A esquerda adora mitos popularescos, ainda quando vêm tocados por fundamentos ideológicos. Por isso fazem sucesso estrondoso os exemplos de Lula, Evo Morales, Nicolas Maduro, entre outros.

Evo Morales foi o primeiro índio a chegar à presidência da república na Bolívia. Lula, o primeiro operário a ocupar o Palácio do Planalto, no Brasil. Nicolas Maduro o primeiro motorista a dirigir os rumos venezuelanos. Cristina, a primeira boneca a sentar na cadeira presidencial argentina. A lista poderia ser infindável. Dos citados acima, apenas Lula andou nos trilhos da racionalidade política e, principalmente, econômica. Principalmente no primeiro mandato.

Há quem não tolere que se faça menção à origem étnica e à origem social (a primeira, dizem, configuraria racismo e a segunda, preconceito social) das pessoas, mas fazem festa quando há referências à vitória de Morales, de Lula e de Maduro. Eles, para esse pessoal, são a prova viva de que novos preceitos políticos, econômicos e sociais estiveram na ordem do dia nos rincões latino-americanos.

Não há dúvida de que a vitória de Morales, Lula e Maduro são conquistas pessoais imensas. A sagacidade política certamente desempenhou papel decisivo na vitória pessoal que conquistaram. Porém, não convém imaginar que o exercício da presidência da república é algo que costumeiramente se consiga com sucesso sem que se passe por um processo de educação mais elaborado. O índio, o operário e o motorista não são dotados de uma sensibilidade superior para gerir os negócios de Estado pelo fato de serem índio, operário e motorista.

A esquerda, é bom que se assinale, não gosta de fórmulas testadas e bem sucedidas. Desdenham experiências meritórias se fugirem minimamente aos ditames teóricos das cartilhas revolucionárias ou ultra-reformistas. Por isso, o Chile e a Colômbia foram acusadas de aplicarem preceitos neoliberais. Ainda que funcionem na prática, são neoliberais e, por isso, devem ser combatidas e mesmo demonizadas.

O que fizeram o Chile e a Colômbia?

Privatizações, disciplina fiscal e buscaram aumento de produtividade. Tudo o que, de certa forma, o Brasil adotou e pavimentou o caminho para os anos de crescimento do governo Lula.

Quando o presidente-operário abandonou parcialmente a cartilha, digamos, neoliberal, legou à sua sucessora um regime que se dilui – com inflação ascendente, queda de produtividade e ameaça de recessão.

As revoltas que varrem o Chile há quase um ano demonstra, segundo já li e ouvi, que há hoje uma retomada da maré socialista varrendo a América Latina, com a adoção de um nacionalismo ultrapassado, fechamento econômico, democracia direta e caneladas nos Estados Unidos. É caminho do caos, lugar para onde a América Latina teima em voltar de tempos em tempos.  Ali viveremos mil anos de solidão, dez vezes mais do que o título clássico do colombiano Gabriel Garcia Marques, ele mesmo um gênio da literatura latino-americana que tomou o bonde errado da história, ao contrário do que fez o seu rival político e literário Mário Vargas Llosa.

A América Latina só sairá da maré de atraso em que teima em ficar se revogar a retórica atrasada e tomar aquilo que o saudoso Mário Covas propôs na eleição presidencial de 1989: um choque de capitalismo.

Um dia a conta da inépcia e da demagogia bate à porta e a região terá de enfrentar o desafio.