Três opiniões sobre o historiador da música brasileira José Ramos Tinhorão:

1) Tom Jobim, de quem Tinhorão arrolou 16 músicas com antecedentes conhecidos, isto é, plágio,  disse que urinava diária e religiosamente num vaso de “tinhorão”.

2) Para o crítico Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, “tinhorão é apenas uma árvore herbácea da família das Aráceas”.

3) Ruy Castro o define como bête noire e dragão da maldade da bossa nova em seu livro Chega de Saudade, porque, entre outras coisas, numa série de artigos para o Jornal do Brasil, em março de 1962, disse que a “bossa nova nasceu como automóvel de JK: apenas montado no Brasil” e, suprema das heresias para os aficionados do gênero, afirmou que Tom Jobim “começou querendo ser Villa-Lobos, depois se conformava em ser Cole Porter e acabou sendo só Antônio Carlos Jobim – ele não era um criador, era um bom músico”.

Bons tempos aqueles em que se podia desancar a bossa-nova, dizendo que era apenas uma expressão cultural chupara pela classe média brasileira da norte-americana.

Soubesse Tinhorão os rumos da música brasileira entre o final do século passado e o início deste, apagaria o que escreveu e incensaria a bossa-nova.

Agora nestes tempos de Covid-19, fui bombardeado por um sem-número de pessoas que me perguntavam se eu iria ou não aos shows de Safadão.

A todos, invariavelmente, eu afirmava que não, por dois motivos: evito ir a locais muito movimentados e não gosto de porcaria.

Todos ou quase todos me respondiam estupefatos, que Safadão é um grande cantor de forró (??!!).

Acostumados a ouvir heresias, eu repetia que o forró de que gosto é o de Gonzagão, Dominguinhos, Nando Cordel, Flávio José e por aí vai.

Não adiantava muito. Então, recolhia-me ao silêncio.

Admiro sobremaneira a beleza feminina, mas sou crítico da superexposição da mulher, transformada num objeto de consumo e o figurino que acompanha Safadão é composto por jovens que se vestem, como dizia o grande Luiz Gonzaga, “com blusas que terminam muito cedo e saias e shorts que começam muito tarde”.

Mas há algo pior.

É comum ouvir em shows de bandas de forró perguntas como “Há rapariga aí?” ou “Há corno aí?”.

Para confirmar pedem que, se houver, que levantem a mão. Para espanto de qualquer pessoa minimamente consciente, a maioria das mulheres levanta a mão. muitos homens, não sei se cornos ou não também o fazem.

A plateia delira quando os vocalistas das bandas, digamos, de forró utilizaram o escasso vocabulário de umas quatro palavras prediletas (dele e todas bandas do gênero): cachaça, putaria, cabaré e “gaia”.

Há duas ou três décadas passadas, alguém que procedesse como o fazem os vocalistas dessas, vá lá!, bandas de forró, dificilmente deixaria ileso a cidade na qual fizesse o show.

Abomino, por entendê-lo como autoritário, o discurso moralista. Tampouco, destilo elitismo. Acho, entretanto, que quando alguém que se denomina artista, em público, inquire a plateia com expressões do tipo "tem rapariga ou corno aí?" e obtém resposta positiva, mesmo das que não o são, é um indício de que algo muito sério está acontecendo na sociedade. O caso torna-se ainda mais sério quando percebemos que o fenômeno engolfa os jovens celeremente. Os mesmos que em pouco mais de uma década estarão se preparando para empalmar o poder e gerir os destinos da nação.

Não sei o motivo pelo qual as pessoas, hoje, vibram ao serem chamadas de corno, rapariga e afins. Intuo, no entanto, que a culpa pelo baixíssimo nível deve ser debitado não somente na conta das bandas. Os seus integrantes são vítimas de um sistema que os “deseducou”. Quando muito, apenas empregados de empresários que investem pesadamente e que exigem retorno financeiro. Chegamos assim a um estágio em que o bom gosto foi mandado para as cucuias, tornando virtuoso o que é apenas primitivismo estético.

A glamourização do que seria apenas dejeto cultural engole toda uma juventude descrente nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada por bandidos que estão, até mesmo, encastelados no aparelho do Estado.

A vítima é o bom gosto. E os nossos ouvidos.

Com o corona à espreita.