Sou professor há uns bons anos e sinto-me verdadeiramente incomodado com a situação da escola pública durante este período da pandemia.

A escola pública é causa de preocupação diária e constante, mas a pandemia escancarou uma postura no mínimo omissa.

Ontem vi um post (está na chamada da matéria), e nem conferi para saber se é verdadeiro ou não, que me chamou a atenção e, de certa forma, fez-me sair da zona de silêncio na qual eu estava até então.

Na semana que passou vi ou soube de alguns (muitos até; de trinta a quarenta)) professores de instituições públicas de ensino, a esmagadora maioria militante da causa do Fique em casa e do Retorno às aulas apenas com vacina, deixando alegre e displicentemente os seus filhos e netos para assistirem aulas presenciais n’algumas das mais prestigiosas e caras escolas da rede privada de Natal. 

Também vi ou soube de alguns (muitos até; não saberia dizer aproximadamente quantos) professores de instituições públicas de ensino, a maioria militante da causa do Fique em casa e do Retorno às aulas apenas com vacina em reuniões presenciais n’algumas das mais prestigiosas e caras escolas da rede privada optando pelo ensino presencial para seus filhos e netos.

Parece-me estranha, para dizer o mínimo, a postura dos valorosos docentes inviabilizarem que filhos e netos dos outros possam acompanhar as aulas presencialmente enquanto mantêm os seus filhos e netos em aulas presenciais em escolas privadas. Como parece-me estranho muitos colegas docentes estarem por semanas em manifestações políticas e recusarem-se melíflua e cinicamente a estar em sala de aula lecionando – tarefa para qual são pagos, pois a função do docente é lecionar e não exatamente estar em manifestações políticas. Nada impede que lá estejam, acompanhados por amigos e colegas, defendendo as pautas que quiserem, depois de cumprirem com os seus afazeres profissionais.

É hora de essa turma discutir o assunto volta às aulas presenciais seriamente, com base em dados científicos e técnicos – afinal, como dizem os diligentes defensores da ciência, devemos dar voz aos cientistas. Que dispa as vestes da hipocrisia e adeque o discurso à prática. Ou, então, assuma explicitamente a hipocrisia.

Talvez, quem sabe, já seja possível deixar a meninada merendar. As duas merendas, a que sacia a fome digestiva e a que sacia a fome intelectual.

É hora de sindicalistas sedentos (e as mariposas por eles atraídos) por espaço político deixarem o palco ser ocupado por especialistas que entendem do assunto. Ou assumam que o discurso da defesa da ciência é apenas jogo de cena.