Os parques da Disney nos Estados Unidos reabriram após mais de um ano fechados devido à pandemia. O parque da Califórnia, que foi aberto em 1955, reformou alguns dos brinquedos clássicos. O tour “As aventuras assustadoras da Branca de Neve na Disneylândia” ganhou uma nova versão, “O desejo encantado de Branca de Neve”.

Bastou a primeira crítica sobre a nova atração para Branca de Neve ser jogada na esteira do cancelamento. Seguiu o destino de Pepe o Gambá, Ligeirinho e Piggy dos Muppets. O pior é que ela nem fez nada para justificar o cancelamento, fizeram com ela.

Uma crítica da nova atração, escrita na imprensa local da Califórnia, berço do Zen-Fascismo, frisou que o brinquedo novo não eliminou o principal problema do brinquedo de 1955. E qual é o problema? O beijo do príncipe na Branca de Neve. Ocorre que ela está desacordada, então o beijo não foi consentido.

O final da experiência no brinquedo é justamente com a cena do beijo. Para os críticos do SFGate, é um absurdo a Disney ter mantido a história. O melhor seria ter refeito a cena, colocando um final novo para a Branca de Neve. Você não leu errado, é isso que defendem.

“Já não concordamos que o consentimento nos primeiros filmes da Disney é um grande problema? Que ensinar às crianças que beijar, quando não foi estabelecido se ambas as partes estão dispostas a se envolver, não está certo? É difícil entender por que a Disneylândia de 2021 escolheria adicionar uma cena com ideias tão antiquadas do que um homem pode fazer com uma mulher, especialmente dada a ênfase atual da empresa em remover cenas problemáticas de passeios como Jungle Cruise e Splash Mountain . Por que não reinventar um final de acordo com o espírito do filme e a posição de Branca de Neve no cânone da Disney, mas que evite esse problema?”, diz a crítica do SFGate, que virou centro de debate na internet.

Eu não sei se a Branca de Neve que eu vi é a mesma. Que eu me lembre, ela não podia consentir porque estava morta. Comeu a maçã envenenada e morreu. Pode beijar o cadáver de uma mulher que você amava? Essa problematização começou a ficar bem mais interessante na minha mão. E também mais adequada à infância.

Se é para problematizar, vamos problematizar direito. Branca de Neve tem a madrasta interesseira, o pai que abandona filha por causa de mulher, a obsessão por beleza, o desejo de eterna juventude, o estigma da inveja entre mulheres, o homem como único objetivo de vida e salvação da mulher, estigmatização da velhice e não vou nem começar a analisar os anões senão não acabo o texto esta semana.

Pepe o Gambá e Ligeirinho foram acusados de racismo pelos sotaques. No final, acabaram absolvidos no Supremo Tribunal da Internet. Mas ainda viria a pancada final, o abuso. Pepe o Gambá tenta beijar suas pretendentes à força. Acabou sendo o primeiro cartoon demitido da história.

Depois a Miss Piggy, tão usada nos xingamentos políticos brasileiros, acabou cancelada também. Quem viu os Muppets sabia o quanto ela era cruel e abusiva com todos, sobretudo com Caco, o sapo. A internet deu-se conta disso um belo dia e tentou colar Miss Piggy na rabeira do cancelamento de Pepe o Gambá.

A discussão toda sobre cartoons abusivos com outros cartoons seria apenas ridícula não fosse uma ideia muito perigosa que começa a surgir, a de reescrever a história. Todo autoritarismo se estabelece apagando a história e reescrevendo à sua própria maneira. Vamos reescrever todas as referências culturais até que não tenhamos mais nenhuma, é isso?

Aparentemente, há uma boa intenção, a de ensinar a crianças que um beijo de amor deve ser consentido. O método escolhido é sair fuçando todas as histórias de ficção com beijos não consentidos e pedir que esse trecho seja mudado. Quem disse que o método funciona? Alguém comprovou? Não. Ocorre que ele funciona para outra coisa.

Vivemos uma enorme confusão entre militância e autoajuda. Qualquer militância é chatíssima porque precisamos aprender com os divergentes e convencer os que têm opinião diferente. Cancelar personagem de desenho animado não muda nada na prática nem convence ninguém. Aliás, tem o risco contrário.

Ocorre que ninguém está militando por crianças, consentimento ou um futuro melhor, está apenas buscando aprovação dentro do próprio grupo. As pessoas querem fazer parte de algo importante, mostrar ao seu grupo social que se preocupam. Para isso, funciona. Fulana disse que o príncipe deveria ter pedido consentimento da Branca de Neve, olha como ela se preocupa com as mulheres.

Nas redes sociais, acaba virando uma espécie de competição. Quem consegue atrair mais atenção para si? Tem lá a sugestão de apagar o final da Branca de Neve. Daí virá outro malhando outro personagem e assim sucessivamente. Não querem construir nada diferente, querem atenção atacando algo que os outros gostam. Dentro do grupo para quem a causa é importante, serão vistos como ousados, valentes.

A cultura muda quando criamos novas referências tão apaixonantes quanto as anteriores. E elas não cativam o público, sobretudo as crianças, porque são perfeitas. Referências culturais cativam quando são autênticas, por isso não podem ser refeitas.

O mais curioso é que refazer obra alheia, escondendo a impureza, seja visto agora como progressista. Após Concílio de Trento, que acabou em 1563, a Igreja Católica decidiu que tinha muito santo pelado no afresco O Juízo Final, de Michelangelo, na Capela Sistina. Ele morreu em 1564 e vários pintores foram chamados para fazer coberturas nos personagens retratados.

Naquela época, os religiosos acreditavam que a exposição da nudez em pinturas sacras era um incentivo à luxúria e à lascívia. Se suprimida, ajudaria muito. Em 1990 foi feita uma restauração na Capela Sistina e 15 das coberturas de nudez foram removidas. Não consta que tenha havido qualquer mudança significativa na luxúria humana antes e depois das coberturas de nudez do afresco.

Fonte: Blog do BG