Semana passada, no vácuo das discussões políticas sobre a ocorrência ou não da Copa América, vi uma declaração de Tite tão vazia de significado quanto o sonolento e amarelo hepático futebol da seleção brasileira. Disse o treinador do selecionado nacional que “Gabriel Barbosa me dá uma flutuação e infiltração de espaço para finalização. Jesus produziu muito pelo lado. Foi um destaque nosso na Copa América. Também ataca o espaço, muita força. Richarlison também dá isso. Firmino é um 9 que exerce o papel de 10. Esses jogadores vão te dando essas possibilidades de utilização dentro de uma determinada forma.”  

Tite é dado a essas manifestações vazias e a falas empoladas que nada dizem. Não é o primeiro que ocupou o cargo de treinador da seleção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) falando muito e confundindo mais ainda. Só para citar os que vi na linha titeana, Sebastião Lazaroni, treinador do Brasil entre 1989 e 1990, é um dos mais destacados. Criou uma linguagem que a imprensa esportiva chamava de lazaronês. Quando queria dizer que um jogador precisava evoluir, dizia Lazaroni que “Fulano tinha de galgar parâmetros.”

Ouso dizer que o lazaronês, a forma empolada de falar sobre futebol, foi um dos maiores legados de Sebastião Lazaroni. Sua oratória quase incompreensível é farta e largamente utilizada por treinadores como Vanderlei Luxemburgo, Emérson Leão, Renê Simões e o atual treinador da seleção brasileira, Tite.

O mal, ressalto, está para além dos treinadores, contaminando a crônica esportiva. Assistir a mesas-redondas nas televisões brasileiras é um exercício de paciência. Primeiro, porque a crônica esportiva veste-se cada vez mais com o figurino da crônica política. Segundo, os cronistas adotaram um vocabulário com palavras já existentes para dizer coisas que já existiam: atacante de beirada era aquele que chamávamos de ponta; transição era antes avançar ou até mesmo atacar; marcação alta seria a antiga marcação por pressão. Quando juntam tudo isso num comentário, entremeado por frases empoladamente elaboradas, a análise nada diz ou se diz alguma coisa quase ninguém entende.

João Saldanha, o homem que fez a semana de arte moderna na crônica esportiva, Sandro Moreyra, Nélson Rodrigues e outros que atuaram comentando sobre futebol no Brasil, bateriam com mão na mesa ou destilariam ironia sempre que ouvissem algumas das sumidades atuais da mídia esportiva brasileira deitando falação oca e incompreensível, por vezes para mascaram o desconhecimento do assunto sobre o qual discorrem.

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Semana passada, as bolhas ideológicas se manifestaram freneticamente. O assunto era o antigo ópio do povo brasileiro, futebol. Nem era futebol mesmo, mas a possibilidade de a Copa América ter, de última hora, o Brasil como sede.

Na torcida pelo boicote ou não dos jogadores da seleção brasileira à Copa América, o caminho das críticas seguiu o complexo caminho das vias binárias. Os jogadores seriam 1) comunistas, petistas, lulistas, recuperaram a camisa da seleção para o povo, etc, caso se recusassem a jogar o torneio continental ou 2) bolsonaristas, alienados, mercenários, etc, se aceitassem envergar o uniforme da seleção e participassem do convescote ludopédico.

Fui e sou contra a Copa América no Brasil, porque, primeiro, não concebo este torneio sendo disputado a cada dois anos e, segundo, porque não dá para rebolar no nosso colo um evento faltando dez dias para o início.

Mas eu sou um neutro, segundo os frequentadores e torcedores alojados na bolha.

Esse pessoal ainda me manda para o inferno. Com passagem só de ida. E eu vou, só para ficar longe deles.