Volta e meia somos questionados acerca de nossas escolhas. “Você torce pelo ABC?”, perguntam-me americanos que, mergulhados no mesmo ostracismo futebolístico do Mais Querido, gritam a plenos pulmões as alegrias vermelhas do clube da Rodrigues Alves. “Você gosta de Machado de Assis?!”, inquirem-me rapazes imberbes e moças vazias como ovo de Páscoa, para daí emendar: “Mas ele é muito chato!”, completam do alto da sabedoria construída ao longo de horas à frente do computador passeando pelas redes sociais.

Fazia tempo que não era assediado por um patrulheiro ideológico, como escrevi semana passada em outro espaço (http://historianosdetalhes.com.br/politica/meu-colega-nao-me-conhece/).  Mas eles estão de volta, como a calça boca-de-sino, o gel de cabelo e as músicas bregas dos anos 1970.

Nas três últimas eleições presidenciais, então, senti-me ideologicamente patrulhado 24 horas por dia. “Não acredito que você vai votar em Dilma!”, exclamavam para mim os sábios da política, em 2010, esquecendo-se que o outro candidato, José Serra, não trazia, naquilo que mais buscava debater – ética –, nada de muito diferente de sua oponente da ex-estrela vermelha. Eu não era, é verdade, eleitor de Dilma. A escolha, no segundo turno, deu-se por eliminação: entre votar em Serra ou em Dilma, optei pela candidata do PT. Melhor dizendo: optei em não votar no candidato do PSDB. Reconheço, hoje, que faria diferente.

Na eleição de 2014 e 2018, cravei Marina Silva, no primeiro turno; no segundo, não votei, em 2014, porque estava no exterior e optei pela ausência e, em 2018, nem Haddad e nem Bolsonaro. Causei estranheza em vários amigos, em 2014, e furor em amigos e colegas, em 2018. Manteria as escolhas que fiz nos dois pleitos.

A patrulha ideológica, expressão criada por Cacá Diegues, remonta à década de 1970.

Ela mostrava o descontentamento dos artistas contra aqueles que queriam determinar os caminhos da criação artística. Os patrulheiros exigiam, por exemplo, arte engajada num momento de resistência aos anos de autoritarismo pelos quais passava o Brasil. Qualquer criação, mesmo a mais alta expressão artística, a quintessência estética, se não fosse politicamente engajada era considerada alienação.

O patrulhamento ideológico funciona de forma cafajeste e desonesta, pois busca mobilizar a má consciência do cidadão.

O cidadão comum quase sempre teme ser identificado como elemento de expressão do atraso e do erro. Sendo assim, o mecanismo de ação do patrulhamento ideológico visa calar os descontentes e garantir uma posição inquestionável para os grupos que dele se beneficiam.

Ora, a sociedade não é um bloco monolítico, mas uma construção fraturada e tal construção se faz, em grande medida, no jogo político. E política é confronto, é conflito – principalmente de projetos calcados em ideias. Se o ambiente não for plural, as ideias são silenciadas, forjando-se daí um projeto autoritário.

Os meios de comunicação têm buscado nivelar todos os caminhos do fazer política. Busca-se, hoje, por fim da força, forjar consensos. Se assim for, não existe sociedade tal como conhecemos e, portanto, não podemos mais fazer política. Consensos saem de conflitos, de dissensos. É da lógica social e política que quem expõe suas ideias publicamente seja criticado por quem pensa diferente. Mas o contraditório não deve significar a desconsideração da posição do outro; apenas e tão-somente a sua contestação para, do conflito, surgir algo novo que sirva de massa para modelar a sociedade.

Goethe, escritor alemão que viveu entre os séculos XVIII e XIX, fase do nascimento, florescimento e consolidação do Romantismo, dizia com propriedade que o homem só conhece o mundo que tem dentro de si se tiver consciência de si mesmo dentro do mundo. Em outras palavras, o desenvolvimento da conscientização humana depende da superação do isolamento e do alheamento. É movimento dialético, que vai do “eu ao mundo” e do “mundo ao eu”.

Quem patrulha deve entender que indivíduos e cidadãos não existem para protagonizar espetáculos de aplausos subservientes como se fossem uma massa dirigida. O conflito, por estar na raiz da construção democrática, é resultado de visões de mundo diferentes. E é bom que seja assim. Os indivíduos vão do fazer ao saber e deste ao refazer, num processo dialético sem fim. O pensamento único impede o surgimento do novo e, portanto, destrói a construção histórica e a dinâmica social democrática.