Fui, por quase duas décadas, um engajado militante das causas progressistas, para usar termo que parte da esquerda quando quer esconder o que realmente defende ou quando quer posar de preocupada com o bem-estar dos que considera desvalidos.

Fui saindo, aos poucos, do ninho quando me deparei com escritos de Mário Henrique Simonsen. Um deles me chamou particularmente a atenção, ao apontar que no Brasil os gestores públicos não aprendem com as experiências: “Aqui, implementa-se uma política e ela fracassa. Muda-se ou ajusta-se o caminho? Não. Insiste-se no erro, esperando que o resultado seja diferente. Mesmo que se colha novo fracasso, tenta-se a mesma política pela terceira vez, porque, quem sabe, a realidade adeque-se às nossas pretensões”. Ele denominou a bobajada como princípio da contraindução, o oposto do princípio da indução, em que a regularidade do resultado permite inferir que existe uma regra. Trocando em miúdos: se uma experiência deu errado em “n” tentativas, dará certo na enésima primeira.

Apesar de ter inicialmente me fascinado por Mário Henrique Simonsen, quem mudou de vez meu azimute intelectual foi o diplomata e economista Roberto de Oliveira Campos, a quem eu passei uns dez anos chamando jocosamente, como todos que o achincalharam sem o terem lido, Bob Fields.

Além de um diplomata e economista excepcional, integrante da delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods, quando foram instituídos o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, assessor econômico do governo Getúlio Vargas, um dos idealizadores da Petrobras, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – BNDE (depois Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES), embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Inglaterra, ministro do Planejamento, senador e deputado federal, Roberto Campos foi um grande intelectual e um frasista como poucos.

Vejam seis deliciosas tiradas do mestre Bob Fields:

1) “O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.”

2) “Nossa Constituição é uma mistura de dicionário de utopias e regulamentação minuciosa do efêmero.”

3) “O doce exercício de xingar os americanos em nome do nacionalismo nos exime de pesquisar as causas do subdesenvolvimento e permite a qualquer imbecil arrancar aplausos em comícios.”

4) “O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam.”

5) “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. São os filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola.”

6) “Fui um bom profeta. Pelo menos, melhor que Marx. Ele previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do socialismo.”

As seis têm um fio condutor: são uma crítica à sanha estatista e à hipocrisia de parcela da elite (econômica/artística/intelectual) brasileira, que vive de maldizer um sistema do qual ela é uma das maiores beneficiadas, enquanto atua para, a despeito de discursos e proclamações inclusivas, marginalizar os pobres e deserdados.

Se vivo fosse, Roberto de Oliveira Campos teria 105 anos.

Mais de um século de atualidade.