Lula avalia compra de novo avião presidencial após três incidentes, mas aliados temem desgastes em ano de eleição

29 de Dezembro 2025 - 17h28
Créditos: Ricardo Stuckert/PR

A intenção de trocar o avião presidencial decorre da insatisfação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da primeira-dama, Janja, com as limitações da atual aeronave. Segundo O Globo, Lula defende um equipamento com maior autonomia para voos internacionais, mais espaço para reuniões, área VIP e um quarto mais amplo, com cama.

O comandante da Aeronáutica, Marcelo Kanitz Damasceno, enfrenta dificuldades para encontrar no mercado internacional aeronaves que atendam às exigências do Palácio do Planalto. A escassez desse tipo de avião, somada ao tempo necessário para adaptações específicas de segurança e conforto exigidas para um chefe de Estado, pode levar o processo a se estender por meses ou até anos.

A Força Aérea Brasileira acionou corretores especializados para prospectar modelos disponíveis, consultar valores e analisar opções, que depois são submetidas à avaliação final de Lula. A compra ocorreria por meio de licitação. Em 2024, a FAB chegou a sondar aeronaves alemãs, incluindo uma usada pela ex-chanceler Angela Merkel, mas não houve avanço.

Especialistas apontam que há filas tanto para aquisição quanto para adaptação dessas aeronaves, processo que pode levar de dois a três anos. Lula tem se queixado dos riscos enfrentados em viagens oficiais, citando episódios recentes envolvendo falhas técnicas, como um problema em um C-105 Amazonas no Pará e uma pane no Airbus A319CJ — o Aerolula — no México, em outubro de 2024, quando a aeronave precisou voar por quase cinco horas para consumir combustível antes de pousar em segurança.

Outro incidente ocorreu em março, quando o Aerolula arremeteu ao tentar pousar em Sorocaba devido a ventos fortes. Após o episódio no México, o avião passou a operar com uma turbina alugada, enquanto novos motores são aguardados.

Adquirido há cerca de 20 anos, durante o primeiro mandato de Lula, o Aerolula tem autonomia limitada, o que já obrigou o presidente a fazer escalas em viagens longas, como na ida ao Japão, em 2023. Comprado por R$ 495 milhões (valores corrigidos), o avião voltou a ser alvo de críticas, e a proposta de troca foi apelidada pela oposição de “AeroJanja”.

Além dos entraves técnicos, o fator político pesa. Aliados avaliam que a compra poderia gerar desgaste em um ano pré-eleitoral. Há divergências no governo: parte defende adiar ou deixar a aquisição encaminhada para 2027, enquanto outra ala considera não avançar com a compra.

Também há impacto financeiro, já que, em período eleitoral, o PT precisa ressarcir o governo pelos custos de viagens feitas em aeronaves da FAB. Uma aeronave mais moderna poderia elevar essas despesas.

A discussão ocorre em meio a restrições orçamentárias nas Forças Armadas. O orçamento da Defesa para o próximo ano será de R$ 141 bilhões, com 76% destinados a gastos com pessoal. O ministro da Defesa, José Múcio, defende um piso de 2% do PIB para a área e alerta para a necessidade de previsibilidade nos investimentos. Nesse contexto, a eventual compra de um novo avião presidencial tende a disputar recursos com outras prioridades da Defesa Nacional.