Na semana da comemoração dos 50 anos da conquista do tricampeonato de futebol, várias são as lembranças de uma seleção que até hoje é lembrada como a mais perfeita de todos os tempos. As emissoras de TV reprisaram os jogos da seleção naquela Copa (para deleite de todas as gerações e amantes do futebol de todas as idades), reportagens especiais foram feitas, lances foram dissecados, depoimentos emocionados de jogadores, enfim, uma festa nostálgica.   

Félix, jogando sem luvas, contestado por muitos, mas que mostrou arrojo e segurança contra Inglaterra e Uruguai e ousou ir contra a superstição calçando luvas apenas no jogo final; Carlos Alberto, o “capita”, mostrando sua autoridade diante dos ingleses e sendo o personagem das duas páginas finais da epopeia: o quarto gol na decisão e o levantar da taça; Clodoaldo, mais jovem do elenco e mostrando maturidade tática; Gerson, o maestro, a voz do treinador dentro de campo e a virtuose de pôr a bola onde queria; Jairzinho, “o furação da Copa”, escrevendo seu nome para a história ao ser o único a fazer gol em todos os jogos; Tostão, cerebral, obediente, operário, milimétrico, visão de jogo; um mito; Rivelino, “a patada atômica”, compreendeu que mesmo deslocado na esquerda teria sua importância e cumpriu à risca; Paulo Cezar Lima, “o PC Caju”, o 12o jogador e o gingado brasileiro à frente dos zagueiros cintura dura europeus.  

E Pelé? Esse é um capítulo à parte. Era sua última Copa, digamos 100%, pois se quisesse poderia ter ido à Alemanha/1974. Depois de encantar o mundo com 17 anos, na Suécia, viu Didi ser o astro em 1958. Contundiu-se em 1962 e 1966 e praticamente não jogou, com o protagonismo sendo de Garrincha e de Eusébio. Precisava de uma Copa para chamar de sua. O México era a oportunidade de mostrar ao mundo seu valor, como se isso fosse necessário. Pelé se superou. Foi a referência do time em campo, o segundo artilheiro da equipe com quatro gols, mas, paradoxalmente, se chamarmos você, aficionado por futebol, por Copas, pelo futebol brasileiro, a contar como foram esses quatro gols, certamente você vai titubear na resposta. Porém, se eu inverter, e perguntar quais foram os três gols que Pelé não fez, a resposta será imediata.   

Os gols não feitos e protagonizados por Pelé na Copa do Mundo de 1970 tem mais visibilidade do que a maioria dos 1281 gols oficiais do “Negão” em sua carreira. O tcheco Ivo Viktor, o inglês Gordon Banks e o uruguaio Ladislao Mazurkiewicz ficaram mundialmente conhecidos como os goleiros que levaram os “quase gols” mais bonitos da história do futebol mundial.

Três lances antológicos. Contra a Tchecoslováquia, Pelé estava antes da linha do meio do campo quando o viu Viktor adiantado na entrada da área. Sua genialidade permitiu surpreender o goleiro num chute de mais de 50 metros, que passou rente a trave esquerda, enquanto o arqueiro corria desesperado sem saber se olhava para a bola ou seguia para a trave.

O episódio Pelé versus Banks é o maior duelo da história dos mundiais. Duas virtuoses sendo perfeitas no seu ofício. O lance começa com o passe de três dedos de Carlos Alberto para Jairzinho, que foi a linha de fundo e cruza certeiro para a área da Inglaterra. Pelé usa sua impulsão para cabecear, de olhos abertos, com força e para o chão. A bola quicou e subiu. Banks, com agilidade felina, conseguiu ser ainda mais genial, pulando rapidamente e esticando a mão direita para jogar a bola por cima do gol. Um lance incrível.

Contra Mazurkiewicz, que depois veio jogar no Brasil pelo Atlético-MG, Pelé foi mágico. Ao receber o passe de Tostão e perceber que o goleiro saía da área para interceptar a jogada, deixou a bola passar, surpreendendo o arqueiro. Pelé deu a volta no goleiro e foi ao encontro da bola, chutando ao gol tentando pegar no ante pé o zagueiro Ancheta (que depois jogou no Grêmio) que corria estabanado para tentar fechar o gol. A bola, caprichosamente, passou a lado da trave direita.

Pelé considera que se os lances tivessem resultado em gols não ficariam tão famosos como, de fato, ficaram.

Créditos de informações e imagens para criação do texto: Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1 (Paulo Guilherme); História das Copas 1930 - 2006 (Revista Placar).