Créditos: Vínicius Marinho/Inter TV Cabugi
As previsões para 2026 ainda divergem, mas a experiência recente mostra que eventos extremos podem ocorrer mesmo quando o aquecimento do Pacífico não atinge níveis recordes.
À medida que nos aproximamos do início de um novo El Niño, cresce também a preocupação com seus possíveis impactos. Mas existe uma pergunta que merece ser feita antes de todas as outras: precisamos realmente de um super El Niño para enfrentar eventos climáticos extremos?
A resposta é não.
A expressão “super El Niño” não corresponde a uma classificação científica oficial. Trata-se de um termo amplamente utilizado pela imprensa para designar os episódios mais intensos já registrados, como os de 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016. Em todos eles, as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficaram muito mais quentes do que o normal durante vários meses, alterando padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta.
O El Niño de 2023–2024 não chegou ao mesmo patamar de eventos anteriores. Embora tenha sido considerado um dos mais intensos pela Organização Meteorológica Mundial, o aquecimento do Pacífico ficou abaixo dos níveis observados em outros grandes eventos históricos. Ainda assim, seus efeitos foram expressivos.
No Brasil, o exemplo mais evidente foi a tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024. Evidentemente, as enchentes tiveram múltiplas causas, incluindo condições meteorológicas específicas, características das bacias hidrográficas e questões relacionadas à ocupação do território. Mas elas ocorreram em um ambiente climático favorecido pelo El Niño. O episódio mostrou que não é necessário um fenômeno recordista para que ocorram consequências históricas.
As previsões para 2026 também recomendam cautela. Para estimar a evolução do clima, os centros meteorológicos utilizam modelos computacionais que simulam o comportamento dos oceanos e da atmosfera. Esses modelos funcionam como ferramentas de projeção de cenários futuros e são constantemente avaliados com base em sua capacidade de reproduzir eventos passados.
Entre os modelos que tiveram bom desempenho ao antecipar o El Niño de 2023–2024 estão o NCEP CFSv2, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA, o UKMO, do serviço meteorológico britânico, e o CMC CanSIPS, do Canadá. O fato de esses sistemas terem se mostrado eficientes no passado faz com que suas projeções atuais sejam acompanhadas com atenção.
O problema é que hoje eles não estão apontando para a mesma direção. Enquanto alguns — como o UKMO - sugerem um evento forte, outros — como o NCEP CFSv2 - indicam um aquecimento capaz de se aproximar dos maiores episódios já observados. O CMC CanSIPS, por sua vez, sugere que teremos um evento de média intensidade. Essa divergência é um sinal de que ainda existe incerteza sobre a intensidade do fenômeno.
Outro elemento importante nessa equação é a Oscilação Decadal do Pacífico, conhecida pela sigla PDO. Ela é como uma “personalidade de longo prazo” do Oceano Pacífico, que alterna entre duas fases a cada poucas décadas.
De maneira simplificada, na fase positiva, o Pacífico Norte fica mais quente, o que costuma turbinar o El Niño. Na fase negativa, ele fica mais frio, agindo como um freio natural, enfraquecendo o El Niño. O problema é que, com o aquecimento global, essa regra antiga já não funciona como antes — a fase negativa atual não está esfriando o oceano como deveria, e esse “freio” pode não segurar o El Niño em 2026.
É justamente por isso que os climatologistas acompanham não apenas o El Niño, mas também outros componentes do sistema climático. O impacto final resulta da interação de vários fatores, e não apenas da temperatura do Pacífico Equatorial.
A principal lição deixada pelos últimos anos é que a classificação do fenômeno importa menos do que seus efeitos. Em um planeta mais quente, mesmo um El Niño moderado pode ser suficiente para aumentar o risco de secas, ondas de calor e episódios de chuva extrema.
A pergunta mais relevante, portanto, não é se teremos um super El Niño em 2026. A pergunta é se estaremos preparados para lidar até mesmo com os impactos de um evento de média intensidade.
Com informações de Pedro Côrtes, da CNN.


