O eleitor contra tudo

27 de Setembro 2024 - 10h37
Créditos: Montagem Internet

Por Sérgio Trindade

 

O jornalista José Roberto Guzzo escreveu texto com o título de Marçal e os outros, no qual põe, com precisão, o dedo na ferida sobre o atual momento da política tupiniquim.

Para Guzzo, independente da eleição municipal na capital paulista, parcela considerável do eleitor paulistano já deu um tapa na cara da política brasileira cravando, nas pesquisas, o nome de Pablo Marçal, um homem que “até três meses não existia no mundo político do Brasil, nunca teve um cargo público na vida, não está num partido de verdade e não conta com um único minuto no programa eleitoral na televisão tornou-se o candidato mais falado à prefeitura da maior, mais rica e mais importante cidade do Brasil”, contrariando “tudo que ensina a sabedoria concentrada dos analistas políticos brasileiros”.

E por quê?

Por motivo relativamente simples, diz Guzzo, a saber, enquanto os seus adversários – os candidatos, grande parte da mídia, a sociedade civil, etc – “olham para Marçal e gritam ‘perigo’”, considerável número de eleitores dá de ombros e indica que Marçal é um perigo menor do que o sistema contra o qual o candidato do PRTB diz brigar.

Seria, então, o caso de os líderes do arranjo político nacional se perguntarem sobre o que está errado “quando um estreante na vida pública, sem exibir qualquer programa coerente para qualquer das questões vitais de uma cidade com 12 milhões de habitantes e PIB por volta de R$ 1 trilhão, chega aonde ele chegou” e saber interpretar o recado do eleitorado, que parece perturbador: “E os programas de vocês todos, candidatos da boa ordem – valem o quê? Quando valeram alguma coisa?”.

Parece claro que o eleitor da maior cidade do Brasil tem “uma percepção e uma certeza. A percepção é que a cidade está um lixo. A certeza é que não foi Marçal que criou esse lixo” e que, assim, ele não pode ser pior do que os outros, expondo, uma vez mais, “toda a fragilidade da geringonça amarrada com barbante que é o mundo político no Brasil”.

Ouço muita gente gritar que o Brasil é uma democracia e vibrar quando o eleitor livre escolhe o seus representantes. Mas essa mesma gente que saúda o eleitor que escolhe os seus, achincalha-o quando ele resolve votar nos que não são da preferência dessa mesma gente, como se a democracia só fosse efetivamente democrática quando os representantes estivessem alinhados com determinado discurso, a saber, o da preferência desse gente descolada e progressista.

Ora, se parte do eleitor quer votar em Marçal, que o faça e aqueles que têm o leme da nau desgovernada que é o Brasil identifiquem e corrijam o rumo, sem bater na liberdade de escolha do eleitor.

Marçal é sintoma, não é causa de nada.

Há seis anos, o eleitorado brasileiro alçou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto e uma avalanche se ergueu contra os riscos que o ex-capitão do Exército representava para a democracia. Seis anos depois Bolsonaro está, por escolha do eleitor, fora da Presidência da República, segue líder político de peso no país mas não manda nem mesmo em parcela significativa daquilo que a esquerda chamava de gado.

Livre, parte do rebanho eleitoral de Bolsonaro crava o nome de Marçal nas pesquisas de opinião, porque “não existe, na verdade, um ‘bolsonarismo’ e muito menos um ‘marçalismo’, com ideário, programas e estatutos”, mas aversão acentuada a tudo que uma turma da política descolada pilota, a saber, “invasão de terra, ameaça à propriedade, crime imposto, governo, vadiagem, Brasília”.

Por isso, o eleitor “acha que personagens como Marçal vão resolver esses problemas?”.

Não, e o recado é claro: o eleitor parece dizer não saber se Marçal resolve e até acha que não resolve. Mas vocês que se batem contra ele são parte do problema, pois sempre se propuseram a resolvê-lo e só o aumentaram.

Repito: Marçal é sintoma de um problema, não sua causa. Guzzo dá diagnóstico, semelhante ao meu: “Pablo Marçal não é um acidente. Ao contrário, é o resultado inevitável da falência generalizada da política brasileira. Se a cidade de São Paulo chegou a uma situação em que Marçal passa a ser um risco, vale a pena pensar um pouco no seguinte: por que tanta gente está achando que os seus adversários são um risco ainda maior?”, e a realidade, chocante para muitos, é “que o candidato improvável foi criado pela cumplicidade dos políticos com a cracolândia, a expropriação do espaço público em favor da minoria que mora na rua e a nulidade quase absoluta de uma administração municipal atrás da outra. É fruto de uma mídia que trata os criminosos como vítimas sociais, de uma Justiça que solta traficantes de droga e lhes devolve os iates e da constatação de que o Brasil, um dos países mais corruptos do mundo, não tem um único corrupto na cadeia. Mais que tudo, é o retrato de um país que está exausto”.

Eu, que estou muito longe de ser Guzzo, mantenho o que disse: sem seriedade na política, o eleitor buscou alguém que escrachasse o políticos, os jornalistas... E que o fizesse como qualquer adolescente espirituoso no melhor estilo besteirol.