De acordo com o Ministério da Saúde, a estimativa é que aproximadamente 30 mil crianças brasileiras nascem anualmente com algum problema no coração. A partir do cálculo de incidência estimada, podemos dizer que isso representa um a cada cem bebês nascidos vivos no país.

Os dados apontam os números de casos das chamadas cardiopatias congênitas, ou seja, alterações ou malformações da estrutura cardíaca que ocorrem durante o desenvolvimento fetal.

Durante as primeiras seis semanas de gravidez, os principais vasos sanguíneos e o coração começam a tomar forma. É neste momento que as imperfeições cardíacas têm início.

São deformidades ocasionadas por defeitos anatômicos do coração ou dos grandes vasos, capazes de gerar uma anormalidade na função do órgão, alterações do fluxo sanguíneo e influenciar até no desenvolvimento estrutural e funcional do sistema circulatório e respiratório, além de problemas mais graves que colocam em risco a vida.

Há diversas complicações potenciais, como a insuficiência cardíaca, aumento das chances de infecção do tecido do coração (endocardite), acidente vascular cerebral e alterações no ritmo dos batimentos (arritmias).

Do total de bebês que nascem com uma cardiopatia congênita, cerca de 6% morrem antes de completar um ano. Em situações graves, ela pode ser a responsável por 30% das mortes após o nascimento.

É possível ainda que a criança apresente cardiopatias adquiridas, problemas que surgem em decorrência de outras condições, fatores ou doenças, a exemplo da miocardite, infecção no músculo do coração, geralmente secundária a um quadro viral.

Em todos os casos, o diagnóstico precoce, até mesmo durante a gravidez, e o tratamento no tempo certo podem minimizar riscos, oferecer mais qualidade de vida e evitar que a criança venha sofrer consequências com a descoberta tardia.

E como saber se a criança tem algum problema?

Com o feto ainda no útero, boa parte dos problemas podem ser detectados durante o pré-natal —acompanhamento médico que por esta e outras questões é imprescindível para saúde da mãe e do bebê.

Durante os exames regulares, o ultrassom morfológico é capaz de apontar indícios de cardiopatia e, a partir de dele, a investigação ser complementada por um ecocardiograma fetal e até analises genéticas.

Dados apontam que 50% das cardiopatias congênitas geram sintomas durante a gestação ou imediatamente após o nascimento, nos primeiros dias de vida.

Há também a possibilidade de a alteração só poder ser confirmada com testes após o nascimento ou percebida depois de alguns anos de vida, inclusive com diagnóstico já na adolescência e, às vezes, até com o indivíduo na fase adulta.

Sinais que devem ser observados nos primeiros meses

De modo geral, os indicativos mudam de acordo com a faixa etária em que a cardiopatia se manifesta. Entre os sintomas mais frequentes no primeiro ano de vida, vale destacar: respiração rápida ou falta de ar, cansaço, irritabilidade, transpiração excessiva e interrupção durante as mamadas, inchaço nas pernas, abdome ou áreas ao redor dos olhos.

Além disso, a coloração dos lábios ou da pele, de aspecto cinza pálido ou azul (com intensidade variável) é mais uma evidência a ser observada.

Em crianças um pouco maiores, agachamentos súbitos (postura de cócoras) acompanhados da piora da cianose (coloração arroxeada) também devem servir de alerta. Eles apontam a possibilidade da chamada crise de hipóxia, decorrente da redução abrupta de fluxo de sangue aos pulmões.

Adicionalmente, quadros respiratórios alterados, com possibilidade de evoluir para uma bronqueolite, broncopneumonia ou infecções pulmonares de repetição, também são considerados indícios de problemas cardiológicos.

Outro sinal de anormalidade pode ser detectado no acompanhamento pondero-estatural, ao identificarmos um afastamento da linha da normalidade na curva de crescimento peso x estatura.

Outros sintomas na infância

Portadores de cardiopatias podem não manifestar nenhum sinal perceptível inicialmente, mas, com o passar do tempo, se tornarem sintomáticos. Crianças maiores tendem a revelar sintomas em atividades de recreação ou esportivas e chamam a atenção para a possibilidade de outro grupo de cardiopatia congênita —obstruções na dinâmica do coração esquerdo ou ainda alterações anatômicas da valva mitral.

