Certo dia um colega trabalho me perguntou como eu me situava politicamente. Eu, sem titubear, disse-lhe que me considerava um liberal com alguma tintura conservadora.

Rindo, o fulano – filho de professor universitário com certo mérito – que quase nada fala, de aproveitável, sem citar o papai, insistiu: “Você é de direita?”.

Quem conhece a realidade de instituições federais de ensino ou mesmo da docência em qualquer nível e em qualquer escola, ser visto como de direita é quase uma condenação à morte. Como não sou de fugir de briga, disse-lhe: “Não me considero de direita e, como você sabe, fujo como o diabo da cruz, do esquerdismo juvenil. Ando pelo centro, mas se você e qualquer outro dos que pensam como igual quiserem me colar o rótulo de direita, aceito sem reclamar, afinal o que você e eles pensam não me incomoda em nada, por um motivo simples: há o que não leem; há os que leem e não entendem o que leram; e há o que entendem e são intelectualmente desonestos. Você faz parte do primeiro grupo”.

Esse mesmo fulano foi um dos primeiros a andar em grupos de aplicativo me difamando e me injuriando em entre o final de abril e o início de maio.

Outro, atualmente à frente de uma unidade de ensino no interior do estado, não podia ouvir meu nome, que, espumando baba bovina sacava o argumento sofisticado: “É um fascista, um reacionário”, sem saber exatamente o que são um e outro.

Os doutos doutores não sabem o que falam e confirmam a regra que um dos meus orientadores acadêmicos repetia à exaustão: “Idiotas defendem tese”.

Há imensa confusão entre o que é ser conservador e o que é ser reacionário e infelizmente a ignorância e grosseria pautam insultadores, insultados, corre em meio aos pretensos estudiosos e difunde-se por grande parte da sociedade que se lhes apresenta como público.

O reacionário aposta na retomada de uma felicidade, real ou presumida, que passou e que ele teima em ver voltar. É um utopista que dirige o carro olhando o mundo pelo retrovisor. Nostálgico, luta para que o mundo volta a experimentar o que já foi.

As viúvas de Vargas e do regime de 1964 são exemplos vivos do nosso reacionarismo político, como existem os saudosos das utopias revolucionárias regressistas. É gente que, a despeito de defender a liberdade, atacam-na e querem vê-la destruída ou viva apenas naqueles aspectos que lhe pareçam interessantes.

Dizer que o conservador é alguém que pretende conservar uma situação existente ou que manifesta aversão em mudar determinado estado de coisas é uma simplificação grosseira.

É preciso muito mais para discutir o assunto a sério.

O termo conservador é usado como ofensa no Brasil ou ousado como um coringa para designar qualquer coisa que fuja ao esquerdismo juvenilizado e/ou teoricamente grosseiro, em parte porque o conservadorismo é uma concepção política negligenciada nas universidades e no meio cultural brasileiro.

Ser conservador na China não é a mesma coisa de ser conservador nos Estados Unidos ou na Arábia Saudita ou na França e por aí vai. Logo, para reduzir tudo a um único denominador, adianto que, no geral, o conservador, em qualquer parte do mundo e em qualquer época, prefere o conhecido ao desconhecido. Saltar no escuro não é, em hipótese alguma, tarefa assumida por um conservador.

A ciência moderna, hoje assunto da moda, só se faz, por exemplo, à base de testes e retestes, seguindo método. Por mais que promova mudanças e sirva de combustível para as transformações, ela está assentada em bases firmes, convenientes, limitadas, prováveis. Então, a ciência moderna, criação da civilização ocidental, traz consigo as sementes da conservação e da mudança.

No texto As tolices dos nossos partidos, o inglês Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) diz que “o mundo moderno está dividido entre conservadores e progressistas. O papel dos progressistas é continuar cometendo erros. O papel dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o revolucionário se arrependesse da revolução, o tradicionalista já a estaria defendendo como parte de sua tradição. Portanto, temos dois grandes tipos de pessoas: a avançada que se precipita para a ruína, e a retrospectiva que aprecia as ruínas” (https://www.sociedadechestertonbrasil.org/as-tolices-dos-nossos-partidos/).

Samuel Huntington (1927-2008) aponta o conservadorismo como uma ideologia situacional e reativa, diferente da maioria das outras, ideacionais e ativas. E assim é porque ele só se manifesta quando identifica a ação de ideologias que propõem mudanças abruptas, radicais e destrutivas. Para o cientista político norte-americano, o conservadorismo é ideologia que brota de “um tipo de situação histórica em que um desafio importante é direcionado às instituições estabelecidas e em que os apoiantes dessas mesmas instituições empregam a ideologia conservadora em sua defesa” (https://www.gov.br/defesa/pt-br/arquivos/ensino_e_pesquisa/defesa_academia/dissertacoes_e_teses/viii_cdtdn_2018/percursosa_doa_conservadorismoa_contemporaneo.pdf).

Três importantes pilares nos quais se sustenta o conservadorismo são a vida, a liberdade e a propriedade, como o exercício da liberdade não condicionado a qualquer tipo de opressão efetivada pelo Estado. Mais, ao Estado cabe garanti-la e evitar qualquer tipo de opressão. O fundamento-mor é a manutenção da ordem por meio da defesa do Estado de Direito, que evitaria a desagregação da sociedade.