Há anos demonizado por quem nunca o leu, o escocês Adam Smith foi o criador de uma obra monumental e dos alicerces do pensamento econômico. Qualquer que seja a corrente do pensamento econômico, ele estará lá, na base. Por isso é um pensador que, como poucos, ultrapassa a barreira do tempo.

Smith, amigo de David Hume, com quem aprendeu muito sobre Filosofia, sofisticando os argumentos, foi um dos principais pensadores do século XVIII, professor inicialmente de Lógica e depois de Filosofia Moral, tendo escrito uma obra de referência sobre o tema, “Teoria dos Sentimentos Morais”, que o alçou à condição de estrela de primeira grandeza no mundo intelectual.

A Filosofia Moral era uma disciplina de concepção extremamente abrangente naquele tempo, pois englobava Teologia Natural, Economia Política, Ética e Jurisprudência.

Intelectualmente reconhecido, fez sucesso também por uma personalidade marcada pela distração.

Na década de 1760 passou uma temporada na França, onde começou a trabalhar no esboço de um tratado de economia política – assunto de suas aulas e bastante discutido com David Hume – que revolucionou o pensamento econômico e foi a sua grande obra.

A “A Riqueza das Nações” foi concebida quase que como um libelo contra as políticas comerciais britânicas, que, segundo ele, enfraqueciam as colônias, desviavam a energia da nação e afundavam em rivalidade os países da Europa.

A obra foi também pensada como uma espécie de contraponto ao trabalho de François Quesnay, principal expoente da fisiocracia e outro monstro do pensamento econômico, a quem Smith teria dedicado o livro.

Quesnay, médico de Mme. Pompadour e doutor da corte de Luís XV, era o maior pensador econômico francês e responsável pela elaboração de um esquema de explicação para o funcionamento da economia denominado de “tableau économique”, proposta que se  opunha à ideia de que a riqueza de um país estava associada ao acúmulo de ouro e prata.

Para o francês, a riqueza econômica originava-se da produção e espalhava-se pelo país.

As ideias de Quesnay, segundo Smith, beiravam à perfeição, mas traziam consigo um entrave para o correto entendimento acerca dos motivos pelos quais um país enriquece, a saber, a ideia de que apenas o trabalhador agrícola produz a verdadeira riqueza e que os trabalhadores da indústria e do comércio alteravam de forma estéril a sua forma.

Precursor dos princípios liberais econômicos, Quesnay falhou enormemente ao descrever o setor industrial como desempenhando apenas uma manipulação estéril da natureza.

Não considerar que o trabalho em qualquer setor poderia produzir riqueza foi o erro que lançou Quesnay à vala comum dos que dão contribuição para o desenvolvimento da ciência, mas que não adquirem o status de ícones do pensamento científico.

Perceber o erro do mestre e corrigi-lo de maneira sublime foi o diferencial de Smith, o ato que o alçou à condição de quase divindade do pensamento econômico.   

Os pensadores que lançaram as bases do liberalismo clássico apontavam a sociedade como algo de extrema utilidade. Para eles, o homem tinha, por mais individualista que fosse, um espírito gregário e uma necessidade premente de segurança coletiva. E, acima de tudo, em se tratando de questões referentes à produção e à distribuição de riqueza, percebia as vantagens econômicas da distribuição do trabalho. Tais pressupostos não seriam possíveis se os homens não vivessem em sociedade.

A divisão do trabalho ocupava (e ocupa) um lugar de destaque na doutrina liberal clássica. Sua posição estava (e está) centrada na suposição de que o egoísmo é inato ao homem e na ideia de que os homens, principalmente os de negócios, deveriam (devem) ser livres para dar asas às suas pulsões egoístas.

A pressuposição de que os homens são egoístas foi levantada no alvorecer da modernidade pelo pensador inglês Thomas Hobbes. Para ele, se não houvessem mecanismos coercitivos, os homens se lançariam uns sobre os outros num estado de guerra que a todos exterminaria. Para Hobbes, nesse estado, a vida do homem seria “solitária, pobre, torpe, bestial e curta”. Havia, porém, uma forma de a isso escapar, dizia o pensador inglês – a instauração de um poder absoluto ao qual todo homem deveria obediência em troca de proteção contra a ameaça representada por outros homens.

As pretensões de liberdade preconizadas pelos liberais clássicos chocavam-se com os ensinamentos de Hobbes.

Adam Smith resolveu com maestria o enigma hobbesiano. Sem negar a existência da competição e da rivalidade geradas pelo egoísmo inato e irrestrito dos homens, ele advogava que as relações de competição eram benéficas para os indivíduos e para a sociedade.

