Laudo aponta salmonela em cuscuz como causa de surto que deixou 500 presos doentes em Mossoró

30 de Setembro 2026 - 18h50
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Um surto alimentar que deixou cerca de 500 presos doentes em três unidades prisionais de Mossoró, na Região Oeste do Rio Grande do Norte, em junho, foi causado pela presença das bactérias Salmonella spp. e Escherichia coli nos alimentos servidos aos detentos. Com informações do g1 RN.

A conclusão consta em laudo da Polícia Científica, elaborado com informações do Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (LACEN-RN), ao qual a Inter TV Costa Branca teve acesso nesta quarta-feira (30). A intoxicação ocorreu na Cadeia Pública de Mossoró e nas alas feminina e masculina do Complexo Mário Negócio.

Segundo o documento, a salmonela foi identificada no cuscuz servido aos presos. A Escherichia coli também foi encontrada no arroz. De acordo com a perícia, a presença da bactéria no arroz serviu como evidência complementar de falhas nas condições de higiene durante o preparo da alimentação.

Os alimentos analisados pela Vigilância Sanitária de Mossoró foram salsicha, feijão, cuscuz e arroz. Os presos apresentaram principalmente diarreia e vômitos, além de relatos de febre. O laudo aponta que os sintomas são compatíveis com a salmonelose não tifoide, que também pode provocar dor abdominal e mal-estar.

Laudo aponta falha na cadeia de produção

A Polícia Científica apontou que houve falha higiênico-sanitária em alguma etapa da cadeia de produção e fornecimento dos alimentos. Como as refeições eram preparadas fora das unidades prisionais e chegavam prontas para distribuição, a perícia direcionou a provável origem da contaminação para etapas anteriores ao consumo, como produção, manipulação, acondicionamento, armazenamento ou transporte.

O laudo também informou que não foram encontradas cozinhas ou outros locais destinados à manipulação dos alimentos dentro das unidades. Dessa forma, as refeições relacionadas ao surto já chegavam prontas aos presídios e eram apenas recebidas e distribuídas aos internos.

As três unidades atingidas abrigam aproximadamente 1,5 mil presos. Com cerca de 500 pessoas afetadas, aproximadamente um terço da população carcerária desses locais apresentou sintomas.

Perícia aponta relação entre alimento contaminado e surto

Segundo o laudo, a exposição dos presos a uma alimentação comum, a ocorrência coletiva de sintomas gastrointestinais e a identificação de bactérias nos alimentos estabelecem uma forte correlação técnico-científica entre as refeições contaminadas e o episódio de adoecimento.

O perito criminal Clélio Soares, responsável pelo laudo, afirmou que a análise dos microrganismos identificados apresentou relação com os sintomas registrados entre os presos e indicou uma contaminação externa dos alimentos.

Apesar de apontar falha higiênico-sanitária, a perícia ressaltou que os resultados microbiológicos, isoladamente, não permitem determinar em qual etapa específica da cadeia de produção ocorreu o problema.

Empresa questiona coleta das amostras

A empresa Líder Refeições, responsável pelas marmitas, questionou o método utilizado pela Vigilância Sanitária para recolher as amostras. Segundo a empresa, a coleta não teria seguido os pré-requisitos previstos nas normas técnicas de nutrição.

A defesa afirmou ainda que a amostra foi recolhida sem recipiente adequado para manter a temperatura e que o material foi levado para análise em Natal, a mais de 250 quilômetros de Mossoró. A empresa argumentou que o alimento teria perdido temperatura durante o transporte.

A Líder Refeições também citou a possibilidade de contaminação nos ambientes onde os alimentos são servidos e afirmou que os centros prisionais possuem ambientes insalubres.

Seap instaurou procedimento

A Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap) informou que acionou os órgãos competentes para apurar o caso e instaurou procedimento administrativo contra a empresa responsável pela alimentação.

Segundo a pasta, o procedimento busca verificar eventual descumprimento das obrigações previstas no contrato e, caso sejam constatadas irregularidades, aplicar as medidas administrativas cabíveis, garantindo o direito de defesa da empresa.

A Seap informou ainda que notificou a empresa para regularizar os serviços e que mantém acompanhamento e fiscalização técnica da alimentação fornecida aos presos.

Os presos afetados pelo surto foram atendidos em uma Unidade Básica de Saúde instalada no complexo penitenciário. Diante da alta demanda, a Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró deslocou 12 equipes, entre médicos, enfermeiros e técnicos, para reforçar o atendimento.

Atualmente, são servidas cerca de 4,5 mil refeições por dia no sistema prisional de Mossoró. Um boletim de ocorrência também foi registrado sobre o caso.