Estava assistindo, ontem, ao primeiro episódio de El Rey, que trata da trajetória, entre 1948-60, do futuro rei Juan Carlos, quando me veio à mente a polêmica, ocorrida em 2007, entre ele e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Para quem não lembra, o incidente entre o rei espanhol e Chávez ocorreu depois que o presidente venezuelano chamou o ex-primeiro-ministro espanhol Jose María Aznar de fascista, porque durante a sua gestão, Aznar foi um aliado próximo dos Estados Unidos.

Na ocasião, o então primeiro-ministro da Espanha, Jose Luís Rodriguez Zapatero, defendeu Aznar e disse que ele havia sido eleito “democraticamente pelo povo e foi um representante legítimo do povo espanhol”. Como Chávez, mesmo com o microfone desligado, tentou interromper Zapatero, o rei Juan Carlos levantou-se e ordenou-lhe, furioso: “Por que o senhor não cala a boca?” (https://videos.bol.uol.com.br/video/rei-juan-da-espanha-manda-hugo-chavez-se-calar-040266D0B91346).

O fato acima é um introito para que possa discorrer, nesta e na próxima semana, sobre o hábito, aqui no Brasil, de dizer ao mundo, notadamente aos países mais desenvolvidos, o que eles deveriam fazer para tornar a vida deles melhor e também para melhorar a situação dos países pobres.

A doença acometeu praticamente todas as nossas lideranças políticas de peso – mesmo que quase não as tenhamos e acomete o cidadão que estudou um pouquinho mais e se apresenta quase como especialista. E isso num país que não é bem um exemplo de como deve ser conduzida a política, da econômica à educacional, passando pela gestão da saúde e outras mais.

Quando os Estados Unidos são o assunto, então, existem especialistas de todos os tipos. Até quem nunca leu nada sobre o Tio Sam tem um recado a dar aos governantes de lá.

Nas universidades americanas não é incomum encontrar centros de estudos sobre América Latina. A quantidade de brasilianistas norte-americanos que já li é relativamente grande e todos dedicaram-se ou dedicam-se à história do Brasil por décadas. Quando falam ou escrevem sobre o nosso país, fazem-no com conhecimento de causa.

Tive a curiosidade de olhar, antes de escrever este texto, o site de universidades brasileiras para ver se havia alguma ação semelhante. Nada vi. O máximo que encontrei foi a inclusão de componentes curriculares em cursos que abordam elementos da história e da cultura norte-americana. Como minha pesquisa foi rápida, muita coisa pode ter passado sem que eu tenha visto.

Temos algo a ensinar ao mundo desenvolvido, é claro. Mas temos muito mais a aprender. Se quisermos ser conselheiros de alguém, devemos nos debruçar, com seriedade, sobre a história do aconselhado.

Para começar, faríamos mais e melhor se conhecêssemos a nossa própria história e situação, afinal um povo que vive num país com os índices de criminalidade, de analfabetismo, de corrupção e de injustiça social que nós temos, deveria se meter menos com os problemas dos outros, procurar menos culpados fora e trabalhar com afinco e silenciosamente para tirar o pé do lodaçal no qual vive e se meter menos com os problemas dos outros.