Em 12 de maio de 2012, na praça Augusto Severo, na cidade do Natal, foi proferida a seguinte frase: “Os pequenos gestos são engrandecidos pela vontade de quem os faz”. Tratava-se de uma homenagem, pelos 110 anos da morte do aeronauta que batizava aquele largo, ocorrida em 1904, na cidade Paris, França.

Em 2022, aos 120 anos do grave acidente, a sociedade natalense se une em defesa da memória de Augusto Severo e no retorno dos restos mortais as terras potiguares, pois atualmente encontra-se no Rio de Janeiro. Diversos segmentos estão nesta tentativa, inclusive, em busca dos documentos originais franceses.

Mas qual a importância de Severo? Um aeronauta do início do século XX com inventos, no mínimo curiosos, que os mais apaixonados afirmam ter influenciado o pioneiro do avião, Santos Dumont, com quem Severo mantinha contato e de quem recebeu as honras pós morte, em carta enviada à família. Vale citar que o próprio Dumont estava em Paris e presenciou o acidente, segundo jornais da época.

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão nasceu em Macaíba/RN, no dia 11 de janeiro de 1864, de onde saiu adolescente para concluir os estudos em Natal, Salvador e, por último, cursar Engenharia no Rio de Janeiro, na Escola Politécnica. Aos 28 anos foi eleito deputado federal, em 1893, ficando no cargo até 1901, um ano antes de embarcar para a França.

Antes de desenvolver o PAX, Augusto Severo dedicou-se e outras invenções, quase todas ligadas à aviação. Um dos inventos bem sucedidos do potiguar foi o balão Potiguarânia, desenvolvido em 1889, com simetria semelhante ao seu balão dirigível mais famoso, aperfeiçoando a dirigibilidades dos aparelhos mais pesados que o ar.

O olhar atento do inventor percebeu que os balões convencionais dependiam da direção do vento para seguir viagem e quando os aparelhos receberam motores havia um certo descontrole do cesto em relação ao balão em si, devido a flexibilidade das cordas ou cabos de sustentação. Em um experimento simples podemos perceber isso, ao amarrar uma moeda a uma bexiga e a impulsionarmos, notaremos que ela seguirá a frente do balão e retornará como um pendulo.

Para solucionar o problema, Severo propõe criar uma estrutura semi-rígida, com hastes que envolviam o cesto e o motor, compondo a nacele que era presa fixa com tubos de bambu ao saco de ar. Este, ele batizou de PAX – paz em latim – e era preenchido com gás hidrogênio, altamente inflamável, com 30 metros de comprimento e podia levar até quatro passageiros, dois tripulantes e dois passageiros, movido por dois motores à gasolina.

No dia 4 de maio de 1902, é feito o primeiro teste de voo estático no balão, no qual 15 homens seguravam o equipamento com cordas enquanto a potência dos motores era medida, até atingir 120 rotações por minuto das 150 totais, o que foi repetido três vezes depois, também, com sucesso.

No dia 11 de maio do mesmo ano, o Ministério da Guerra da França autorizou o voo do PAX, prevendo sua passagem sobre Paris e o campo de Issi-Les-Moulineaux, onde se encontravam acampadas as tropas do Exército francês. No dia seguinte, às 5h, o balão foi retirado do hangar sob as ordens de Severo e orientação do mecânico Georges Sachet, auxiliados pelo inventor Álvaro Pereira Pires, que seria o terceiro tripulante, mas minutos antes de levantar vôo, Severo mandou-o descer do balão.

O Pax levantou voo e por dez minutos realizou manobras antes de se dirigir à Issi-Les-Moulineaux, onde lançaria sobre as tropas do Exército panfletos com os dizeres "O Brasil saúda a França de bordo do dirigível Pax". Contudo, subitamente quando o balão atingia 400 metros de altura, uma explosão envolveu a estrutura que caiu sobre a avenida Du Maine, em Paris, e sob chamas, tendo como testemunha centenas de curiosos. Todos que estavam no aparelho voador morreram.

Destroços do balão PAX, sobre a Rua Du Maine (Arquivo do autor)

Em 1913, foi inaugurada uma placa na rua Du Maine, em Paris, com os dizeres: "Aqui morreram, vítimas da ciência, Severo, - o aeronauta brasileiro e seu mecânico, o francês Sachet. Queda do dirigível PAX, em 12 de maio de 1902".

No dia 12 de maio do mesmo ano, era inaugurada na Ribeira a estátua que permanece até hoje.  Na década de 1930, por mais de uma ocasião da passagem dos dirigíveis alemães, o Zeppelin prestou homenagem ao potiguar, jogando do alto uma coroa de flores em direção a estátua, em passagem pela cidade do Natal. Era o reconhecimento pelo estudo da dirigibilidade dos balões. Já a Força Aérea Brasileira reconhece Santos Dumont como mártir da Ciência Aeronáutica, e mantém uma de suas aeronaves do Grupo de Transporte Especial (GTE) batizada com seu nome.