Sérgio Trindade

Uma Presidência aprisionada

Uma Presidência aprisionada

Semana passada escrevi que o Brasil ainda se encontra preso à Era Sarney.

Apresentei alguns sinais que e ora apresento outros, alguns contraditórios.

O presidente Jair Bolsonaro foi candidato, em 2018, surfando uma onda moralista.

Moralista, não exatamente moralizadora, como é possível vislumbrar por algumas posições assumidas por ele.

É notório que Bolsonaro foi, no início do governo, um soldado anti-Centrão, como também o foi, em certo momento, a ex-presidente Dilma Rousseff. (volto ao tema na próxima semana)

O bloco partidário não tinha, como grupo, cargo(s) no governo e vez por outra o presidente discursava contra loteamento político dos cargos, dizendo que não cederia às pressões dos partidos políticos, ainda que os cedesse a outros agrupamentos.

Tudo somado, a soma indicava ser zero, pois o governo não deixou de ser assediado por alguns dos bolsões fisiológicos incrustados na máquina do Estado.

Os fatos pareciam indicar, dado o perfil aparentemente austero do novo presidente, que o Brasil estava prestes a alcançar uma conquista há muito desejada, a saber, libertar a Presidência da República do fisiologismo e do clientelismo políticos cevados desde a ascensão da Cruzada Democrática ao poder, em 1985.

Repito: Dilma Rousseff chegou a ensaiar, no início do primeiro mandato, movimento semelhante.

Ledo engano, para quem acreditou que o Brasil estava chegando a uma nova Era, pois a Era Sarney continua altaneira, robusta, firme e resistente, e a Presidência continua prisioneira, refém dos interesses corporativos, partidários e pessoais.

Aproveitadores e achacadores das mais variadas espécies, que, como hienas, devoraram as entranhas de todos os governos, de Sarney a Temer, permanecem a postos, prontos a devorar as entranhas de qualquer governo.

As oligarquias que sangravam e sangram o país estão disponíveis para ocupar a máquina pública, loteando-a, e para assaltar os combalidos cofres públicos.

Ceder a ela passou a ser um elemento de sabedoria política convencional, pois se assim não for, dizem os especialistas, o país fica ingovernável e o presidente cai.

Está aí o maior entre os problemas políticos do Brasil, o que amarra e atravanca a administração pública, alimenta despudoradamente a corrupção e enfraquece o equilíbrio institucional do país.

Por esse sistema, parece que o Estado brasileiro só funciona se e somente se o governo saciar a insaciável necessidade de grupos políticos fisiológicos por espaços políticos e a também insaciável sede que cada um desses grupos tem por encher os bolsos com o dinheiro dos impostos que cada brasileiro deposita na conta do Estado.

Libertar a Presidência da República dessa arapuca não significa construir um sistema no qual os presidentes governem sozinhos ou num arremedo institucional no qual os três poderes sejam interdependentes.

Um sistema como o atual só funciona matando aqueles para quem ele deveria trabalhar – a sociedade e o povo brasileiros.

Mas isso é outra história.

A Era Sarney

A Era Sarney

Quando assumiu a Presidência da República, em 1985, primeiro provisoriamente e depois em definitivo, após a agonia e morte de Tancredo Neves, o titular, José Sarney veio com a velha e batida história do sacrifício pessoal.

Depois, sacrificou-se outras vezes, sacrificando a todos nós.

Sarney esteve em atividade política de 1955 a 2015.

Em 1955, então filiado à União Democrática Nacional (UDN), assumiu o mandato de deputado federal.

Onze anos depois, sentou na cadeira de governador do estado do Maranhão, dizendo que o estado “não quer mais a desonestidade no governo”, tampouco a corrupção e “a violência como instrumento de política” e menos ainda “a miséria, o analfabetismo, as mais altas taxas de mortalidade infantil”, entre outras coisas.

Não cumpriu uma única linha do que disse no discurso.

Entre o final da primeira metade dos anos 1960 e a primeira metade dos anos 1980, o oligarca maranhense foi um aplicado serviçal do regime nascido em 1964, para o qual virou, traiçoeiramente, as costas para se aliar com o Partido do Movimento Democrático Brasileira (PMDB), principal agremiação política de oposição.

O Brasil deve estar pagando por pecados colossais, porque por seis décadas padeceu sob Sarney, tentou levantar-se há pouco mais de trinta, mas viveu e vive aos pés dele, porque, em março de 1990, José Sarney saiu da Presidência da República mas continuou pautando, como senador e como presidente do Congresso Nacional, praticamente todos os presidentes da república.  

Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso (duas vezes), Lula (duas vezes), Dilma (uma vez e meia), Temer e agora Bolsonaro governaram o Brasil, mas quem ainda define para onde o país vai é uma das heranças deixadas pelo “estadista” maranhense, o tal presidencialismo de coalizão, eufemismo para um sistema que por aqui tem servido para saquear os cofres públicos em nome da governabilidade.  

Já li e ouvi muita gente boa falando sobre uma Era Fernando Henrique e uma Era Lula, mas o que parece sobreviver nos ardentes trópicos brasileiros é a Era Sarney.

E ela parece eterna.

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado) – II

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado) – II

Escrevi semana passada que a especulação é um elemento indissociável, em todos os campos, da vida humana e está cada vez mais sofisticada.

O especulador é visto, por estas paragens, como um ser maligno, mas todos somos apostadores em potencial, portanto especuladores, especialmente no campo econômico, no qual buscamos oportunidades.

A moderna economia de mercado não funciona sem o especulador, pois ele é simplesmente insubstituível em muitas situações, como por exemplo no caso do exportador que “trava” a taxa de câmbio para tentar resgatar a dívida por um valor constante em uma dada moeda.  O risco é inteiramente dele, que sabe o momento certo de agir para auferir lucros com a operação. Ao final, todos ganham com a sua ação.

Os livros de história econômica mostram que a ação de especuladores nos mercados futuros já se fazia presente, em semente, entre os gregos antigos, mas começaram a se disseminar nos Países Baixos do século XVI, donde se espalhou por todo o continente europeu e dali para outras partes do mundo, como forma de assegurar liquidez e reduzir custos de transação.

Os governos, quando desconhecem ou fazem pouco caso das regras de funcionamento dos mercados ou buscam o aplauso fácil da opinião pública, tendem a sufocar os mecanismos de regulação natural dos mercados.

As ações atabalhoadas dos burocratas estatais são ineficazes e criam incertezas e quase sempre resultam em transferência e fuga de ativos para mercados onde as regras são mais estáveis e sem intromissões indevidas e inconsequentes do Estado.

Há papel para o Estado na peleja, a saber, atuar de forma a garantir a estabilidade do sistema, separando o joio do trigo e evitando a especulação financeira que se afasta demasiadamente da economia real.

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado)

O mercado somos nós (Ou nós estamos no mercado)

Vez por outra ouço colegas e amigos deblaterar contra empresários, financistas, especuladores e toda a fauna que ganha ou tenta ganhar dinheiro no mercado.

O funcionamento do capitalismo exige a livre iniciativa, possivelmente o seu principal pilar.

Isso não significa que o mercado seja deixado inteiramente livre para funcionar.

Um certo grau de regulação existe para abrandar seus defeitos e para maximizar seus muitos benefícios.

Certa feita, ouvi uma conversa entre dois colegas que maldiziam a especulação financeira, como se ela fosse, em si mesma, um mal.

A especulação é um elemento indissociável da vida humana – no campo econômico, político, cultural, etc.

Quando o homem inventou os negócios, o dinheiro e o sistema de créditos, a especulação sofisticou-se.

Na economia, especuladores atuam principalmente no setor financeiro, “apostando” quais vão ser os movimento do mercado.

Quando o especulador atua nos mercados futuros e derivativos, o homem comum associa-o a um jogador compulsivo e não como um agente de gestão de riscos, que atua para azeitar a máquina econômica e, portanto, para melhorar o seu funcionamento.

O homem comum que abomina a especulação é o que muda os seus investimentos para ganhar um pouco mais ao final de um certo período, transferindo recursos de uma caderneta de poupança para um fundo de renda fixa ou deste para uma carteira de ações.

Também especula quando pesquisa na internet em busca em busca de passagens de aviões mais baratas, antecipando a compra porque suspeita que haverá aumento do valor mais à frente. Ou quando compra um carro a prazo, paga juros e usufruiu o seu uso, porque o benefício do bem-estar é maior que o custo do financiamento.

Não há santos no mercado.

Podem faltar oportunidades para que a inocência seja descartada.

O renascimento do DEM

O renascimento do DEM

Vez por outra ouço e leio que o presidente Jair Bolsonaro age como um louco, que é irracional e por aí vai.

Há de tudo nas ações de Bolsonaro, menos irracionalidade.

Bolsonaro age racionalmente, com método.

Política não se faz no palco.

Ela é quase toda feita nos bastidores.

No palco são passadas mensagens e sinalizações para aliados, para adversários e para o público/povo.

***

O que Bolsonaro faz, ao contestar o isolamento horizontal e pregar a introdução do isolamento vertical, é preparar o terreno pra responsabilizar prefeitos e governadores pela crise econômica pós-crise sanitária.

Nicolau Maquiavel disse que um “homem esquece mais facilmente a morte do pai do que a perda do patrimônio” e que, por vezes, a sua ambição pode ser “tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.”