Nessas ocasiões, elas não conseguem acompanhar os colegas, com frequente falta de ar ou respiração ofegante, cansaços excessivos, tontura e dor no peito, desmaios e inchaço nas mãos, nos tornozelos ou nos pés durante o exercício ou brincadeira.

Há também indicativos a serem observados no desenvolvimento, que ocorre de forma mais lenta. Normalmente, crianças com defeitos cardíacos congênitos apresentam restrições em certas atividades, dificuldades de aprendizagem, demora em andar e falar, por exemplo.

No caso de crianças portadoras da síndrome de Down (trissomia no gene 21), elas precisam de uma atenção especial para os sintomas de insuficiência cardíaca, uma vez que é muito frequente apresentarem uma cardiopatia congênita simples, de comunicação interventricular ou interatrial e, principalmente, uma malformação conhecida como defeito do septo atrioventricular —causando grande fluxo de sangue aos pulmões com necessidade de tratamento cirúrgico até o sexto mês de vida.

Tem como prevenir?

Segundo pesquisas, a maioria dos defeitos cardíacos congênitos resulta de questões originadas no desenvolvimento do coração e tem causa desconhecida.

Dados revelam que mais de 90% das malformações cardíacas ocorrem em fetos sem qualquer indicador de risco. Entretanto, estudos apontam que certos fatores ambientais e genéticos têm papel importante.

Desta forma, não há maneira de prevenir, porém, algumas mudanças comportamentais contribuem para o bom desenvolvimento do bebê, especialmente em caso de gravidez planejada.

O uso de medicamentos sem o conhecimento médico, álcool, cigarro e outras drogas, doenças maternas, entre elas o diabetes, rubéola, toxoplasmose e outras infecções durante o período gestacional, podem interferir na formação do coração, assim como a idade da mãe —muito jovem ou com mais de 40 anos.

Aqui ainda vale destacar a herança genética e o histórico familiar. Quem tem pais, avós, tios ou irmãos que passaram por algum problema cardíaco tem mais chances de apresentar anomalias no órgão que muitas vezes só são descobertas após o corpo dar algum sinal.

Além disso, algumas doenças são geneticamente transmitidas, mesmo que não exista nenhum fator de risco associado ou a existência de hábitos ruins e falta de cuidado com a saúde, a exemplo da cardiomiopatia hipertrófica familiar, cardiomiopatia familiar dilatada, hipercolesterolemia familiar ou ainda miocardiopatias, doenças degenerativas da aorta e aquelas responsáveis por arritmias cardíacas, como a displasia arritmogênica do ventrículo direito, a síndrome do QT longo e a síndrome de Brugada.

A importância da descoberta precoce

Alguns defeitos cardíacos congênitos são simples e não precisam nem mesmo de tratamento. No entanto, em torno de 80% dos casos diagnosticados são de crianças que vão precisar de acompanhamento e até de cirurgia para a correção anatômica ou funcional da cardiopatia logo após o nascimento, no primeiro ano ou ao longo da vida.

O ponto positivo é que, apesar de não ser possível curar cardiopatias com o tratamento intrauterino, podemos realizar intervenções para melhorar o prognóstico da doença e as condições do coração, permitindo uma evolução mais favorável. Em grande parte dos casos, o fato de a alteração ser detectada e tratada precocemente aumenta muito as chances de sobrevida.

Caso o problema não seja detectado antes ou logo após o parto, a presença de sintomas na infância são um alerta. A investigação deve ser iniciada imediatamente aos pais ou responsáveis notarem a presença de algum dos sinais, evitando a evolução natural da cardiopatia e suas eventuais complicações.

Vale destacar aqui que o diagnóstico e tratamento da cardiopatia congênita infantil são oferecidos de forma integral e gratuita no SUS (Sistema Único de Saúde).

Além disso, mesmo sem qualquer indício claro, os pequenos que vão iniciar práticas esportivas de forma mais intensa, especialmente aqueles que possuem histórico de doença cardiovascular na família, devem fazer uma avaliação cardiológica.

O que devemos ter em mente é que quanto antes as cardiopatias congênitas são diagnosticadas, maiores as probabilidades de sucesso no tratamento e de que a criança e o adolescente tenham vida normal quando chegarem à fase adulta.

Fonte: VivaBem