de maio – Dia da Vitória na Europa

8 de maio – Dia da Vitória na Europa

Os países da Europa celebram, neste 8 de maio de 2020, os 75 anos da libertação nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial, cenário onde atuou a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A rendição alemã se deu sete dias após o anúncio da suposta morte de Hitler e no mesmo dia em que os restos mortais atribuídos ao líder nazista era exumado pelos soviéticos.

No dia 2 de maio de 1945, o jornal soviético Pravda, noticiou “ontem à noite, a rádio alemã transmitiu um comunicado do suposto quartel-general do Führer afirmando que Hitler morreu na tarde do dia 1º de maio...”, segundo consta no livro A Morte de Hitler: Os arquivos secretos da KGB.

Vale lembrar que o Brasil deu sua contribuição para libertar a Europa, enviando mais de 25 mil homens para o combate, dos quais, alguns potiguares. Em 2011, a Associação dos Veteranos do RN realizou seus último eventos, e em alguns deles tivemos o prazer de ser convidados.

Fica aqui o nosso reconhecimento e agradecimento a todos estes homens.

Veteranos do Rio Grande do Norte em seu encontro de 2011 (Foto: Leonardo Dantas)

Encontro dos veteranos em 2011, no 16º Regimentoo de Infantaria Motorizada, em Natal (Foto: Leonardo Dantas)


Esq para dir: Souza, Agotinho, Joaquim e Alcindo, em 2009. (Foto: Leonardo Dantas)

Leonardo Dantas (Editor) e o pesquisador Fred Nicolau com os veteranos do RN, em 2009 (Foto: Acervo do autor)

Nota: A Segunda Guerra no Pacífico só viria a acabar em agosto de 1945, com a rendição japonesa.

[Entrevista] O sobrevivente do acidente com o B-26, sargento Santana "O Imortal"

[Entrevista] O sobrevivente do acidente com o B-26, sargento Santana "O Imortal"

Quantas pessoas você conhece sofreu um acidente aéreo e sobreviveu para contar a história? E destas pessoas, quantas saíram ilesas? E ainda passaram pela mesma experiência em poucos dias?

Pois bem, em Natal, temos o caso do sargento da Força Aérea Brasileira (FAB), Otacílio Santana, também conhecido como “O Imortal”. O primeiro acidente com ele abordo aconteceu em 9 de agosto de 1965, quando uma B-26 do 1º/5º Grupo de Aviação, de matrícula FAB 5151 caiu em uma praia urbana de Natal. Já o segundo, ocorreu com outra B-26 de matrícula FAB 5153, no dia 25 do mesmo mês e ano, no município de Niquelândia, no estado do Goiás.

P-47: O que o senhor fazia na Força Aérea Brasileira?

Sgt Santana: Na época do acidente? Bem, eu era sargento especialista em armamentos, por isso, estava a bordo do avião.

P-47: Qual era este avião?

Sgt Santana: A aeronave era um B-26, um avião da época da segunda guerra, mas muito utilizado aqui no Brasil. Não era tão grande como a fortaleza voadora – a B-17 – mas era usado como bombardeiro e tinha metralhadoras também. Aqui, tinha o 5º Grupo de Aviação (1º/5º Gav), que auxiliava na formação dos aspirantes.

P-47: Quem estava no avião?

Sgt Santana: O comandante era o capitão aviador Peixoto (Adolfo Peixoto de Melo), o tenente Carlos Schimidt (Carlos Schimidt Filho) e eu, como sargento especialista.

P-47: Como foi o dia antes de acontecer o acidente?

Sgt Santana: Era um dia normal na Base Aérea de Natal. Voamos pela manhã, cumprindo missão de treinamento no campo de Capim de Macio. Neste local, tinha umas bandeiras enormes que serviam de alvo. O piloto ganhava altitude, realizava um mergulho para simular o ataque e logo em seguida subia novamente. Lembro que na manhã, eu questionei o comandante se não iríamos levar o material de salvamento no mar e rispidamente ele me respondeu que “íamos voar em terra e não no mar”. Lembro muito bem que teve essa indisposição comigo momentos antes.

