Há dias envolvi-me numa discussão, civilizada ressalto, com dois amigos sobre a postura que Lula assumiria ao sair da prisão.

Os meus dois amigos sustentavam que Lula era, desde 2002, quando venceu a disputa presidencial contra José Serra, um político moderado.

A mesma, digamos, percepção dos meus dois amigos foi manifestada por articulista político dos mais lidos aqui do estado.

Discordo. E digo porque o faço.

Lula foi, sem dúvida, um líder moderado nas duas últimas vezes em que foi candidato a Presidente da República (2002 e 2006) e, em 2010, quando esteve no palanque de Dilma.

Em 2014, já começou a flertar com o antigo PT e, depois, quando acuado pela Lava Jato, virou bicho agressivo.

Ao longo da história, como me disse certa vez um amigo já falecido, Lula sempre teve compromisso apenas com ele. O Mensalão demonstra isso, com toda a cúpula do PT abandonada pelo então Presidente da República.

Lula saiu da cadeia na última sexta-feira falando em amor, mas logo disparou a metralhadora giratória de xingamentos contra o Presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de miliciano. Bolsonaro ainda na sexta xingara o ex-Presidente de canalha.

O nível é rasteiro e demonstra claramente que o cenário político saiu de medíocre para abominável. A polarização acentuada macula e enfraquece a democracia e, de quebra, amedronta investidores estrangeiros que já desconfiam do Brasil. Mais, um ex-Presidente canalha e um atual miliciano, como eles chamam um ao outro, rebaixam a Presidência da República à função de alcouce dos mais lastimáveis.

A linguagem de palanque-bordel faz parte do jogo para inflamar os seguidores, mas é provável que o discurso de Lula siga em outra direção, à da política econômica de Paulo Guedes, que, a despeito de estar no rumo correto, ainda não chegou à mesa da classe média para baixo.

Lula precisa ser certeiro no tiro a Guedes porque a forma de ataque ao gerente de Bolsonaro pode unir o mercado em torno do Ministro da Fazenda, garantindo ao petista apenas a parte que com ele já está, ou seja, o terço histórico que vota no PT.

Lula sempre foi um estrategista político, mais interessado na própria sobrevivência e no seu próprio futuro político e tenta manter mobilizada a militância, hoje muito menor.

A Bolsonaro cabe insuflar Lula a sair do trilho.

Lula criticou Bolsonaro, Moro e Guedes, mas também tentou distribuir pílulas oratórias de amor, ao dizer que pretende percorrer o país, ao falar sobre sua namorada e sobre amor, para, em seguida, adquirir uma feição revanchista, bem ao gosto da militância mais aguerrida e mais irracional. Saiu de cena Lula paz e amor e chegou o Lula do confronto.

A Bolsonaro interessa o Lula raivoso e revanchista, porque a base bolsonarista estará mobilizada para fazer frente à militância do PT e seus satélites.

Se lulistas e bolsonaristas atuarem dentro dos marcos legais, ainda que distribuindo caneladas, a democracia suportará, mas a economia sentirá o impacto e a recuperação será mais lenta, afinal, investidores não gostam de instabilidade.

Lula solto e fazendo política vai levar os bolsonaristas a questionarem menos a mídia, pois o petismo ocupará espaço no mundo político batendo nela. Lula, diga-se, já deu uns safanões na Record, no SBT e na Globo, a Geni que apanha de todo mundo.

A postura de Lula e de seus seguidores vai, provavelmente, fazer Bolsonaro e alguns aliados mais extremistas posarem de paladinos da liberdade de imprensa, mesmo que movimentos de direita demonizem a Globo, a Folha de São Paulo, etc. Além disso, a agenda de Guedes vai ao encontro dos homens que comandam o PIB, o que deve, sem dúvida, atrairá a simpatia da grande mídia, dado que aos investidores, nacionais e estrangeiros, não interessa o discurso tóxico de outra liderança política de relevo.

Solavancos mais fortes serão interpretados como risco e aí o investidor, principalmente o estrangeiro, fugirá daqui.

Até os lupanares têm regras para garantir a presença do dinheiro. Os brigões podem frequentar o ambiente, mas não podem desestabilizá-lo.

Esperemos que o ex e o atual saibam se comportar.