A patrulha ideológica é um mal sem cura e está de volta, mais precisamente desde a campanha presidencial de 2010, quando a candidata do PT, Dilma Rousseff, patinou, no segundo turno, diante do tucano José Serra. Aprofundou-se em 2014, também na esteira da eleição presidencial, e não mais saiu de cena, radicalizando-se cada vez mais.

Na década de 1970, a esquerda patrulhava o cidadão livre.

Qualquer manifestação que trouxesse suspeita de simpatia com teses de direita era imediatamente repelida. A situação assim permanece, mas traz um novo ingrediente: a direita caça os que manifestam teses opostas às suas.

O risco de cassar ou caçar quem pensa livremente, sem amarras ou sem compromissos (exceto com a sua própria consciência), é enorme.

Escrevi e escrevo livremente, neste e em outros espaços, sobre alguns assuntos e quase sempre recebo e-mails, um ou outro elogioso e um ou outro me desancando.

Nunca fui censurado ou admoestado por, digamos, meus superiores.

De uns tempos para cá, mais precisamente nos últimos cinco ou seis anos, o clima é cada vez mais tóxico, com agressões e ameaças abertas ou veladas se sucedendo, o que reflete o despreparo de alguns, até muitos, para viver num mundo livre e democrático.

Já fui acusado de ser “um esquerdista que fazia apologia do terrorismo” e “de esquerdista doutrinador” pela turma da, digamos, direita. E de “fascista fdp”, “olavista enrustido” e “simpatizante de ditaduras”, “neoliberal fascista” (seja lá que isso signifique), pelo pessoal da esquerda.

Não faço caso de nenhuma das acusações e agressões, pois constato que alguns dos meus detratores não leem e outros sem saber ler nas linhas, tentam fazê-lo nas entrelinhas.

Sigo dizendo e escrevendo o que quero, sem pejo algum – afinal, essa turma não me assusta e não me intimida.

Fui vacinado contra o esquerdismo juvenil e nunca fui contaminado pelo vírus do direitismo mórbido. E nunca treinei nenhum tipo de doutrinação de direita ou de esquerda. Ser doutrinador é um mal que não me toca, pois os doutrinadores são inimigos do livre-pensar e inimigos do humanismo, essências da liberdade individual e da democracia. E mesmo que defendam a democracia, eles a ceifam justamente naquilo que elas têm de mais emblemático, a saber, a liberdade de pensar e de se expressar.

Nos anos 1980-90, o ambiente universitário no qual me formei já era tomado pelo esquerdismo juvenil e panfletário. As ideias de Marx e de seus discípulos eram prescritas como drágeas da salvação, comprimidos que abririam as portas do paraíso comunal.

Pois bem, o Muro de Berlim foi derrubado, o Império Soviético ruiu sob o peso do burocratismo, da ineficiência e do autoritarismo, a China mobilizou suas energias e montou um capitalismo de Estado, mas as drágeas e os comprimidos, mesmo com prazos de validade vencidos, continuaram e continuam a ser distribuídos.

Tudo bem, todos somos livres para expressarmos as nossas opiniões, essência da democracia.

Acusar um oponente de esquerdista ou de direitista para retirá-lo de um debate é nocivo e deprimente.

O tom enfático e a ânsia em acusar os outros como doutrinadores esquerdistas ou direitistas fazem parte da tática e da estratégia de fascistas que desejam calar opositores. Ora, num ambiente democrático todos têm voz, inclusive aqueles que desejam que os outros se calem, afinal o espaço público é aquele no qual ideias se confrontam.

Quando as discordâncias emergem, a melhor maneira de dois oponentes se confrontarem é no campo das ideias, um apontando a fragilidade dos argumentos do outro. Desqualificar o outro apontando-o como de esquerda ou de direita é ceifar o debate no nascedouro e é, também, uma forma de elaborar um consenso artificial e autoritário, pressuposto para a construção de um regime autoritário.

É fácil constatar onde essa via nos leva.

Há por trás da tática e da estratégia dos que se opõem à doutrinação de direita e de esquerda uma verdade não muito conveniente: sob o manto de um livre-pensador, os que assim procedem estão a acusar como doutrinadores os outros, nunca a si mesmos.           

Num mundo realmente livre não deveriam existir doutrinadores. Nem de esquerda, nem direita.

Doutrinadores de direita e de esquerda, principalmente quando extremados, conduzem o mundo a construções devastadoras, pois fomentam à sua volta intolerantes radicais que desejam a todos calar.

O melhor dos mundos possíveis é aquele em que as pessoas possam divergir sem se agredir e confrontar sem brigar.

A melhor doutrina é a que prega a tolerância, e ela não é direita ou de esquerda.

É humanista.