Julinho Botelho é considerado o maior ponta-direita da história do Palmeiras. Também foi craque na Fiorentina/ITA, onde jogou de 1954/58. Conhecido por ser uma pessoa muito honesta, séria, que não era de viver em noitadas e também simples, porém fez uma exigência contratual quando retornou da Itália. Já estava veterano e fez questão que constasse do contrato que não se concentraria para os jogos. Cláusula aceita pela diretoria alviverde, nos dias dos jogos em SP ia direto ao estádio, se era fora, dirigia-se para o embarque.

Com o passar do tempo, Julinho gostava cada vez menos de ir jogar no interior. Na sua condição de ídolo, nome principal numa equipe com os campeões mundiais Djalma Santos e Vavá, tinha o beneplácito da diretoria e o aceite do treinador Ephigênio de Freitas Bahiense, o “Geninho”, que foi jogador do Botafogo/RJ de 1940 a 1954 e era conhecido como “o arquiteto”.

Na quarta-feira, o Palmeiras teria um jogo em São José do Rio Preto e, no domingo, o derby com o Corinthians. Julinho chegou para Geninho e reclamou um desconforto muscular para não ter que viajar ao interior. O treinador poupou o craque e lançou seu substituto natural, o Gildo, que foi o melhor jogador em campo na quarta e o time venceu por 3x0.

No domingo, no vestiário do “Verdão”, no Pacaembu, o roupeiro deixou na bancada as 11 (onze) chuteiras, meiões e calções.  As camisas seriam distribuídas pelo treinador. Julinho, como sempre, chegou primeiro, vestiu a roupa e começou seu aquecimento. Quando a delegação chegou, Geninho viu a cena e lhe veio a dúvida: como não escalar o cara que foi o melhor jogador na partida anterior?

Pensou em retirar ponta-esquerda Nilo, recém-chegado, deslocando o Gildo para aquele flanco, mas o Nilo também tinha acabado com o jogo. Então a genialidade do gênio Geninho.

- E aí Júlio! Tá bem? Melhorou da contusão?

- Melhorei. Está tudo bem. Estou 80%. Dá para jogar.

- Ah não! Se está 80% deixa. É clássico. Joga o garoto que está 100%.

E o Julinho, craque do time, aceitou, sem problemas.

Uma cena destas nos tempos presentes seria incomum, até para quem não é considerado craque, mas se acha dono da posição.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: “Divino: a vida e a arte de Ademir da Guia” (Kleber Mazziero de Souza)