Desde sempre que os periodistas de jornal escrito - hoje colunistas de blogs ou jornais on line - dão seus palpites sobre as mais variadas situações e lançam previsões sobre o futuro do país.

Lá pelo início do século XX não era diferente. O futebol ainda era uma realidade oscilante. Inúmeros clubes já haviam sido fundados e os campeonatos eram frequentes, embora ainda de forma amadora e com um olhar preconceituoso por parte da sociedade. A década de 20 foi o período de transição do amadorismo absoluto para o profissionalismo dos atletas de futebol.

Como revelou Nelson Motta, “os domingos eram destinados às regatas na enseada de Botafogo, o esporte mais popular da época, enquanto o futebol começava como esporte inglês de playboys e mauricinhos”. 

E foi com esse olhar atravessado para o chamado esporte bretão que o escritor Graciliano Ramos defendeu, ao assinar crônica em 1921, que o futebol era moda passageira e ele não acreditava que o brasileiro se apegasse àquele jogo. Creditou a personalidade bronca do brasileiro a sua descrença.

“Mas por que o football?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis, ou não”.

Na mesma crônica, o escritor patriota vaticinou que o ‘football’, o turfe e o boxe, como estrangeirices, não teriam maior prazo de validade e, em nome da cultura brasileira, pediu aos jovens que resgatassem atividades nacionais que andavam esquecidas naquele tempo como a queda de braço e a rasteira.

É bem verdade que somente ao sermos anfitriões da Copa de 1950, o futebol passou a ser ligado ao estilo brasileiro, aliando-se ao carnaval e ao samba e fazendo a trilogia do gosto nacional.

Porém, exatamente um século depois, ao ser o Brasil o berço do maior jogador de futebol de todos os tempos, de ser cinco vezes campeão mundial e conhecido mundialmente como “o país do futebol”, não há como deixar de considerar a antevisão do célebre autor de “Vidas Secas” uma grande ironia.

Perdeu a queda de braço e ainda levou uma rasteira do futebol.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Leandro Narloch); “De Cu pra Lua: Dramas, Comédias e Mistérios de Um Rapaz de Sorte” (Nelson Motta); http://graciliano.com.br/site/2013/01/a-rasteira-de-graciliano-ramos-no-futebol/