***

Ao bater no então ministro da saúde, Henrique Mandetta, Bolsonaro pretende tirar de cena um potencial rival política que correria na mesma raia eleitoral dele em 2022.

O DEM controla o Congresso Nacional, com Rodrigo Maia presidindo a câmara de deputados e Davi Alcolumbre, o senado. Ambos praticamente manietam o governo Bolsonaro, mas não garantem ao partido a possibilidade de chegar ao Planalto, sonho acalentado e nunca concretizado.

“Mandetta é um técnico competente”, muita gente disse sobre o ex-ministro.

Mandetta estava numa função técnica, mas era da cota política do DEM (ex-PFL) e agiu, em grande medida, como político, gabaritando-se como nome nacional, o primeiro do PFL/DEM desde Luiz Eduardo Magalhães, que morreu presidente da câmara de deputados, em 1998, ao final do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Luiz Eduardo Magalhães era o nome do então PFL para concorrer à presidência da república em 2002, com alguém do PSDB como companheiro de chapa.

A morte precoce dele deixou o PFL órfão e só agora surge nome nacional para possivelmente concorrer ao Planalto em 2022.

É o melhor momento do DEM nas últimas duas décadas.

O partido certamente escalou Rodrigo Maia, Davi A e Ronaldo Caiado para chutar as canelas de Bolsonaro, enquanto Mandetta passava a imagem de técnico e estadista.

Se Mandetta colar como nome nacional, será nome do campo conservador como alternativa a Bolsonaro.

O grupo de Bolsonaro sabe disso e desgastou o ex-ministro da saúde, fazendo-o sair menor do que estava.  

A desconstrução ainda não foi completada.

Se representar ameaça política, à demissão seguir-se-ão, lançada nas mais variadas mídias, por bolsonaristas e esquerdistas, denúncias contra ele.

É do jogo.

Não há saúde sem esgotamento sanitário

Não há saúde sem esgotamento sanitário

De tempos em tempos, o Brasil tem de encarar o espelho e, quase sempre, a imagem que vê não é das melhores.

Está sendo assim neste momento, quando não só o país mas o mundo foi posto em xeque por um vírus.

Queremos ser grandes e desenvolvidos, no entanto não nos esforçamos muito para isso.

De nada adianta se proclamar grande e rico, porque grandeza e riqueza não são construídas com retórica, mas com trabalho e distribuição de riqueza.

O nosso ufanismo jeca uma vez mais precisa sair de cena para que encaremos a dura realidade: as nossas Escolas (do ensino médio ao superior) são um desastre, os nossos hospitais estão abandonados pelo poder público, as nossas cidades estão mergulhadas em fezes e urina e grande parte de nossa população mora e come mal.

Tudo isso já era sabido, o coronavírus apenas arregaçou, afinal não é segredo para quase ninguém que grande parte das nossas residências não têm fossa séptica; as saneadas jogam os seus efluentes, sem tratamento, em rios e no mar.

O rio Potengi, que divide Natal ao meio, é uma prova da irresponsabilidade criminosa de prefeitos e governadores.

O coronavírus tem tudo para fazer história por aqui por sua entrada triunfal em cena.

Mas, vamos e venhamos, se formos pensar em regularidade, os coliformes fecais são mais longevos e efetivos e têm batido um bolão.

Os fatores para a sua efetividade podem ser indicados por dois fatores: legislação leniente e ignorância e imediatismo da população e dos governantes.

Os indicadores de qualidade de vida no Brasil, nos últimos cento e vinte anos, mostram que evoluímos – e muito – em vários aspectos, exceto em um.

Os números não deixam dúvidas: a coleta e tratamento de esgoto permanece, digamos, estacionados. Mais de 50% da população ainda não tem acesso ao benefício.

Não é preciso ser gênio para saber que a falta de esgotamento sanitário contribui significativamente para a proliferação de doenças, que, segundo dados oficiais, são responsáveis pela internação de mais de setecentas mil pessoas por ano.

O investimento no setor certamente traria mais benefícios para a saúde do que a construção de hospitais, a compra de equipamentos sofisticados e a contratação de médicos e enfermeiros.

A ignorância da população sobre o assunto alimenta a fome de prefeitos e governadores por investimentos mais vistosos e menos benéficos para o povo, levando-os a gastar mais em obras que serão menos efetivas e eficazes do que enterrar canos e montar estações de tratamento de efluentes.

A chegada ao palco do coronavírus mostra que em muitas residências do país faltam banheiro, água tratada e rede de esgoto para coletar e tratar fezes e urina.

Um dia, talvez, saíamos da m...

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Natal tem noite chuvosa com trovões e relâmpagos