De tempos em tempos aparece um vídeo com reportagem do programa Fantástico sobre um suposto plano de invasão do Exército dos Estados Unidos ao Nordeste do Brasil, como ponto de defesa durante a Segunda Guerra Mundial. A matéria aponta até mesmo a praia de Genipabu como ponto de desembarque, segundo documentos da época. (Link do vídeo)

Mas enfim, os americanos realmente iriam invadir Natal?

Antes de responder a pergunta, vale apontar alguns fatos ligados ao tema e que vão na contramão desta tese. Desde o século XIX, os EUA criaram políticas de isolamento em relação a outros continentes e fortalecimento de um bloco puramente americano. A Doutrina Monroe foi um exemplo disto, com o lema: “América para os americanos”.

Isso se tornou ainda mais evidente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os “yankees” tiveram que ir lutar na Europa, com pouco ou nenhum apoio das nações do próprio continente – O Brasil teve um breve envolvimento no conflito, mas é tema para outra postagem no futuro – ceifando inúmeras vidas.

Já na década de 1930, com as tensões aumentando na “Velho Continente”, os EUA decidem tomar algumas medidas, como conferências interamericanas com países da América Latina e do Sul, a criação da Carta do Atlântico junto da Inglaterra e uma tentativa de aproximação econômica com as nações do continente. No encontro de líderes de 1936, realizada em Buenos Aires e denominada como, Conferência Interamericana de Consolidação da Paz, é discutido o tema de uma guerra como a Primeira que envolvesse outros continentes, selando um pacto de apoio entre as nações americanas.

Ou seja, no discurso, se uma nação do continente fosse atacada por uma de outro, as demais prestariam apoio. O que foi ratificado em 1938, em Cuba, e depois em 1942, no Rio de Janeiro, após o ataque a Pearl Harbor, no Havaí.

Apenas com esses argumentos, fica claro que os EUA nunca precisariam invadir o Brasil, se o presidente brasileiro, Getúlio Vargas, não colocasse em dúvida suas intenções. Com o golpe de 1937, o ditador entrou no radar das famosas agências, como o Federal Bureau of Investigation (FBI) e o Escritório de Inteligência – equivalente da CIA atual –, principalmente por questões ideológicas e a forte relação comercial que o Brasil tinha com a Alemanha. Vale ressaltar que uma parte dos nossos militares eram germanófilos, inclusive viabilizavam a compra de armamento nazista.

Neste cenário, surge a necessidade de industrialização nacional, cujo ponto de partida seria uma siderúrgica. O Governo Vargas tinha um grande desafio, a começar pelo tamanho da obra, o custo e o acesso a tecnologia. Então, é criada a Comissão Executiva do Plano Siderúrgico para discutir o futuro da indústria e viabilizar capital estrangeiro. Um dos países que sinalizam positivamente é a Alemanha de Adolf Hitler, ainda em 1939. Mas no mesmo ano, a guerra estoura com a invasão da Polônia e os investidores recuam.

Ao mesmo tempo, a Comissão continua a trabalhar e encontra um banco norte-americano disposto a financiar a obra, porém, também recua devido ao risco de uma guerra mundial. Então, em 11 de junho de 1940, Getúlio Vargas entra para a história com um discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais, atracado no porto do Rio de Janeiro, faz um discurso criticando os países liberais e defendendo a intervenção do Estado na economia. Apesar de não citar nominalmente, fica subentendido em determinado trecho a exaltação dele pelos feitos do nazismo, que há poucos dias tinha invadido a França.

“É preciso reconhecer o direito de nações fortes que se impõe pela organização baseada no sentimento de pátria e sustenta-se pela convicção da própria superioridade”, chegou a dizer.

A siderurgia nos EUA já estava totalmente estabelecida e tinha condição de apoiar uma instalação “verde e amarela”. E depois da fala de Vargas, os americanos despertaram para a necessidade urgente de uma aproximação definitiva, para eliminar qualquer receio de uma presença dos países do Eixo na América, tendo o Brasil como porta de entrada.

Os papéis são preparados e assinados, em um acordo que mudou a história do Brasil, do Nordeste e de Natal. Em troca do recurso financeiro, cedemos território para a construção de bases aéreas, ou melhor, “aeroportos”. Ainda na década de 1930, os americanos notaram a importância de Natal e precisavam de um ponto seguro e com condições climáticas razoáveis que permitissem a atividade aérea constante. As justificativas para utilizar a cidade eram civis, contudo, existia uma motivação velada, a qual incluía o plano de fornecer material bélico aos ingleses, que lutavam no norte da África e necessitavam de uma rota segura. A cidade era perfeita, pois possuía as condições naturais desejadas, o contato da população com a tecnologia aeronáutica, uma certa estrutura de campo de pouso e para a construção civil; mão de obra barata e abundante.

Contudo, o Brasil era uma nação soberana e não permitiria a interferência militar de outra nação, ainda mais em tempos de guerra, pois desde 1938 havia conflitos entre nações da Europa e Ásia. A solução foi um acordo que permitiu a instalação de aeroportos no território brasileiro e em troca, o Governo Vargas teve acesso a recursos e meios para implantar a siderúrgica de Volta Redonda, denominada posteriormente de Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Esse feito colocou o Brasil ao lado dos Aliados, pois já em janeiro de 1942 rompe relações com a Alemanha, em agosto do mesmo ano declara guerra e em 28 de janeiro de 1943, na Conferência do Potengi, em Natal, oficializa o envio de tropas para lutar no front. Resumindo, anos e anos de namoro com Hitler, acabou em questão de meses por causa do dinheiro para a CSN.

Foto do encontro dos presidentes em Natal, no ano de 1943 (Acervo do autor)

As Agências

Este tema da invasão americana ganhou muita repercussão nos anos 1990, quando alguns documentos referentes a Natal foram desclassificados como sigilosos pelo governo norte-americano, e mais ainda em 2017 com mais liberação de informação.

Nos anos 1930, os serviços de inteligência decidiram traçar diversos perfis de autoridades, artistas, pessoas influentes e militares brasileiros. A verdadeira espionagem em nosso solo. Os relatórios vão de textos enormes a simples citações, incluindo alemães e italianos que morassem nas cidades, a exemplo de famílias natalenses alvos dessa espionagem.

Por sua proximidade com o Norte da África, a base de Parnamirim Field foi considerada, segundo documentos do Departamento de Guerra dos EUA, "um dos quatro pontos estratégicos mais importantes do mundo", comparada ao Estreito de Gibraltar, o canal de Suez e Dardanellos (todos no Mediterrâneo).
O estudo de 1941, antes mesmo do Brasil largar a sua "neutralidade" e aderir aos aliados. A grande preocupação era um avanço alemão no Norte da África e uma possível tomada militar do nordeste brasileiro – o que se sabe hoje ser quase impossível com os recursos da época. Então, havia sim um plano de invasão americano para ocupação em nosso território, se algo desse errado.

Proximidade do Nordeste do Brasil com a África despertava atenção das nações inimigas

Os documentos mostram uma preocupação conosco ainda na Guerra Fria, em um deles a agência afirma que Brasil e EUA "devem representar os últimos bastiões da liberdade, reafirmando a tradição histórica de aliados leais e sinceros".

Fonte:

  • Organização dos Estados Americanos
  • Arquivo exibe "guerra ignorada' no Brasil, Folha de São Paulo, 1998.
  • 1942: O Brasil e sua Guerra quase desconhecida, João Barone, 2013.
  • A Engenharia Norte Americana em Natal, Leonardo Dantas, 2018.
  • Relações Militares: Brasil - EUA 1939/1943, Giovanni Latfalla, 2019