A esquerda adora mitos popularescos, notadamente quando vêm tocados por fundamentos ideológicos. Por isso fazem sucesso estrondoso os exemplos que descrevo abaixo.

Evo Morales foi o primeiro índio a chegar à Presidência na Bolívia.

Lula, o primeiro operário a ocupar o Palácio do Planalto, no Brasil.

Nicolau Maduro o primeiro motorista a dirigir os rumos venezuelanos.

A lista poderia ser infindável.

Dos citados acima, apenas Lula andou, durante a maior parte do seu período presidencial, nos trilhos da racionalidade política e, principalmente, econômica.

Há quem não toleram que sejam citadas a origem étnica e a origem social (a primeira, dizem, configuraria racismo e a segunda, preconceito social), mas fazem festa quando há referências à vitória de Morales, de Lula e de Maduro.

Eles, para esse pessoal, são a prova viva de que novos preceitos políticos, econômicos e sociais estiveram na ordem do dia neste rincão chamado América Latina.

Não há dúvida de que a vitória de Morales, Lula e Maduro são conquistas pessoais imensas.

A sagacidade política certamente desempenhou papel decisivo na vitória pessoal que conquistaram. Porém, não convém imaginar que o exercício da Presidência da República é algo que costumeiramente se consiga com sucesso sem que se passe por um processo de educação mais elaborado. O índio, o operário e o motorista não são dotados de uma sensibilidade superior para gerir os negócios de Estado pelo fato de serem índio, operário e motorista.

A esquerda, é bom que se assinale, não gosta de fórmulas testadas e bem sucedidas. Desdenham experiências meritórias se fugirem minimamente aos ditames das cartilhas revolucionárias ou ultra-reformistas. Por isso, o Chile e a Colômbia, cada um a seu tempo, foram acusadas de aplicarem preceitos neoliberais.

Ainda que funcionem na prática, são neoliberais e, por isso, devem ser combatidos.

Também há os que desdenham de experiências bem-sucedidas, no campo econômico, ocorridas no Brasil, se elas não seguiram os ditames da cartilha intervencionista, nacionalista e estatista.

Qual a cartilha que os revolucionários, resistentes e ultra-reformista  atacam?

Privatizações, disciplina fiscal e busca por aumento de produtividade. Tudo o que, de certa forma, o Brasil adotou e pavimentou o caminho para os anos de crescimento do governo Lula.

Quando o Presidente operário abandonou parcialmente a cartilha, digamos, neoliberal, legou à sua sucessora um regime que se diluiu – com inflação ascendente, queda de produtividade e ameaça de recessão, sintomas ainda presentes no quadro econômico, mesmo antes da emergência da Covid-19.

A esquerda propõe, grosso modo, uma maré intervencionista e estatista para os males econômicos e sociais da América Latina, com a adoção de um nacionalismo ultrapassado, fechamento econômico, democracia direta e caneladas no imperialismo (?!), principalmente o norte-americano.

É caminho para o caos, lugar sempre próximo e para onde a América Latina teima em voltar de tempos em tempos.  

Ali viveremos mil anos de solidão, dez vezes mais do que o titulo de Gabriel Garcia Marques, gênio sublime da literatura latino-americana que tomou o bonde errado da história, ao contrário do seu rival político e literário Mário Vargas Llosa.

A América Latina só sairá da maré de atraso em que teima em ficar se revogar a retórica atrasada e tomar aquilo que o saudoso Mário Covas propôs na eleição presidencial de 1989: um choque de capitalismo.

Um dia a conta da inépcia e da demagogia bate à porta e a região terá de enfrentar o desafio.