Torres de 120 metros de altura – do tamanho de um prédio de 30 andares – despontam no horizonte de Touros, município do Rio Grande do Norte a 87 km da capital, Natal. 

Sérgio Pinheiro de Oliveira, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO), levanta os olhos em direção ao céu para alcançar as gigantes. 

Pela primeira vez, no Brasil, ele está em um parque eólico. 

“O Rio Grande do Norte e o Nordeste poderão ser as molas propulsoras energéticas do país”, analisa o pesquisador, se referindo não à capacidade instalada em empreendimentos de energia eólica como o que vê, em terra, mas ao potencial dos ventos medidos na região para geração desse tipo de energia com futuros parques no mar, assim como a perspectivas que se abrem com o chamado “hidrogênio verde”. “Essas novas tecnologias, e o hidrogênio verde, vão gerar novas profissões, empregos bem remunerados e perspectivas de melhorias para a infraestrutura”, exemplifica Oliveira. 

Ele integra um grupo de 21 representantes de instituições que se debruçam sobre temas como meio ambiente e energia, e que durante dois dias discutiram no Rio Grande do Norte os desafios e as oportunidades que esses novos setores trazem, para o Brasil e o Nordeste – região que concentra 90% da capacidade instalada de energia eólica no país, atualmente.

A discussão foi o ponto central da 48ª edição do Conhecendo a Indústria, programa desenvolvido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e realizado pela primeira vez no Rio Grande do Norte. 

O evento teve como tema principal “Hidrogênio Verde” e foi promovido em parceria com o Sistema FIERN, que engloba o SENAI, o SESI, o IEL e a Federação das Indústrias no estado.

A programação incluiu paineis de discussão, além de visitas técnicas focadas em questões como potencial energético, necessidades de formação profissional, de infraestrutura e de regulamentação, assim como de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I) na área.

“Foi um evento bastante produtivo e vai servir para acelerar a questão da transição energética no Brasil, com aproximação com o setor privado”, avaliou o pesquisador do INMETRO, órgão que tem, entre outras atribuições, as de fornecer padrões para medições e qualidade no setor de energia, além de atuar com papel de agência reguladora relacionada à atividade e à eficiência energética. 

O Conhecendo a Indústria também reuniu integrantes da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), de Ministérios – da Educação (MEC), de Minas e Energia (MME), da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e da Economia (ME) – além da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Senado e da Câmara dos Deputados. 

NOVOS SETORES

O Rio Grande do Norte, que lidera a geração eólica em terra, é apontado como uma das zonas mais promissoras para investimentos também em futuros parques eólicos offshore, no mar – vistos como entre as bases fundamentais para o nascimento e a sustentação da indústria do hidrogênio verde no Brasil. As duas atividades dão os passos iniciais no país e estão à espera de regulamentação. 

Somadas, elas abrem novas perspectivas para a redução de gases do efeito estufa, para o desenvolvimento tecnológico do país, para a redução das desigualdades regionais e, ainda, para o incremento da pauta de exportações brasileiras. “O hidrogênio produzido a partir de fontes de energia renováveis é visto como solução nesse contexto porque poderá substituir gradualmente outros tipos de hidrogênio usados como matérias-primas industriais e combustíveis que consomem derivados de petróleo – considerados mais poluentes”, explica o diretor do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) e do departamento regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello.

“Mas não só por causa disso. Fundamentalmente, esse hidrogênio seria um meio de armazenar energia e possibilitaria ao Brasil a inédita oportunidade de exportar energia eólica e solar para outros países”, observa. A energia offshore seria a principal fonte de produção desse tipo de hidrogênio e, na outra ponta, um potencial produto para o comércio exterior, em meio à crescente demanda energética mundial.

“E as pessoas que vão se envolver no desenvolvimento dessas atividades precisam conhecê-las profundamente para que o Brasil possa aproveitar de forma integral as oportunidades que virão com essas cadeias produtivas”, destaca o diretor sobre a relevância das discussões durante o evento.

CONTRIBUIÇÃO

Dados divulgados no Conhecendo a Indústria pela consultora técnica da EPE, Patrícia Feitosa Bonfim Stelling, mostram que o Brasil tem potencial técnico para produzir 1.715 milhões de toneladas de hidrogênio verde por ano – o equivalente a aproximadamente 14 vezes a demanda mundial de hidrogênio em 2018 – e que a grande força para impulsionar essa indústria está no offshore: na energia solar fotovoltaica e na eólica.

“O hidrogênio verde e as eólicas offshore são temas ainda muito novos no Brasil e eu acredito que novos desafios, novas perspectivas poderão surgir, ao mesmo tempo que (essas cadeias) poderão contribuir com a economia do Rio Grande do Norte e do Nordeste”, diz o analista ambiental do Ibama e também participante do evento, Heitor Castro.  “Eu acredito que participar desse evento e ter essa troca de conhecimentos, essa integração com representantes de diversas instituições, é muito importante para que se tenha uma espécie de delineamento comum, para que todos possam falar a mesma linguagem”, acrescenta. O Ibama é o órgão responsável por licenciar os projetos offshore.

Para o gerente de relações governamentais da CNI, César Galiza, a perspectiva é que a integração de agentes relacionados/as a essas atividades ajude a incrementar a percepção sobre o que o horizonte sinaliza, e a trazer retornos positivos com o tempo.  “As instituições que convidamos vão levar essas informações, vão amadurecê-las para aplicação no dia a dia de cada órgão e isso vai contribuir com o desenvolvimento dessa indústria no processo de regulamentação. Toda essa discussão é importante para que a regulamentação aconteça e evite insegurança jurídica. Para que o empresariado possa seguir aquela norma e para enfim poder instalar os seus empreendimentos”, diz.

A programação do Conhecendo a Indústria foi encerrada na sexta-feira (24). Pela manhã, houve visita técnica ao Hub de Inovação e Tecnologia (HIT) do SENAI-RN – que sedia o ISI-ER, Instituto que pesquisa rotas sustentáveis de produção de hidrogênio há mais de 10 anos e que é a principal referência do SENAI no Brasil em PD&I em energia eólica, solar e sustentabilidade, e o Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER) – escolhido pelo SENAI como centro de excelência e coordenador nacional de projeto com a entidade alemã de cooperação GIZ, para desenvolver infraestrutura, metodologias e cursos para formação de profissionais que irão atuar na cadeia produtiva do hidrogênio, no país. 

Já à tarde, o roteiro foi concluído no Complexo Eólico Gameleira, da CPFL Renováveis, uma das maiores empresas no segmento de geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis no Brasil e, no estado, responsável por 12,6% da capacidade instalada de energia eólica em terra. O Complexo eólico, em Touros, está em operação há um ano e inclui 23 aerogeradores, com torres de aproximadamente 120 metros de altura e potência somada de 81,65 Megawatts. 

Ao todo, os investimentos da companhia no estado somam R$ 4,1 bilhões até o momento. A atuação se dá em quatro municípios, com um total de 33 parques eólicos em operação e uma capacidade total de 843,25 MW – suficiente, segundo a CPFL Renováveis, para atender 3,77 milhões de pessoas.