Não foi o impeachment de Dilma que jogou o Brasil nessa barafunda política. Aquilo foi apenas o sintoma de algo que corroía, por baixo, a ordem política urdida nos anos 1980, quando a oposição moderada uniu-se aos moderados que davam apoio ao regime para matar, sem sepultar, a ordem autoritária nascida em 1964.

Desde 2013, quando as ruas das principais cidades brasileiras foram tomadas por gente furibunda com as lideranças políticas, o Brasil não mais encontrou o rumo, porque abandonou a política para jogar o jogo dos salvadores messiânicos.  

A massa que tomou ruas e avenidas era formada por gente séria que sabia exatamente pelo que estava realmente protestando, por pessoas que foram festejar a simples ira dos descontentes, por uma multidão amorfa que não tinha a menor noção no que estava envolvida, pelos antissistema e por arruaceiros e baderneiros que simplesmente queriam depredar e destruir patrimônios público e privado.

Entre estes últimos estavam os que puseram a mão na massa e participaram ativamente das depredações e os intelectuais e pensadores (?!) que construíam formulações teóricas e acadêmicas sobre o que há de construtivo na destruição. Aquela turma de totalitários que, com vestes democráticas, trabalha para destruir o ambiente de liberdade de que se serve para propagar intolerância travestida de bem-querer.

O ambiente de intolerância no qual estamos imersos é construção coletiva, levada a extremos pela direita e esquerda adversárias da moderação.

Bolsonaro e Lula, abertamente adversários no pleito presidencial que se avizinha, são expressões personalistas do fenômeno.

O atual presidente, por razões para lá de claras, porque não consegue atuar sem criar conflitos, em sua maior parte desnecessários. Sem o conflito aberto, ele submerge na insignificância do que sempre foi.

Lula porque, a despeito de surgir aparentemente como homem de diálogo, exercita sua dupla personalidade, a de alguém moderado, quando a ele convém para atingir o fim a que se propõe, a saber, subir os degraus que lhe levam ao templo do poder, mas que, por baixo do pano, insufla a turma radical para romper os limites impostos pela ordem social e política. Os seus cães, como os de seu adversário, atuam maldizendo, difamando e injuriando qualquer um que se ponha à sua frente.

Cícero dizia que a política oferece dois caminhos para fazer o mal: a força ou a fraude. Ambas são indignas e bestiais, mas a fraude, disse o grande tribuno romano, é mais odiosa do que a violência porque quem a perpetra se faz passar por homem bom e justo.

Bolsonaro e Lula, em política, complementam-se. O primeiro quando exercita a sua boçalidade bélica; o segundo, a sua lábia demagógica. Às vezes, eles trocam os sinais, e o boçal torna-se demagogo e o demagogo, boçal, sem que os rebanhos que comandam permaneçam enormes e obedientes. E cegos aos defeitos de seus donos.

 

O rebanho deles, para citar Schopenhauer, odeia aqueles “que pensam diferente. Não tanto pela opinião em si, mas pela audácia de querer pensar por si mesmo. Algo que eles não sabem fazer”.

Enquanto estivermos na encruzilhada onde se encontram as duas avenidas, o Brasil não tira o pé do atoleiro.