Costumo dizer que no Brasil votamos com o coração, quase nunca com a razão.

Nada de novo no front, afinal o bom e velho e sábio Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, obra que tem quase noventa anos de vida, já discutiu a cordialidade do homem brasileiro, fazendo um exercício de análise da psicologia e da história social do nosso país e estabelecendo uma ponte entre o conhecimento do passado e os problemas que o Brasil enfrentava naquele momento histórico (anos 1930).

Em linhas gerais, o homem cordial seria o retrato pronto e acabado do brasileiro de origem patriarcal, dominado pelo coração, isto é, afável e ao mesmo tempo impulsivo e até mesmo violento, capaz de passar do caráter amável para a hostilidade fácil e rapidamente. Segundo Antônio Candido, na sua O significado de Raízes do Brasil, o homem cordial não seria necessariamente bom, mas um ser no qual haveria o “predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez”, alguém “visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo, e não da sua marca pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários” e igualmente avesso, completo, escudado no próprio Sérgio Buarque de Holanda, a distinção entre o público e o privado.

Há críticas honestos e desonestas à interpretação histórica brasileiro feita pelo pai de Chico Buarque de Holanda. Como aqui não tenho o objetivo de debater as ideias do grande historiador brasileiro, mas apenas e tão-somente usá-lo como ponto de partida para registrar meu quase fastio com quadro político e eleitoral do Brasil, passo por cima das críticas e mantenho o pé no conceito elaborado por ele, a saber, o homem cordial, para apontar o emocionalismo que toma e tolda as opções e análises políticas.  

Tenho evitado, o quanto possível, entrar em discussões sobre as eleições presidenciais deste ano. Principalmente quando elas se tornam acaloradas e emocionais demais, sem que as pessoas nelas envolvidas usem minimamente argumentos racionais para defender suas posições. Já escrevi, no entanto, um ou outro texto apontando semelhanças entre os líderes nas pesquisas, Lula e Bolsonaro, bem como as argumentações pedestres dos seus seguidores mais apaixonados, e mesmo as de alguns analistas profissionais de plantão. E quase sempre sou admoestado por bons colegas e amigos sobre estar incorrendo na falácia da falsa equivalência, falácia não-formal e que se manifesta quando dois lados opostos de um argumento são apresentados como se equivalentes fossem.

Segundo meus, digamos, críticos, entre os quais está o amigo e professor de Filosofia Luiz Roberto, forço a barra para comparar Lula e Bolsonaro, pondo-os no mesmo nível, quando não são. Concordo, em tese, com o que diz Luiz Roberto, crítico mordaz de Lula e crítico moderado de Bolsonaro, afinal Lula e Bolsonaro têm méritos e deméritos, mas eles, os méritos e deméritos não podem ser efetivamente comparados mecanicamente. Entretanto, numa campanha na qual dois candidatos despontam e partem muito à frente dos seus oponentes, é necessário pô-los lado a lado para averiguar como o passado e o presente deles pode ser medido. Isso não é igualá-los, mas compará-los.

Defensores de Lula dizem que o ex-presidente é um democrata e já demonstrou isso ao longo de toda a sua vida pública, e que apontá-lo como inimigo da democracia é uma forma de desqualificar a ele e ao PT, mantendo campanha midiática contra ambos, PT e Lula, falseando a realidade e pondo Lula e Bolsonaro como iguais. Esquecem, os partidários de Lula, que ele e o seu partido deram caneladas na construção democrática que dizem defender, recusando-se a compor a frente democrática que elegeu Tancredo Neves e a assinar a Constituição, abrindo processos de impeachment em série, propondo controle da mídia e perseguindo jornalistas que ousaram criticar o ex-presidente e o PT.

Defensores de Bolsonaro, por seu lado, argumentam que os rompantes do capitão devem-se à resistência que o sistema falido e viciado da política brasileira tem de entregar as tetas nas quais mamam há décadas. Os apoiadores de Bolsonaro precisam entender que apontar qualquer um que se manifeste, para criticar as ações do presidente e do seu governo, como comunista ou petista é um desserviço à democracia que, para sobreviver, precisa de oposição forte e vigilante. Defender abertamente o autoritarismo do regime de 1964 e agentes do porão, como já o fizeram Bolsonaro e alguns de seus aliados, não é certamente caminho civilizado e democrático.

A democracia brasileira não será salva de forma voluntariosa e messiânica, movida pela emoção. Não é necessário um salvador da pátria, um ungido que sente na cadeira presidencial para, de forma mágica, pôr o país nos trilhos. O que o Brasil precisa é de um presidente que tenha, com um projeto bem definido, a capacidade de unir as forças sociais e políticas, porque é unindo o povo em torno de um projeto viável, repito, viável e não salvacionista, que poderemos avançar em direção a uma democracia estável.

O messianismo político nasce de uma conjunção da fatores, entre os quais a insatisfação popular e um nacionalismo e patriotismo vesgo e canhestro. Em Portugal (e depois no Brasil) o messianismo político será potencializado pelo mito sebástico, nascido a partir do “sumiço”, em batalha, em meados do século XVI, do rei português de D. Sebastião, num momento em que Portugal ainda tinha fresquinho na memória imagens do seu passado imperial glorioso, quando estava na vanguarda das descobertas marítimas.

O desaparecimento misterioso do rei, sem que houvesse um substituto direto para assumir o trono (D. Sebastião não tinha filhos), fez nascer e crescer a crença de que o rei não morrera e que iria regressar como um redentor do seu povo, trazendo de volta o passado grandioso de Portugal. Havia aí, ressalte-se, um passado que não existiu como os portugueses diziam – com as gerações seguintes replicando as versões que ouviam cada vez mais distante da versão original que, por sua vez, não era nem de perto o que foi a realidade. Sobravam duas coisas: um futuro nebuloso a enfrentar e um rei “sumido” mas não morto, que dava lastro a um passado imaginário contado como verdadeiro.

No Brasil, o messianismo político adquirirá ainda mais forças, como dito acima, escorado no mito sebástico. Reforço: o messianismo ou sebastianismo político é um sistema político em busca de salvação e, por estar assentado em bases personalistas, corre atrás de um redentor.

O nosso passado nos oferece bons caminhos para que possamos entender a tendência que temos em seguirmos o padrão de escolha de lideranças carismáticas na política, crendo que elas irão formular saídas miraculosas que nos permitam sair do pântano em que nos encontramos e nos encham de esperança em um futuro melhor e mais alvissareiro. Mesmo se essas lideranças nos decepcionarem e se mostrarem incapazes de indicar minimamente as melhores veredas e vias, damos de ombros e seguimos os caminhos que elas nos apontam (princípio da contra-indução).

Líderes voluntariosos e personalistas não são efetivamente agregadores. Ainda mais se estiveram a conduzir grupos que preferem a cizânia à união.

Estaremos, em 1º de janeiro de 2023, dando posse “a’O Desejado”, “a’O Encoberto”, “a’O Adormecido”, como de tempos em tempos na história desta triste e aviltada república.