P-47: O que aconteceu em seguida?

Sgt Santana: Na parte da tarde, fomos continuar o treinamento e chegamos a realizar alguns mergulhos – três bem sucedidos - , mas em um deles assim que o comandante tentou recuperar a altitude, os motores pararam ao ponto de ter velocidade apenas para ultrapassar as dunas e ele virar para a esquerda em uma curva bem aberta, em direção onde hoje tem a Via Costeira.

P-47: Os dois motores pararam de uma vez?

Sgt Santana: Sim. Logo ficou um silêncio e bateu uma sensação, que não sei explicar bem. Me sentei no meu assento e me amarrei [colocou o cinto]. Mas sim, as duas hélices pararam.

P-47: Quem tomou a decisão de tentar um pouso na água?

Sgt Santana: O comandante comunicou que estava sem os motores e iria tentar levar a aeronave até um descampado na Barreira Roxa – onde hoje existe o hotel do Senac Barreira Roxa. Neste local tinha um descampado com uma areia avermelhada bem dura, que poderia receber um pouso de emergência. Mas o avião ganhou muita velocidade ao perder altitude e passamos muito rápido quando chegamos neste local, ao ponto que vimos o farol de Mãe Luiza passando ao nosso lado esquerdo.

P-47: Nos jornais da época, cita que a aeronave desviou do farol de Mãe Luiza para não se chocar, então isso não ocorreu?

Sgt Santana: Com certeza paramos muito próximo ao farol, mas como eu disse, o piloto mal tinha controle do avião, então não foi bem assim que aconteceu.

P-47: E como o piloto decidiu pousar na água?

Sgt Santana: Ele tinha dito que iria pousar em terra, então nos preparamos para o impacto. Quando ele disse que não iria conseguir pousar ali onde esperávamos, e falou em jogar na água pois não tinha o que fazer mais, me deu um medo muito grande, principalmente, porque não estávamos com os equipamentos de salvamento para água e eu pensava muito nos coturnos, que dificultavam muito para nadar. O B-26 ia muito rápido e baixo, que ao passar pela Ponta do Morcego quase arrancamos o telhado de um restaurante muito conhecido na época. Foi tão rápido a decisão que agi por instinto.

P-47: O que aconteceu quando vocês caíram na água?

Sgt Santana: Com a experiência de quem já caiu na água e na terra, eu afirmo que na água o impacto é muito maior. Em terra, o avião bate e desliza e na água é como bater em muro de concreto (Em 25 de agosto de 1965, no município de Niquelândia, o sgt Santana estava a bordo de outro B-26 que se acidentou, apenas 14 dias após o primeiro acidente). O avião bateu e o piloto ainda tentou virar o nariz em direção à praia, que estava a uns 200 metros de nós. Senti o impacto e por algum tempo – pouco tempo – fiquei desorientado ao ponto de afundar alguns metros na água ainda dentro do avião. Minha preocupação era as botas, mas não deu tempo de tirar e ainda estava preso pelo cinto, quando consegui me soltar e procurar uma saída.

P-47: Ao chegar na superfície você viu os outros tripulantes?

Sgt Santana: Quando cheguei na superfície vi o capitão e o aspirante – que tinha sido promovido a tenente dias antes -, e o capitão disse que não sabia nadar, mas de algum modo estava boiando, então decidimos ir nadando até a praia. Me lembro que foquei em chegar na margem e nadei com todas as forças, contudo, o mar estava “brabo”, com algumas ondas e era como se não conseguíssemos avançar. Eu vi umas pedras e queria a todo custo chegar lá, pois na minha cabeça eu conseguiria me agarrar e tirar as botas, que nesta altura já estavam cheias de água e pesadas.

P-47: O senhor conseguiu chegar a esta pedra?

Sgt Santana: Há poucos metros de chegar e já com algum cansaço, eu percebi três homens se aproximando de mim no mar, eram pescadores da praia que viram o acidente e vinham me ajudar. Um ou dois deles, disse logo para o outro não se aproximar, pois havia o receio de que eu puxasse eles para abaixo e todos se afogariam. Ora, eu que tinha experiência de nado em açude quando criança, que atravessava um rio com a roupa na cabeça para não molhar, cuidei logo de dizer que sabia nadar e pedi ajuda só para tirar as botas. Eles me ajudaram e acho até que um deles me ajudou a nadar para fora da água.

