Há coisa de dois meses perdi um bom colega de profissão, a quem conhecia há pouco mais de duas décadas e com quem, há certo tempo e mais ainda após a pandemia, trocava impressões sobre questões acadêmicas, leituras, etc.

Por sugestão dele comecei a ler Artur Schopenhauer, filósofo alemão que viveu entre 1788 e 1860 e influenciou gênios como Nietzsche, Wagner e Tolstoi e mesmo Goethe, primoroso poeta e seu contemporâneo, que, apesar de quase silente sobre o filósofo, chegou a fazer referências a ele, notadamente sobre a importância dada à intuição como forma de conhecimento.

Schopenhauer foi um misantropo em essência e sua misantropia teve provavelmente origens familiares, pois era filho indesejado de um bom mas ausente pai e de uma mãe que, embora escritora de sucesso, era superficial e mesmo frívola e tinha ciúmes do talento do filho. Solitário por toda a vida, afastou-se dos filósofos que foram incensados em seu tempo, entre eles o imenso Hegel, voltando-se para os antigos, Platão e Aristóteles à frente, e os modernos como Locke, Espinosa e Hume.  A solidão e a misantropia também o afastaram do patriotismo e do nacionalismo marcial alemão de sua época. ( https://sites.google.com/site/incensuraveis/a-obsessao-de-schopenhauer).

Em O mundo como vontade e representação, publicado em 1818, dois pontos estão bem nítidos na filosofia de Schopenhauer: sua aversão a uma ética do dever incondicionado e de uma lei da liberdade. Segundo suas palavras são “de fato uma contradição flagrante denominar a vontade livre e, no entanto, prescrever-lhe leis segundo as quais deve querer: ‘dever querer!’, ferro-madeira!”.

Na epistemologia de Schopenhauer, há diferença entre vontade e representação, pois o mundo possui duas naturezas que se complementam a si mesmas e mutuamente, que são a vontade como instância-em-si do mundo e a representação, que é apenas seu fenômeno. A vontade é livre, mas apenas no âmbito do fenômeno se estabelece a determinação necessária sem possibilidade para a liberdade individual, pois o sujeito é também fenômeno e, desta forma, determinado. Logo, livre apenas em seu caráter inato, que faz parte da vontade como coisa-em-si. Porém, a vontade é una e para ela não há diferenças individuais e, assim, só há individuação no fenômeno e o indivíduo não pode inverter a ordem de importância e determiná-la.(https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/searafilosofica/article/download/6870/5968)

Há pelo menos duas décadas eu não confio muito na humanidade. Nos últimos cinco ou seis anos as minhas desconfianças aumentaram a grande velocidade. A pandemia e a leitura de Schopenhauer potencializaram o processo. Estou quase um misantropo, com vontade de me manter afastado de quantidade cada vez maior de pessoas (de alguns "amigos", então, prefiro nem ouvir falar), mas preso a fenômenos que a cerceiam. Por isso, estar a léguas de gente por quem tenho pouco ou nenhum respeito e/ou consideração é apenas uma vã e distante possibilidade.

Estamos todos falando e escrevendo sobre Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e cia, e esquecemos de olhar nosso quintal particular. O particular, para que não comecemos a falar de Álvaro Dias e Fátima Bezerra, é menor do que a tribo e a aldeia. É só mesmo a cabana ou choupana na qual passamos a maior parte do tempo. É ali, também, onde se praticam e se consolidam, individual e coletivamente, os erros que hão de moldar a unidade na qual todos estamos. O respeito a regras básicas de convivência é aprendizado da cabana e da choupana.

Gasta-se mal o nosso rico dinheirinho nos palácios de governos municipais, estaduais e federal, nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas, na câmara de deputados e no senado federal, todos sabemos. Mas se metade de nós soubesse como é mal gasta a verba pública que chega ao andar de cima de nossas cabanas e choupanas, como é mal gerida e, em casos específicos, como é devorada por espertalhões que se apresentam como bons colegas e/ou diligentes gestores do dinheiro público, ficaríamos abismados. Não é muito difícil reparar os danos, basta um olhar diligente para as coisas que nos cercam e estão próximas de nós.

O azinhavre do dinheiro público está nas mãos de muitas vestais do andar de baixo, inclusive e principalmente dos fiscais do comportamento alheio.

Parafraseando Tolstoi, o fenomenal escritor russo e discípulo de Schopenhauer: se quer conhecer bem o mundo, comece por sua aldeia.