Semana passada escrevi texto neste espaço e daria continuidade às ideias ali apresentadas, mas resolvi ceder a vez para o professor Luiz Roberto, colega de instituição e amigo, polemizar. E como Luiz gosta da polêmica muito mais do que eu, segue o texto dele.

 

 

Uma reflexão sobre o dever: professores e profissionais da saúde

 

Há dias o amigo do qual adoro discordar, Sérgio Trindade, publicou o texto É hora de merendar a hipocrisia. Diga-se de passagem, num escrito com fatos bem demonstrados e argumentos muito bem elaborados, ele tratou fundamentalmente da ausência das instituições de ensino públicas no retorno às aulas presenciais, aqui em Natal.

Praticamente em ato contínuo, todos tivemos notícia da desditosa professora, do Departamento de Ciências Humanas e Letras, da UESB, que defendeu nas redes socias, acredito eu, intempestivamente, ou sob o efeito de alguma substância que promove o ódio do bem, a morte para os supostos filhos dos ricos, com o objetivo expresso de nivelar a educação. Para ela os “pais ricos” enviam seus filhos para escola, durante a pandemia, com o único intuito de tirar um peso de seus ombros. O que a jovem esqueceu de mencionar, ou de pensar, é que os “pais pobres”, aqueles que têm filhos estudando em escolas públicas, não estão enviando seus filhos para a escola – provavelmente deixam de enviar não porque não o queiram, mas porque enviar os filhos para a escola está interditado para eles. Isso mesmo. Vez que a interdição se deve aos nobres professores, das escolas públicas, que não querem voltar às aulas presenciais. Vale dizer, ainda! Não querem nem mesmo discutir a possibilidade.

Pois é, juntando tudo isso, e mais a minha vivência na docência, posso testemunhar que os professores das escolas públicas, como eu, estão apavorados com a possibilidade do retorno às aulas presenciais. Alguns alegam que é uma loucura total voltar para a escola sem que todos estejam vacinados. No frigir dos ovos, são tantas narrativas que penso sempre estar pisando em  terreno minado quando falo sobre isso.

Umas das coisas que o amigo Sérgio apontou em seu texto, eu venho humildemente prevendo desde setembro ou outubro de 2020. Que muitos profissionais da educação pública, principalmente a federal, não iriam querer voltar ao trabalho presencial no início de 2021, mas, tranquilamente, enviariam seus filhos para as melhores escolas privadas de Natal... É, parece que a professora lá de cima esqueceu disso antes de tecer seus infelizes comentários. Porquanto, é certo que isso não ocorre apenas na terra dos comedores de camarão.

Pois é, dias atrás estava conversando com uma profissional da saúde que trabalha em um hospital privado de Natal, lidando diariamente com o Covid-19, e fiz a seguinte pergunta para ela: vocês todos já pegaram o Covid? Ela respondeu negativamente para o caso dela, bem como para diversos outros colegas que trabalham no mesmo hospital. Mas também disse que muitos outros foram contaminados, bem como que, infelizmente, perdeu alguns colegas. Na mesma hora pensei em nós professores.

Meu raciocínio é o seguinte. Pera aí, antes tenho que fazer uma admoestação: não me venham falar de vacina, pois ela só chegou agora. E os estudos provam que não é 100% efetiva.

Segue o raciocínio...

Os profissionais da saúde estão precisamente naquilo que chamamos de Linha de Frente do combate à maldita doença. Ora, isso ocorre há quase um ano. E eles estão recebendo diariamente pessoas e mais pessoas contaminadas com o vírus. E a despeito de qualquer medo, que no caso deles não causa paralisia mental e de discernimento, estão colocando a si mesmos em risco, bem como suas famílias e entes queridos. A menos que não tivessem filhos, pais, mães, irmãos, sobrinhos, tios, amigos, namorados e netos, e por aí afora. Em resumo, fossem viventes sem qualquer proximidade social com outros seres humanos fora da órbita da saúde.

Já nós, profissionais da educação, que não iremos lidar diretamente com as pessoas doentes, em porcentagem nem decimal daquela que o pessoal da saúde é obrigado a tratar em seu cotidiano, alegamos o medo estarrecedor, paralisante da doença, bem como de levá-la para casa, pois os protocolos de biossegurança, pelo que parece, não são tão seguros assim para nós, da educação pública, quando do exercício de nossa atividade in loco.

A questão que me incomoda é porque nos apegamos tanto assim ao medo, enquanto uma boa parcela da sociedade não tem esse direito. Não, melhor, mesmo que o tenha, sabe que existe um dever a ser cumprido. Principalmente os heróis da saúde. Heróis, sim, pois decidiram enfrentar o medo e sair do conforto por conta do dever de suas profissões. E são centenas e mesmo milhares de pessoas nesta mesma situação. Trabalhando, sabendo daquilo que estão vocacionados a cumprir. Minha angústia provavelmente se deva a nós estarmos equivocados em relação à nossa vocação. E, sobretudo, junto a isso, do que deva refletir o exercício da docência.

São tantas incoerência e contradições presentes em nossas ações que nem é preciso enumerá-las aqui.

O que nutre nosso pavor? É a certeza do salário garantido? Um professor de escola ou universidade privada talvez não se dê a esse luxo. Nós acreditamos verdadeiramente que lidar com a docência é não enfrentar o desconforto? Mesmo que seja o desconforto de ir ali encarar nossos alunos na sala de aula.

Já nem sei ao certo se profissionais como nós farão alguma diferença positiva na vida dos milhares de alunos que estão fora das salas de aula, em ensino presencial. Conseguimos pensar na cova que estamos cavando para nós mesmo? Somos assassinos de nossas próprias reputações. E o pior, coveiros também.

Não sei para onde estamos indo, mas olho para o futuro assustado, sem saber quando e se chegaremos ao fundo do poço, ou da cova.