O jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues, o Anjo Pornográfico, na feliz e perfeita definição dada por Ruy Castro a ele, retratou com propriedade e com ironia sofisticada a hipocrisia da nossa sociedade entre os anos 1930-80.

Nélson Rodrigues, jornalista policial e esportivo, cronista e nosso maior dramaturgo, foi chamado de machista, misógino, conservador e reacionário. Foi parte disso tudo aí, mas foi, antes disso tudo aí, o gênio que criou uma galeria de personagens saborosos: a Estagiária de calcanhar sujo: estudante de psicologia que preferiu formar-se em jornalismo; o Padre de Passeata: religioso que participava de manifestações de rua contra a ditadura militar em trajes civis; a Grã-Fina das Narinas de Cadáver: mulher da alta sociedade, que detesta futebol mas dá palpites sobre os jogos, que admira o cronista e o obriga a comparecer a suas festas; o Quadrúpede de Vinte e Oito Patas: pessoa que se proclama ignorante, um Narciso às avessas, pois trata a própria imagem a pontapés; Idiotas da Objetividade: pessoas que não conseguem entender as coisas mais evidentes. Entre outros.  

Morto em 1980, teria material farto, nos dias que seguem, para outros tantos personagens.

Um dos mais deliciosos da sua extensa galeria é o Cretino Fundamental, que Nélson apresenta como pessoa que torcia leviana e abertamente contra a seleção brasileira. Geralmente era algum comentarista esportivo que tinha uma visão pessimista sobre o selecionado nacional. É um irmão próximo do Idiota da Objetividade, que é um quase inimigo de fígado do Quadrúpede de Vinte e Oito Patas.

Foi-não-foi, o Cretino Fundamental dá o ar da graça, sem as vestes de quem fala mal da seleção canarinho, porque, se vivo fosse, o próprio Nélson não suportaria o time dirigido por Tite, mas para desfiar o rosário de estupidez que só os cretinos-raiz sabem dizer.

Nestes dias, o Cretino Fundamental fantasiou-se de engenheira química e acompanhou-se de um engenheiro civil para falar mal e ofender um agente público que fazia, com correção, o serviço para o qual é pago.

A indignação foi geral nas redes sociais e na imprensa e entre os indignados estavam e estão pessoas que esfregam as suas formações, qualificações e diplomas na cara de colegas que estão alguns níveis acadêmicos abaixo deles, pois na academia as coisas funcionam assim, e na de profissionais de outras áreas que ousem apontar fragilidades nos argumentos e nas formulações que elaborem.   

Fiz alguns cursos de graduação, um mestrado e um doutorado e, nunca, repito, nunca joguei ou jogarei na cara de ninguém a minha formação acadêmica como forma de me mostrar melhor e/ou superior. Tenho colegas que também agem assim, mas já ouvi dizer e já testemunhei outros fazerem isso, inclusive em reunião de pares.

Quem assim procede é um pobre coitado, um estúpido, um imbecil. E um estúpido e imbecil com doutorado é apenas um doutor estúpido e imbecil.

Quem precisa tirar os diplomas que têm das molduras e das pastas para ser ouvido e para se fazer respeitar é um pobre coitado. Uma variante do Cretino Fundamental, pois somente rebaixando os outros consegue um minuto de atenção.

Escolas e universidades estão cheias de gente assim. Algumas delas arrotaram indignação com a moça que desrespeitou o fiscal da prefeitura, mas frequentemente desrespeitam colegas apresentando suas jubilosas credenciais acadêmicas.

É o sabe com quem você está falando envergando vestuário acadêmico.

Os Cretinos Fundamentais vestem vários modelitos: engenheiros, médicos, advogados, professores-doutores, etc.

Todos puídos, afinal papeis não provam conhecimento algum.

Retorno a Nélson Rodrigues: “Os idiotas ainda vão tomar conta do mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”