Pesquisa recente do Datafolha (https://g1.globo.com/tudo-sobre/datafolha/) apontou que o bolsonarismo avançou sobre os principais redutos do lulismo, principalmente nos bolsões do Norte e Nordeste e nas periferias das grandes cidades de todo o país, efeito, provavelmente, do coronavoucher. (https://epoca.globo.com/brasil/auxilio-emergencial-de-600-reais-leva-eleitor-do-pt-apoiar-bolsonaro-24525410).

Deter-me-ei apenas sobre o Nordeste, uma das últimas cidadelas do lulismo, onde Fernando Haddad manteve, em 2018, a tradição petista, desde 2002, de ser muito bem votado.

Em cem cidades da região, o ex-prefeito de São Paulo teve mais de 90% dos votos válidos (https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/eleicoes-2018/haddad-superou-90-dos-votos-validos-em-mais-de-100-cidades-so-uma-fora-do-nordeste-560xxsa06fmw9ugxr5p6abm9n/). Algumas poucas, pelo elevado número de evangélicos, foram verdadeiros redutos bolsonaristas (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/cidades-evangelicas-no-nordeste-tem-redutos-bolsonaristas.shtml).

O tino das lideranças políticas tradicionais do Nordeste, principalmente daquelas acostumadas a andar pelos rincões, já percebia o humor do eleitorado, tanto que pipocaram nas últimas semanas convites de várias lideranças políticas nordestinas, capitaneadas pelos ministros Rogério Marinho e Fábio Faria, para que o atual ocupante do Palácio do Planalto visitasse a região (https://veja.abril.com.br/politica/como-rogerio-marinho-virou-peca-chave-para-bolsonaro-no-nordeste/).

Bolsonaro colheu frutos advindos da distribuição do auxílio emergencial e outros da agenda de obras tocadas pelos ministros Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), que, juntos, concluíram obras inacabadas e herdadas de gestões anteriores, a exemplo das rodovias 116 e 101, na Bahia, da Ferrovia Oeste-Leste e do Eixo Norte da transposição do rio São Francisco.

Tudo indica que Bolsonaro jogou na latrina de vez o liberalismo econômico de fachada apresentado na campanha de 2018 e que tinha e tem em Paulo Guedes o seu grande mensageiro. O ministro da Fazenda, ressalte-se, hoje é apresentado por um dos filho do ex-capitão do Exército apenas como o encarregado de “arrumar um dinheirinho” para garantir que o Presidente da República possa seguir célere rumo ao projeto reeleitoral.

Às favas o equilíbrio orçamentário, conversa para boi dormir desde sempre para Jair Bolsonaro.

Como nunca acreditei na conversão de Bolsonaro ao liberalismo, seja político ou econômico, aqui faço observação sobre quem, entre amigos e colegas, alardeava ser o Nordeste um centro de cidadãos críticos e esclarecidos porque votava, em peso, nos candidatos lulistas ou simpatizantes do lulismo: o Nordeste nunca foi o centro de excelência eleitoral e cidadã que a esquerda gritava até pouco tempo atrás.

Tancredo Neves denunciou, logo após finalizadas as eleições de 1982 e constatado que o PDS, partido que substituiu a ARENA, perdera o pleito no centro-sul e em quase todas as capitais do país mas mantinha-se firme nas pequenas cidades do interior, que o governo vencera nos grotões. Naquele pleito, o partido que dava sustentação ao regime de 1964 vencera no Nordeste (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI149691-15223,00-ESQUERDA+NOS+GROTOES.html) e em áreas periféricas das cidades grande de todo o Brasil, e ficou assentado que as áreas atrasadas do país votavam nos partidos tradicionais e conservadores e os centros mais avançados descarregavam a sacola de votos nos progressistas.

Duas décadas depois, votos e a narrativa mudaram de caminho, quando a esquerda, PT à frente, começou a colher os frutos de sua fase governo.

Uma coisa é clara e cristalina: o Nordeste, principalmente os grotões, dependente de verbas federais, vota no governo, desde que o governo lhe dê assistência. Foi assim durante o breve período democrático pós-Estado Novo, durante a fase autoritária de instaurada em 1964 e de 1985 até os dias de hoje.

Fiquemos com as eleições presidenciais de 1989, quando Lula e Collor disputaram o segundo turno, a 2018, quando Haddad e Bolsonaro polarizaram a disputa. Lula foi forte nas cidades médias e grandes, junto à classe média e alguns poucos setores populares, e perdeu, por grande margem, nos grotões. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique passeou vencendo Lula no primeiro turno, com boa em todos os segmentos sociais e com larga margem nos grotões, graças à atuação do PMDB e do PFL, hoje DEM, como Lula e Dilma venceram com certa facilidade, no segundo turno, em 2006 e 2010, graças à atuação dos partidos, PMDB à frente, fortes em regiões economicamente atrasadas (http://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/repositorio-de-dados-eleitorais-1/repositorio-de-dados-eleitorais)

Fernando Henrique surfou na onda bolsa-escola e vale-gás e Lula na do bolsa-família e, agora, ao que tudo indica, conforme registra a pesquisa do Datafolha, Bolsonaro compreendeu a equação e está cada vez mais disposto a invadir o terreiro de Lula, utilizando-se dos mesmos métodos.

Qual será a reação do PT?

Se souber, ele e a esquerda de um modo geral, entender o que diz Mujica (https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/08/12/esquerda-tende-a-cair-no-infantilismo-diz-mujica.htm), o Brasil talvez passe a ter oposição madura ao atual governo. Caso contrário, permaneceremos andando em círculos e convivendo com espasmos demagógicos, à esquerda e à direita.