Há alguns anos testemunhamos um partido político nascido há quase quatro décadas como propositor de uma ruptura com as formas arcaicas de fazer política arriar-se frente a homens arcaicos que fazem política de forma arcaica.

Os partidos políticos brasileiros pouco se diferenciam, do ponto de vista moral, entre si. Quase todos igualam-se no assalto aos cofres públicos ou, no mínimo, na postura patrimonialista.

Há os que carregam liberal no nome ou nas diretrizes, mas de liberal nada têm.

Os que se dizem social-democratas nasceram longe dos trabalhadores, diferentemente de seus congêneres europeus.

E os que se proclamam dos trabalhadores têm em seus quadros membros que fogem do batente como a diabo foge da cruz.

Ainda que não acreditemos nas pregações de nossas lideranças e agremiações políticas, não devemos deixar de ouvi-las. E o que é dito está em dissonância com suas práticas e em contraste com as bandeiras costumeiramente levantadas.

Os partidos políticos brasileiros, com raras exceções, sempre foram muito bravateadores. Flutuaram e flutuam de revolucionários da ética na política a reformistas radicais nos costumes, mas logo transformam-se em bois mansos e se aninham no colo do que há de mais atrasado e nefasto.

Manso, diz o Houaiss, é alguém de “gênio afável, sossegado, bom; dócil, pacato; (...) apaziguado, calmo (....); que não faz ruído e/ou que não se movimenta (...); que se domesticou; não bravio; amansado.” Os mansos vivem na mansidão, segundo o mesmo Houaiss, “sem inquietação”.

A célula estadual de um dos nossos partidos reformadores quase sempre se caracterizou por lançar, em eleições, nomes com pouco gabarito político e pouco apelo eleitoral para postos importantes. O estado de mansidão consubstanciava-se na mansas escolhas feitas, caminho que indicava o pouco ou nenhum desejo de realmente vencer, mas somente o de manter intocados os mandatos cartoriais que sabida e “sabiamente” renovava, ainda que ao custo da pouca renovação.

Os mansos de plantão sempre fizeram a sua parte e sempre se prestaram a um trabalho burocrático – lançarem-se numa campanha de mentirinha para esperar a recompensa de um possível mandato de menor envergadura mais à frente o alguma sinecura de gabinete.

Maquiavel, conforme Norberto Bobbio, concedeu uma certa licença moral aos que detém o poder. Mas tal concessão estava vinculada ao exercício do poder com vistas à execução de bons projetos. Aos líderes seria permitido não cumprir, eventualmente, seus pactos e suas palavras. Pelo bem da pátria (ou do estado, ou do município), ainda de acordo com Bobbio (escorado nos escritos do pensador de Florença), seria possível aos governantes usar a força, a astúcia e a dissimulação.

Maquiavel não renegou inteiramente a moral cristã. Ele apenas demonstrou que a política obriga, em determinados momentos, a ação pautada em princípios racionais.

Max Weber, sociólogo alemão que viveu entre o final do século XIX e o início do século XX, ao distinguir duas éticas, diz que a ação do político não pode dispensar suas convicções. A ética das convicções, diz Weber, determina as ações antes de sua vigência; a ética da responsabilidade trata de julgar as conseqüências das ações praticadas. Elas devem estar mais próximas. Quanto mais distantes estão, mais próximos da demagogia, da fanatismo e do cinismo estaremos.

Tudo vale para preservar cargos e mandatos, ainda que à custa da saúde das instituições públicas.

Isso não é Política, sob nenhuma ótica.