P-47: Gostaríamos de agradecer ao senhor pelo relato. E saber como foi sua recuperação?

Sgt Santana: Fui para o hospital e depois para casa, onde passei 10 dias. Logo em seguida entrei em missão de novo, foi quando houve a segunda queda, desta vez em Niquelândia/GO. Ganhei o apelido de “O Imortal”(risos).

Nota do editor: Mais uma vez agradecer ao sargento Santana por colaborar com esta publicação. Sem dúvida uma das lendas vivas envolvendo a história da aviação no RN.

Os heróis civis que ajudaram na tentativa de resgate do B-26 "Invader"

Os heróis civis que ajudaram na tentativa de resgate do B-26 "Invader"

O acidente envolvendo o B-26 FAB5151 revelou algumas histórias impressionantes, como de um menino de 10 anos que entrou no mar para tentar salvar os tripulantes, o esforço de pessoas comuns que também se lançaram ao mar colocando em risco suas vidas e o trabalho voluntário de uma mulher na busca e resgate dos destroços e dos corpos.

O primeiro relato é do garoto Walmir Candido Garcia, que juntos de seus irmãos Ivan e Galego, filhos de Caindão e dona Nenêm, proprietários de uma peixada nas proximidades. Walmir era gazeteiro do Diário de Natal e teria sido testemunha ocular do acidente, ao ponto de avistar os tripulantes na água, quando decidiu entrar no mar com uma boia, chegando a alcançar o sargento Santana, tentando ajudá-lo a retirar as botas, e ainda avistou os demais, mas sem chance de resgate. Informação extra-oficia é que algum tempo depois, o comando da BANT convidou-o para uma solenidade em reconhecimento ao ato heróico.

Entre os mergulhadores voluntários, destaque para a participação da mergulhadora Dora Furtado que participou ativamente na busca da fuselagem e dos corpos dos oficiais, até então desaparecidos. De acordo com relato da época, ela era mergulhadora do Clube de Pesca Pampano e desceu inúmeras vezes no local do acidente.

Mergulhadores que ajudaram a localizar os destroços do avião (Foto: Diário de Natal, 11.08.1965)

Ao todo, foram mais de dez mergulhadores envolvidos, entre eles, os irmãos Floriano e Waldemar Matoso, que ajudaram acompanhados dos outros três familiares. Eles localizararam o bombardeiro o  FAB 5151 sob a água e fixaram as boias de localização.

Links relacionados:

O B-26 que caiu em uma praia urbana de Natal

O B-26 "Invader" antes do acidente

[Foto] O B-26 "Invader" FAB 5151 antes do acidente

[Foto] O B-26 "Invader" FAB 5151 antes do acidente

Esta foto é do bombardeiro B-26 FAB5151 retratado no post sobre a queda do avião em uma praia urbana de Natal, em 9 de agosto de 1965. A imagem foi cedida pela Underthe Southern Cross Foundation (UTSCF), instituição parceira que também pesquisa a história da aviação no RN.

O B-26 “Invader” era considerado um bombardeiro leve, desenvolvido ainda nos anos 1940 com a denominação americana de A-26. A FAB adquiriu um lote de 28 exemplares em 1957, tornando-se a terceira força aérea do mundo com maior número operando este tipo de aeronave, depois dos Estados Unidos e França.

O avião era equipado com dois motores, possuía uma envergadura de 21 metros, pouco mais de 15 m de comprimento e 5,64 metros de altura. Nas duas versões utilizadas pela FAB, “B” e “C”, variava o tipo de armamento, contudo, era basicamente metralhadoras “Browning” M2 de 12,7mm no nariz e até 3.629Kg de bombas no compartimento interno da fuselagem e asas.

B-26 FAB 5156 restaurado na Base Aérea de Natal (Foto: Raphael Brescia - Cedida)

Mais fotos do B-26 FAB 5156 (Foto: Leonardo Dantas)

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