Adam Smith disse que os indivíduos esforçam-se “continuamente para encontrar o emprego mais vantajoso para o capital, seja ele qual for (...)”. Todo indivíduo que não tiver capital, buscará uma ocupação remunerada que lhe traga o maior retorno monetário possível. Logo, afirmava o mestre escocês, se capitalistas (ele não usa o termo, quem o faz sou eu) e trabalhadores ficassem entregues às leis que regulam o funcionamento do mercado, o interesse de cada um levá-los-ia a empregar seu capital ou seu trabalho onde este fosse mais produtivo e mais rendoso. Por isso Adam Smith era contrário a toda e qualquer forma de intervenção – na forma de autoridade, lei, etc – que estabelecesse o que deveria ser produzido.

Sendo assim, os produtores das mais diversas e variadas mercadorias devem, ensinava Smith, concorrer no mercado e disputar a preferência e o dinheiro dos consumidores. Aquele que oferecer o melhor produto pelo preço mais baixo atrairá os consumidores. “Não é da benevolência”, afirmou com autoridade o criador da Ciência Econômica, “do açougueiro, do cervejeiro, do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com o seu próprio interesse”, pois é o interesse próprio, fruto do egoísmo, que levará cada capitalista a aprimorar a qualidade de suas mercadorias. Vender o melhor pelo menor preço possível significará o aumento das vendas e, consequentemente, o aumento dos lucros.

Ler Adam Smith com mais atenção nos livraria do ranço que o define como defensor, a soldo, dos capitalistas britânicos.

Apesar de ser em todos os sentidos um grande livro, “A Riqueza das Nações” não é propriamente uma obra original, visto que toma emprestada uma visão de mundo de uma longa lista de pensadores, tais como Petty, Locke, Turgot, Quesnay, Hume e vários outros. Mas onde todos estes lançaram impressões esparsas sobre temáticas econômicas, Smith refletiu amplamente, lançando luzes sobre todo o cenário econômico – descrevendo da especialização do trabalho numa fábrica de alfinetes aos últimos distúrbios nas colônias americanas, assunto ao qual Smith recorreu a Benjamin Franklin.

Para Smith, as treze colônias, uma nação formidável “que, sem dúvida, prometia se transformar na maior e mais formidável do mundo”, iriam desempenhar papel de destaque em futuro não muito distante.

O livro é a um só tempo denso e revolucionário. Denso porque escrito para expor uma doutrina eficiente para dirigir um império – e não simplesmente para fomentar discussões acadêmicas. Revolucionário porque em pleno processo inicial de consolidação e expansão do capitalismo, não se mostra como um apologista do burguês empreendedor, mas como um admirador do seu trabalho embora desconfiado de seus motivos, sendo a sua preocupação maior promover a riqueza pela nação inteira, só possível com a produção das mercadorias que todas as pessoas da sociedade consomem.

De certa forma, a necessidade de produzir mercadorias em grande número e de boa qualidade inibirá as forças centrífugas da sociedade, pois é do egoísmo que nascerá a coesão social, ou seja, é do interesse individual que são atendidos os interesses do grupo, sem necessidade de qualquer autoridade política.

Como isso seria possível?

Para o pensador escocês, haveria uma mão invisível responsável por orientar as paixões e as vontades individuais na direção de algo benéfico “para o interesse da sociedade inteira”. É dessa proposição que ele formula os pressupostos das leis do mercado, parte integrante de leis maiores que causam a prosperidade ou a queda da sociedade.

As leis de mercado nos apontam que a influência de algum costume numa dada estrutura social traz resultados previsíveis. O egoísmo individual em um ambiente tomado por indivíduos motivados leva à competição – o que significa a produção das mercadorias que a sociedade quer, nas quantidades que exige e nos preços que está apta a pagar.

Isso ocorre porque o interesse e o egoísmo dos indivíduos agem como um poder orientador para dirigir os homens a qualquer trabalho que a sociedade esteja disposta a recompensar. Também porque a competição entre os indivíduos egoístas agiria como um fator regulador, amainando os efeitos nocivos, para a sociedade, do egoísmo individual. Como cada indivíduo quer tirar vantagem de seu companheiro de cobiça, aquele que perder o interesse próprio logo descobrirá que outros competidores ocuparam o lugar dele. O que a primeira vista poderia significar o caos renderia um quadro de harmonia social. Desobedecer a esses imperativos significa, conforme Smith, a ruína econômica.

No período em que Adam Smith escreveu “A Riqueza das Nações”, o mundo social e econômico funcionava dessa forma, visto que o ambiente econômico era de grande competição, com vários pequenos produtores se enfrentando num mercado extremamente atomizado. Um mundo bem diferente do de hoje.

Ainda assim, as ideias de Smith, escritas para explicar o mundo do século XVIII, ainda podem ser aplicadas, com ajustes, no mundo atual.