As discussões sobre política estão invariavelmente contaminadas pelo germe do radicalismo e da adjetivação rasteira, por motivos vários.

Percebemos determinados padrões mesmo em setores pensantes, do jornalismo, da academia e da intelectualidade que apresentam os temas num plano adjetivado, escondendo-se por trás de jargões que, se repetidos pelo oponente, seriam por eles considerados anátema.

Há quem, apresentando-se como livres-pensadores ou libertários, escondem-se no bolso de alguém, vivem dos dólares e dos reais de um poderoso a quem nunca criticam diretamente, enquanto destilam ódio aos que combatem.

Num debate intelectual, afastar-se do plano conceitual implica torná-lo nebuloso, vazio e podado em sua possibilidade de compreensão, tornando-o arena propícia para acusações e para a argumentação superficial, em que ninguém se entende e/ou o diálogo é inexistente.

Segundo a visão dos cerceadores do debate intelectual, o melhor argumento é a agressão. Vence o debate quem agride mais.

Num debate, deveria vencer quem neutraliza o oponente. No mundo cerceado, porém, o debate não ocorre porque há interlocutores que não desejam enfrentar argumentação.

Não querem argumentar. Preferem desqualificar.

Num Brasil em que a última utopia política ruiu com a eleição de Lula, em que o discurso ético do PT caiu sob o peso de fazer política num mundo real, chamar alguém, em certos círculos, de petista, de esquerdista ou congênere apresenta-se como uma boa tática, pois define não o adversário, mas o inimigo.

O mesmo fazem petistas e esquerdistas desqualificando os oponentes, ao chamá-los de fascistas, reacionários.

Estigmatizar tem sido o caminho: “Ele é um esquerdista!”, “O Muro de Berlim caiu e você ainda defende essas ideias?!”, “Fulano é um reacionário!”, “Como você concorda com alguém desse partido?”, “Esse cara é bolsominion”, “Seu fascista!”.

Não interessam os argumentos que o oponente tem a expor. As suas posições, por mais coerentes que sejam, são invalidadas antes mesmo de o debate começar, o que nos impede de conhecer uma visão que fuja ao lugar-comum, à quase unanimidade.

Melhor o confronto que a fuga a ele. Bom é ter o liberal em meio aos estatistas e vice-versa; esquerda e direita travando embates intelectuais frutíferos e não moldados por preceitos estanques e vazios. Liberdade para pensar e expor o pensamento em vez de coerção intelectual e adjetivante.

Impedir o debate pela adjetivação vazia ao oponente é um traço autoritário. O fenômeno que hoje vislumbramos é umas marcas do fascismo, que se utiliza do ambiente democrático para destruir a democracia.

O fascismo apresenta-se como ação verborrágica e rasteira para adjetivar o oponente e retirá-lo da discussão.

A pressão existente para que não se manifeste qualquer opinião que fira o consenso é empobrecedora e autoritária – e fascista.

Num regime democrático é permitida, pois a democracia lida com a pluralidade e nela até os fascistas se manifestam. Desde que respeitem as regras institucionais do regime democrático, a eles é legítimo exporem suas opiniões.

Tem sido até comum fascistas ficarem se passando por anarquistas e livres pensadores para esconderem as suas reais intenções – o cerceamento da liberdade individual.