A descoberta dos destroços de um avião “Catalina” no litoral do Rio Grande do Norte, publicado no último dia 6 de junho, chamou a atenção para o esquadrão VP-83 da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) e sua missão na segunda guerra mundial. É consenso em quem pesquisa o tema que Natal ficou em uma situação confortável durante o conflito, pois as batalhas estavam ocorrendo a um oceano de distância, o que não era verdade para os membros do VP-83.

A atividade militar desses homens envolvia o risco de se voar na década de 1940, quando não existia tanta exigência em segurança de voo, a exemplo do acidente que vitimou o “Catalina” PBY-5 (BuNo #7252) citado antes, e ainda a possibilidade de confrontar um submarino no mar.

O VP-83 era um esquadrão de patrulha que tinha o enorme desafio de patrulhar pelo menos 3.500 mil quilômetros de costa, com apenas doze aeronaves. Os primeiros seis aviões PBY “Catalina” e tripulantes chegaram a Natal no início de abril de 1942, sendo o primeiro esquadrão a ocupar Parnamirim, substituindo o VP-52, que foi o primeiro esquadrão militar a chegar na cidade, ainda em dezembro de 1941, que ocupava a Rampa.

A inteligência aliada havia recebido a informação de que a Marinha Alemã estava enviando pelo menos dez submarinos, os temidos U-boots e outros de origem italiana, para atuar no Atlântico Sul e impedir o tráfego de navios a partir das Américas, desde o norte ao sul. Com isso, a U.S. Navy e a Marinha Britânica formularam um plano de patrulha entre ambas.

Catalina PBY-5 do VP-83 (Acervo do autor)

Contudo, nesta época o Brasil ainda era uma nação neutra, apesar de estar com relações rompidas não havia declarado guerra à Alemanha, mas tinha que assumir o compromisso firmado com os EUA sobre o apoio ao ataque sofrido em Pearl Harbor. Isso será tema de um outro post, pois enquanto a situação diplomática se desenrolava, a solução para a presença militar veio com a “Patrulha da Neutralidade”, liderada por americanos.

Até junho de 1942, o VP-83 estaria com sua capacidade máxima de operação com doze aviões, apesar de um deles ter se acidentado logo na chegada e dado como perdido. A rotina de voos era exaustiva, tanto pela necessidade de missões constantes tanto pela dimensão da área a ser coberta, chegando até o estado do Rio de Janeiro. Eles eram baseados em Parnamirim, tendo em vista ser melhor em termos operacionais pousar em terra, já que o modelo PBY-5 era anfíbio, mas esporadicamente também utilizavam a base da Rampa, pois a base terrestre em alguns períodos não tinha dormitórios suficientes diante da quantidade de homens.  O reforço de esquadrões chegaria apenas em dezembro, com a chegada do VP-74 e em janeiro de 1943, com o VP-94.

A passagem do VP-83 foi marcada por fatos pitorescos e pioneiros. O primeiro deles envolve justamente o dia de sua chegada, em 7 de abril de 1942, quando a rádio da Syndicato Condor noticiou sobre a vinda de “pilotos bêbado”. A transmissão foi vista com receio pelo americano, que acreditava se tratar de uma retransmissão com intuito de passar informação sigilosa e de espionagem, sobre a presença do esquadrão. A Condor era uma empresa subsidiária da Lufthansa, que tinha fortes laços com a Alemanha, entrando novamente na confusão diplomática, em que o Brasil estava permitindo a instalação de bases aliadas nordeste, bem como a presença militar e ainda não tinha declarado guerra ao Eixo.

Sobreviventes de submarino afundado por avião do VP-83 (Foto: Arcevo do autor)

Outro relato oficial e talvez o mais importante diz respeito ao afundamento de três submarinos por aviões do VP-83, entre eles, o pioneiro de todos. Vale salientar que entre abril e dezembro de 1942 nenhum submarino inimigo havia sido afundado no Atlântico Sul. Contudo, com o incremento de novas abordagens e tecnologias fez a maré mudar a favor dos aliados, pois em 6 de janeiro daquele ano, o avião número 2 do VP-83 (83-P-2) ao retornar de Belém avistou e atacou com sucesso o U-164. O esquadrão ainda foi responsável pelo afundamento do U-507 que levou o Brasil a entrar na guerra e do italiano Archimedes.

O VP-83 permaneceu em Natal até fevereiro de 1943, quando seus meios e pessoal viajaram de volta ao EUA para treinamento, pois em breve receberiam um novo avião, o PB4Y “Liberator”, designados agora como VB-107. Meses depois, este esquadrão seria transferido para Natal.

PB4Y Liberator do VB-107

Patch do esquadrão VP-83

Nota de editor: O pesquisador do Centro Cultural Trampolim da Vitória, Frederico Nicolau, que ajudou nesta pesquisa, aponta que em maio de 1942, um B-25 com tripulação mista (EUA e Brasil) havia atacado um submarino italiano, sem conseguir afundá-lo.

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