O clima de radicalismo político vivenciado no Brasil, desde a eleição presidencial de 2014 e potencializado ainda mais de 2016 em diante, destrói amizades, trucida reputações e mata a empatia.

Desejar e festejar o mal dos outros, especialmente quando não nos são simpáticos política e ideologicamente, tornou-se esporte nacional. Quase sempre de forma grosseira, mas às vezes com certa pretensão e preciosismo filosófico e acadêmico.

Um jornalista traçou paralelo entre a fala do presidente Roosevelt, no dia seguinte ao ataque dos japoneses às bases norte-americanas, dizendo que a data viveria para sempre na infâmia, e o vergonhoso artigo publicado por Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo, dia 07/07, apontando que, arriado com Covid-19, seria bom que o presidente Jair Bolsonaro tivesse o quadro agravado e morresse. Schwartsman conclui o artigo dizendo: “Nada pessoal (...). É que, no ‘consequencialismo’, ações são valoradas pelos resultados que produzem. O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior. (...) A morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas.”

Um ou dois dias depois, um professor universitário sugeriu que a Jair Bolsonaro e seus familiares bebessem veneno para ratos.

Há muitas datas tão ou mais marcantes para os Estados Unidos que o dia da infâmia e que, infames, ombreariam com a escolhida por Roosevelt. O Brasil e o jornalismo brasileiro passou têm as suas – e não é preciso puxar muito pela memória para desfiá-las.

A comparação feita é um exagero retórico.

O artigo de Schwartsman é o que é: uma profissão de fé travestida de análise filosófica.

Maquiavel e os utilitaristas morreriam de vergonha.

Apesar da tentativa de montar um argumento filosoficamente sofisticado, Schwartsman e o professor universitário gritam a mesma coisa: morte ao inimigo!  

O caso abre oportunidade para que o Supremo Tribunal Federal se pronuncie e mostre que os seus arroubos contra a intolerância estão baseados em princípios legais e não são apenas teatro barato.

Para que os bolsonaristas não queiram se passar por vítimas inocentes, é bom lembrar que o atual presidente já sugeriu torturar e fuzilar Fernando Henrique Cardoso (https://revistaforum.com.br/politica/bolsonaro-ja-defendeu-tortura-e-o-fuzilamento-de-fhc-veja-o-video/), fez votos para que Dilma Rousseff tivesse um infarte ou câncer (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/bolsonaro-desejou-infarte-ou-cancer-para-dilma-em-2015,7e13828f056ffc80802ce21d2efeb86a5svnlirv.html) e homenageou Ustra, o militar que torturou Dilma quando ela, então militante de um grupo esquerdista que assaltava bancos, esteve sob custódia do Estado (https://extra.globo.com/noticias/brasil/coronel-ustra-homenageado-por-bolsonaro-como-pavor-de-dilma-rousseff-era-um-dos-mais-temidos-da-ditadura-19112449.html).

É urgente que mudemos o azimute político do país.

Não possível que grupos políticos torçam e trabalhem pela eliminação física de seus adversários.

Ou isso, ou a barbárie.