Era início dos anos 2000, e o professor Orlando Pinto de Miranda, aposentado da Universidade de São Paulo e recém empossado como professor do então Departamento de Educação da UFRN, estudioso do fenômeno da violência, disse, numa reunião com estudiosos e lideranças de Mãe Luiza, que não demoraria muito e o bairro, com características geográficas e sociais semelhantes às dos morros do Rio de Janeiro, seria uma região tomada pelo crime e que custaria muito ao poder público reavê-lo.

A fala de Miranda gerou reações para todos os gostos.

As lideranças comunitárias disseram que ele estava alarmado sem motivo algum, porque o que havia em Mãe Luiza era ladrão pequeno, batedor de carteira e um ou outro arrombador de casa, como se isso fosse pouco.

Os estudiosos, com a empáfia típica de quem tudo sabe, sambaram em cima dos argumentos de ilustre professor, dizendo que ele não conhecia a realidade do bairro e a dinâmica da cidade.

Pouco mais de uma década e meia depois, fui almoçar com amigos num restaurante ali no pé do morro, na praia de Areia Preta, e perguntei se por ali não estava violento. O garçom me olhou desconfiado e disse que os “donos do lugar não deixam que ocorram assaltos”.

Insisti, como se não tivesse entendido a fala garçom, e quis saber se a polícia estava pondo ordem no lugar

- Que nada, disse o garçom. É um pessoal aí que não quer saber de assalto por aqui. Mas não é a polícia.

Sábado último, um coronel da Policia Militar do Rio Grande do Norte foi assassinado numa loja no centro de Natal.

Logo que a morte do policial foi anunciada, houve foguetório em Mãe Luiza, segundo relatos feitos por jornalistas, com a facção criminosa que domina o bairro festejando o feito.

O assassino do coronel da PM, morador do bairro, com quatro processos nos costados, fôra solto dias antes numa audiência de custódia, arranjo criminoso urdido para soltar criminosos. Saiu com tornozeleira eletrônica, instrumento que, acredita o nosso aparelho judiciário, impede criminosos de cometerem novos crimes.

No começo da noite de sábado, o ilustre criminoso foi abatido, depois de resistir à prisão e trocar tiros com os policiais. Usava o mesmo revolver 38 com o qual abateu o coronel Nunes horas antes.

A imprensa toda o tratou como suspeito.

Até quando a nossa injusta justiça continuará soltando bandidos contumazes que irão roubar, estuprar e matar inocentes?

Até quando a nossa imprensa, com todos os elementos à mão, persistirá no erro de chamar bandidos pegos em flagrante de suspeitos, amenizando a culpa que carregam?

Voltando a Miranda.

Ele estava com a razão.

Pena que, já falecido, não possa sambar em cima dos argumentos de seus, digamos, opositores.