Créditos: Marcelo Camargo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu uma bronca no ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, por causa de um documento enviado à Câmara no qual o chanceler afirmava que havia risco de os Estados Unidos fazerem uma intervenção militar em território brasileiro.
Durante ligação telefônica, o petista disse que foi um erro o Itamaraty mandar um documento assinado pelo ministro em resposta a um requerimento do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES). O congressista perguntava ao Ministério da Relações Exteriores as consequências de os EUA terem classificado como terroristas as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho. No início de junho, o Departamento de Estado dos EUA já havia negado publicamente a possibilidade de haver intervenção militar no Brasil. Essa informação foi antecipada pelo Drive, newsletter premium do Poder360.
Na 4ª feira (8.jul), o governo norte-americano voltou a rejeitar a avaliação do Itamaraty. Chamou a conclusão do governo brasileiro de “absurda”. Disse também que “os Estados Unidos estão adotando medidas decisivas, com base em suas próprias prerrogativas soberanas, para combater narcoterroristas”.
O fato de o documento ter sido uma resposta oficial do governo e enviada ao Congresso foi considerado um fator agravante tanto pelo Planalto como por integrantes das Forças Armadas. Na avaliação de Lula, o tema foge da alçada do Itamaraty.
O Itamaraty não fala publicamente sobre o episódio. Em reserva, o ministério nega que tenha havido a ligação de Lula para Vieira. O Poder360 mantém a sua apuração sobre o telefonema ter sido realizado e que a conversa do presidente com o ministro foi em tom de reprimenda.
Além de causar incômodo no Planalto e nas Forças Armadas, a declaração de Mauro Vieira também provocou desconforto dentro do próprio Itamaraty e na Embaixada dos Estados Unidos –que deve trabalhar para minimizar esse entendimento.
As comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado chamaram Vieira para explicar por que afirmou que os EUA podem fazer uma intervenção militar no Brasil. Os congressistas planejam questionar o ministro sobre o embasamento do posicionamento.
O Itamaraty avalia que a invasão à Venezuela e as operações militares no oceano Pacífico e no mar do Caribe é que abririam precedentes para uma ação parecida em território brasileiro. Por isso Vieira falou da possibilidade de intervenção militar dos EUA no Brasil.
Alguns diplomatas do Itamaraty que concordam com o texto assinado por Mauro Vieira tratam a questão como o que, em linguagem diplomática, é classificado como “cálculo de risco”. Essa ala da diplomacia brasileira avalia que a invasão norte-americana é pouco provável, mas que deve ser sempre considerada.
A principal preocupação é que, com a classificação do PCC e do CV como terroristas, a administração do presidente Donald Trump (Partido Republicano) possa aprovar uma operação militar sem precisar da autorização do Congresso dos EUA –só que essa é uma hipótese já refutada pelo governo norte-americano.
O Poder360 procurou o Itamaraty e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República para perguntar se gostariam de enviar um posicionamento público sobre a reação de Lula. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
EUA REJEITAM DECLARAÇÃO
A porta-voz em língua portuguesa do Departamento de Estado norte-americano, Amanda Roberson, deu entrevista ao Poder360 em 1º de junho de 2026. Afirmou o seguinte: “A lei americana das designações é muito clara: não contempla nenhum tipo de ação militar. É o Departamento de Guerra que tem responsabilidade para ações militares no mundo. Essas designações têm como os seus princípios as suas consequências, restrições de vistos e também restrições financeiras para bloquear as atividades e o apoio aos grupos criminosos”.
Poder 360


