Não existem instituições e organizações, públicas ou privadas, livres da corrupção, simplesmente porque a corrupção é inerente às organizações/instituições e às pessoas. Logo, o maior desafio do Brasil é forjar atitudes que tratem de reprimi-la e, portanto, minorá-la.

Dos faraós egípcios e patesis mesopotâmicos, passando por imperadores persas e romanos e chegando ao papas medievais e aos reis e presidentes e primeiros-ministros da atualidade, a corrupção esteve presente em todos os momentos. Em alguns, foi endêmica e, nos dias atuais, diminuiu em muitas localidades porque organizações e instituições sólidas construídas por uma sociedade vigilante fazem-se presentes.

No Brasil, o quadro aparentemente piorou nos últimos vinte anos, segundo dados da Transparência Internacional. Ocupávamos, entre 180 países, a 46ª posição em 1998 e de lá até 2019 só pioramos. Hoje, o Brasil está na 106ª posição.

Teria aumentado, de fato, a corrupção no Brasil nas últimas duas décadas ou teria aumentado a capacidade de detectar a corrupção?

Ao longo da história, a corrupção diminuiu no mundo pelo surgimento de um sem-número de fatores que criaram avanços institucionais claros: três poderes autônomos e interdependentes, atuação de órgãos de controle, imprensa livre, profissionalização do serviço público e universalização da educação básica. Em resumo: surgimento e fortalecimento da democracia.

Tais avanços fizeram surgir uma opinião pública cada vez mais intolerante com o saque ao erário, com reflexos na postura dos corruptos, pois estes, na hora de roubar, avaliam, ainda que inconscientemente, os custos e benefícios de suas ações. Se há riscos cada vez maiores de serem pegos, recuam ou tomam precauções tão grandes que diminuem os montantes dos saques ao dinheiro público.

O Brasil consolidou a democracia política e a liberdade de pensamento e de expressão, base de uma imprensa livre, ainda que com sobressaltos, e os órgãos de controle têm feito um trabalho razoável, elementos que permitem que os casos de roubo das verbas públicas sejam do conhecimento público e possam ser combatidos.

Faltam alguns ajustes para que o país avance ainda mais: profissionalizar o serviço público, limitando a quantidade de cargos por indicação política, e garantir educação básica de qualidade para todos.

Tais mudanças não garantirão, sozinhas e de forma súbita, o fim da corrupção. A luta exige paciência e trabalho. O percurso do mundo desenvolvido foi de mais de dois séculos, se levarmos em consideração que a maior parte das mudanças acima apontadas ocorreram a partir do final do século XVIII. E, ainda assim, as nações que dele fazem parte não aboliram – e nunca abolirão – o mal pela raiz.

A nossa luta, nos trópicos, está pelo meio da caminhada. E a estrada é longa e acidentada.